Festival Internacional de Lafayette, 2009
Aconteceu no último fim de semana o Festival Internacional de Música de Lafayette, Louisiana, que coincide sempre com o primeiro fim de semana do JazzFest, em New Orleans. É uma escolha dura. Tenho preferido, nos últimos anos, pegar o carro e encarar as 120 milhas para ver o festival em Cajun Country. Não me arrependo. É só música de outros países e da Louisiana (para ver a programação completa, você terá que abrir este pdf). Aí vai um resumão do pouco que vi este ano. Não aguento mais ficar 8 horas ao ar livre escutando música. É a idade.
Na noite da sexta, Ana e eu chegamos a tempo de passar pelo rito de orgulho nacional, esgasgamento expatriado, cantoria em português e identificação de brazucas ao longe: o Ilê Aiyê tomou o palco. Vieram só 15 pessoas, claro. 12 percussionistas: a linha pesada atrás e outra linha com repeniques e caixas. Competiam com Alpha Yaya Diallo, o grande guitarrista e cantor da Guiné. Minha sensação é que manadas de gente se deslocaram de um palco para outro ao longo do show, atravessando a extensão do centrinho de Lafayette. O Ilê engoliu o grande artista africano.
Se você não gosta do Ilê – da música, ou do que eles representam, ou do que já fizeram — ou, pior, se você não ouviu e não gostou, realmente eu sou bem cético quanto à possibilidade de diálogo entre nós dois. Eu nem coloco música do Ilê para escutar em casa. Mas vê-los me produz uma alegria profunda.
No sábado, a coisa começou para mim já à tarde, com o Chicha Libre, que vinha etiquetado como “cumbia peruana psicodélica”. Chegou-se a um momento na nomenclatura da música pop em que qualquer adjetivo pode significar qualquer coisa, então você tem que ir ver. O Chicha toma cumbia de tudo quanto é canto (trata-se de gênero com formas muito diferentes na Colômbia, na Argentina, no Peru etc.) e faz um pastiche pop mesmo. Há dois videozinhos vagabundos, feitos com minha Sony P200, mas dá para dar uma ideia do som:
Não gostei do afro pop de Dobet Gnahoré. A guitarra é aquela coisa: já ouvi antes e melhor em King Sunny Adé. Presença de palco não é o forte dela tampouco. Depois vi um pouco dos roqueiros lá de Lafayette mesmo, os Amazing Nuns. Gostei. Aprecio roqueiros que têm suíngue. Se são daqui, e sabem tocar bluegrass, conquistam meu coração mesmo. A música disponível lá no MySpace deles nem é grande coisa. O show é melhor.
Entre um sanduíche de jacaré e um pastel de lagostim (a comida nesse festival é todo um tema), eu guardava energia para o fechamento do sábado, que prometia: uma banda franco-árabe-africana com nome aludindo a literatura russa, Tarace Boulba.
Pu-ta-que-pa-riu.
O TB é um combo de hard funk, com uma verdadeira orquestra de sopros, super percussão e bailarinas(os). Transitam por sons do Mediterrâneo, por polirritmia subsaariana, pelo jazz, mas tudo sobre essa base sensacional que é o funk americano. Eu juro que cheguei a anotar mentalmente quantos trompetes, trombones etc. para descrever aqui. Exausto de sacudir o esqueleto e acompanhar o show, joguei fora as anotações mentais.
De novo, o vídeo é vagabundo, mas dá uma ideia da energia do show deles:
(aqui dá para ver uma jam sua e aqui um show, em vídeos de melhor qualidade)
Com o corpo triturado pelo Tarace Boulba, não houve jeito senão perder o show de Rachid Taha, da Argélia.
No domingo, pegamos leve. Só fomos mesmo conferir Rupa and the April Fishes, uma interessante banda de San Francisco liderada por uma indiana-americana que divide o tempo entre a guitarra e o estetoscópio. Linda, ela:
É bonito e de bom gosto o show deles. Baixo acústico, acordeão, bateria de leve e às vezes o violoncelo. Rupa alterna entre o violão e a guitarra. O repertório inclui de polcas a corridos e música de cabaré, mas com um tratamento bem deles. A vocalista, especialmente, é um emblema da globalização: indiana-americana, ela canta em francês e em espanhol.
Não sem antes ver um pouco de Dengue Fever, que é um rock do Camboja bem ruim, demos nosso último suspiro. Perdemos os shows do Roots Underground, da Jamaica, do Malajube de Québec e dos Crocodile Gumboot Dancers, da África do Sul.

O texto que se segue é de autoria de meu amigo Francisco Foot Hardman, professor da UNICAMP. A foto é
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