Clube de Leituras: Rubem Fonseca e Roberto Bolaño
Este é um post do Clube de Leituras dedicado à discussão de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, e O Olho Silva, do chileno Roberto Bolaño. Caso você prefira ler o conto de Bolaño no original, em diagramação melhor, ele está disponível aqui. Vou escrever pouco, porque a ênfase é mesmo na conversa da caixa de comentários. A única regra do Clube é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.
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Causou escândalo a publicação de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, em 1975. O livro chegou a ser proibido pela ditadura militar, não por motivos políticos, mas por “atentado à moral e aos bons costumes”. Fonseca inaugura uma tradição que teria longa história na literatura brasileira, estendendo-se até os dias de hoje. Não são poucos os ficcionistas (especialmente paulistanos e cariocas) que tomariam Fonseca como modelo para o retrato da violência urbana.
Em termos estilísticos, o conto apresentava certa novidade em relação às representações anteriores da violência. Desaparece o sóbrio narrador da antiga ficção realista, que descrevia os fatos a partir de uma posição distanciada. As frases são curtas, grosseiras, chulas. Já no início do relato, o texto nos instala no interior da reunião dos marginais que recebem as armas e preparam o assalto. Há que se notar a escolha do autor: em vez de narrar a partir do ponto de vista das vítimas (em cujo caso o conto se iniciaria, por exemplo, com a festa dos grã-finos, para depois passar ao choque provocado pela chegada dos assaltantes), Fonseca conscientemente escolhe o ponto de vista destes últimos. Ali se vê o ressentimento de classe, o machismo, a brutal distância que os separa do Rio de Janeiro dos burgueses da Zona Sul.
Outra marca característica da representação da violência que se inicia com Rubem Fonseca é que ela já não traz qualquer conteúdo socialmente redentor. Enquanto que em longa tradição anterior de literatura realista, a violência costumava estar associada a um projeto de transformação social, aqui ela é gratuita e irredimível. O emblema disso é a discussão entre os assaltantes, sobre se os corpos grudam ou não grudam na parede quando assassinados com metralhadora escopeta. A significação da brutalidade e da violência parece se esgotar em si mesma. Não aponta para nada que a transcenda.
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Não sei a quantas anda a bolañomania no Brasil, mas ela vai se espalhando pelo mundo de língua inglesa com uma rapidez impressionante. “O Olho Silva” (do livro Putas Assassinas, de 2001) não é, em minha opinião, um de seus melhores contos, mas serve como introdução ao mundo de Bolaño: a melancolia dos jovens de esquerda que, nascidos na década de cinquenta, encararam nos anos setenta a derrota de seus projetos revolucionários. Bolaño é implacável com esse mundo. São temas recorrentes as idealizações retrospectivas do exílio, o egocentrismo e a mesquinharia, a vocação para a desgraça que parece acompanhar essa geração.
No entanto, Bolaño tampouco faz essa autópsia a partir de uma posição exterior. É nítida a empatia do narrador com o personagem que, em meio à homofobia da esquerda da época, demora um bom tempo para assumir sua homossexualidade. Os personagens de Bolaño perambulam pelo mundo (exatamente como seu autor, iconoclasta marginal que chegou a passar fome na Espanha) e vão tentando fazer sentido do que lhes ocorreu a partir de certas migalhas da experiência.
A castração de crianças na Índia aparece ao personagem como uma figura da fatalidade (O que aconteceu em seguida, de tão repisado, é vulgar: a violência da qual não podemos escapar. O destino dos latinoamericanos nascidos na década de cinquenta). O conto termina in media res, mas sugere que nada se alterará nesse ciclo de misérias ao qual os personagens parecem estar condenados. Parte da fascinação da literatura de Bolano advém, creio, do fato de que essa fatalidade não é representada em tintas naturalistas, ou seja, os personagens mantêm considerável iniciativa e individualidade. Mas ela não parece suficiente para reverter o movimento triturador da História.
Estes são meus dois centavos. O que acharam dos contos?



