Ementa de curso: Música popular brasileira e cidadania

 


(aí vai a ementa de um curso sobre música brasileira, a ser ministrado em breve, em Buenos Aires)

Música brasileira popular e cidadania

No Brasil, a música popular tem sido tanto um mecanismo através do qual grupos socialmente oprimidos estabelecem reclamos de cidadania como um instrumento na formulação de políticas disciplinares do estado. A música trouxe os corpos negros e mestiços para o centro da esfera pública urbana no fim do século XIX, com o maxixe, mas também codificou mensagens de obediência através da pedagogia do canto orfeônico manipulada pelo Estado Novo nos anos 1930 e 40. A música alegorizou esperanças e angústias como nenhuma outra forma de arte durante a ditadura militar nos anos 1960 e 70, mas também, naquele mesmo período, ofereceu à classe média o paradigma de uma concepção estética excludente, baseada na pertença imaginária a uma comunidade de consumidores sofisticados – operação chave na evolução do conceito de “MPB” nos anos 70, que impôs um considerável estigma de “mau gosto” sobre as preferências musicais dos setores populares. A música cumpriu um papel decisivo na reconstrução da auto-estima de inúmeras comunidades brasileiras, do renascimento do Candeal, em Salvador, à entrada definitiva de Recife na cena pop internacional. Por outro lado, a música é a matéria-prima da indústria do jabá, o famoso suborno às estações de rádio tão comum no Brasil. A música brasileira popular seria, portanto, um fenômeno que é essencialmente contraditório e produz múltiplos efeitos políticos. O curso enfocará uma série de momentos na evolução da música brasileira popular ao longo do século XX, tanto na condição de agente produtor como na de elemento de obstrução da cidadania. Analisaremos, com efeito, os dois movimentos simultaneamente, oferecendo a imagem dinâmica de uma prática cultural cujo sentido político nunca está dado de antemão.

1o seminário: O maxixe, primeiro gênero musical urbano brasileiro.
José Miguel Wisnik, Machado Maxixe
Machado de Assis, “O Machete” e “Um homem célebre”
José Ramos Tinhorão, Música popular: Os sons que vêm das ruas
Referência online: Sovaco de cobra.

2o seminário: A narrativa épica sobre o surgimento do samba.
Nei Lopes, Sambeabá.
Muniz Sodré, Samba: o Dono do Corpo.

3o seminário: A crítica da narrativa épica
Hermano Vianna, O Mistério do Samba.
Carlos Sandroni, Feitiço Decente.

4o seminário: Parte I: O samba dos anos 30 e a figura do malandro.
Cláudia Neiva de Matos, Acertei no Milhar: Samba e malandragem no tempo de Getúlio

Parte II O conceito de música “regional” — Nordeste
Antonio Risério, Caymmi, Utopia de Lugar.

5o seminário: Parte I: A Bossa Nova e a utopia da modernização
Lorenzo Mammi, “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova”

Parte II: O tropicalismo: cidadania na comunidade pop internacional
Antonio Cícero: O Tropicalismo e a MPB

6o seminário: Música jovem contemporânea
Micael Hershmann, O funk e o hip hop invadem a cena
José Telles, Do frevo ao mangue beat
Idelber Avelar, Sepultura and the coding of nationality in sound.