Israel nunca conseguirá um acordo melhor que o que rejeitou, por Gideon Levy
Original aqui. Tradução de Paula Marcondes, revisão de Idelber Avelar.
Era uma vez um fazendeiro que queria economizar em ração. Todos os dias ele reduzia a quantidade de alimento para seu cavalo, via se funcionava e continuava cortando cada vez mais, até que o cavalo não teve nada para comer. O cavalo morreu.
Esse conto banal foi agora revivido a partir dos documentos palestinos vazados para o canal por satélite Al-Jazeera.
O fazendeiro de Israel fechou a mão e o cavalo palestino estava pronto para morrer. Um deles se salvou, o outro expirou. Os palestinos já tinham concedido a maior parte de seu mundo e a gananciosa Tzipi Livni insistia: que tal Har Homa e Maaleh Adumim?

Bairro de Har Homa, em Jerusalém Oriental
Foto de: Emil Salman / Jini
O terror cessou, eles estão agora coordenando assassinatos seletivos para servir Israel. Vendendo suas almas ao diabo, são favoráveis ao enclausuramento de Gaza. Mahmoud Abbas explica, como um propagandista israelense, que o retorno dos refugiados destruirá o Estado de Israel. Talvez 10.000 por ano, eles ainda estão tentando–em vão. Livni não concorda.
Concederam a maioria dos assentamentos em Jerusalém, a Cidade Velha também não está mais exclusivamente em suas mãos, e nada. Betar Ilit e Modi’in Ilit são nossos e isso não é suficiente para Israel, como se o país tivesse esquecido de que as fronteiras de 1967 já são a concessão palestina.
O que mais queremos? O que mais Israel vai pedir ao cavalo moribundo, um momento antes que ele renuncie ao espírito? Um estado palestino na grande Abu Dis? Hatikva como seu hino? E o que acontecerá depois, quando o cavalo morrer? Surgirá um pônei selvagem, que nunca aceitará viver sob as condições do velho cavalo.
Nunca, mas nunca, Israel receberá um negócio melhor do que o agora revelado–e o que resultou disso? Rejeição de Israel. Rejeicionismo. Não, não, não, absolutamente não.
E sim a quê? A continuar a ocupação, perpetuando o conflito. A partir de agora, podemos dizer aos nossos filhos: Por Har Homa, vamos continuar vivendo à beira do vulcão. Essa é a verdade terrível. Os colonos subjugaram Israel. Não é difícil imaginar como teria sido possível devolver a Cisjordânia a seus proprietários se não houvesse centenas de milhares de colonos vivendo nela.
Se não fosse por essa empresa, teria havido paz. Agora que ela já está estabelecida, Israel já não é capaz de erguer-se e se desvincular de seu estrangulamento.
Gerações de diplomatas Israelenses realizaram discussões com seus homólogos palestinos, compreendendo a gravidade do momento, e até mesmo se tornando mais flexíveis, até que o medo dos colonos os captura. Nem a segurança de Israel nem o futuro do país os preocupa, só o medo da retirada, e nenhum deles consegue superá-lo.
Estão sempre perto de uma solução, à mão, e ainda assim a anos-luz de distância. Todos os proponentes da paz ao longo de gerações, Yitzhak Rabin e Shimon Peres, Ehud Barak, Ehud Olmert e Livni, tiveram medo de dar o único passo que poderia trazer a paz: a evacuação dos assentamentos colonizadores.
Depois da noite em que os documentos foram divulgados pela Al-Jazeera, com Livni representada por um locutor falando Inglês com um sotaque israelense particularmente repulsivo, uma grande comoção poderia ser ter sido esperada no dia seguinte, não só nas ruas palestinas e no mundo árabe, mas também nas ruas de Israel.
E que (previsível) surpresa: os palestinos e os árabes levantaram um clamor contra as concessões de longo alcance da Autoridade Palestina, ameaçando esmagá-la de uma vez por todas, e em Israel: o silêncio.
Quem se importa com outra fatídica oportunidade perdida? Quem se importa que, por esta história dos imóveis na Cisjordânia, Maaleh Adumim e Ariel, estejamos condenados a mais vidas de guerra, perigo e ostracismo.
Quem se importa que, durante uma década, os nossos líderes descaradamente nos mentiram, nos enganaram, dizendo que não há um parceiro, que os palestinos são evasivos nas respostas, que não há nenhuma proposta palestina, e acima de tudo, que Israel quer a paz, mas não os palestinos.
Nós ansiosamente bancamos as mentiras e, agora que elas foram expostas, permanecemos apáticos. Tumultos? Protestos? Fúria dirigida àqueles que perderam a chance e enganaram a nação? Não em nosso quintal.
Agora, o cavalo irá morrer aos poucos. Uma vez dissemos que Yasser Arafat era o último obstáculo a um acordo e que, se ele fosse retirado, a paz viria. Agora seu sucessor, Mahmoud Abbas, também vai desvanecer, o líder palestino mais moderado de todos os tempos, enganado, amargo e desesperado.
Em Har Homa outro bairro será construído, no campo de refugiados de Balata outra geração surgirá, determinada a travar batalha, e nas ruas de Tel Aviv – os bons tempos vão rolar.
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PS: Ao longo dos posts agrupados sob a tag Palestina Ocupada, elencam-se as razões do blog para não publicar comentários sobre o tema.

Menos óbvio é o fato de que a coalizão que sustenta a Ministra Ana de Hollanda é heterogênea, e dizer “a Ministra do ECAD” é tão falso como foi o retruque da própria Ministra, quando 


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