Goleadas de Obama em Washington, Nebraska e Louisiana
A primeira sensação que tive durante a votação aqui na Louisiana estava correta – o comparecimento às urnas foi menor que o esperado, embora o Partido Democrata tenha continuado a tradição de levar bem mais gente para votar este ano que os Republicanos. Pelo menos algumas centenas de afro-americanos foram impedidos de votar por terem sido misteriosamente registrados como Independentes e não como Democratas, mesmo tendo clara memória de que seu registro não era esse. A segunda sensação estava errada. Eu achei que a diferença pró-Obama não seria tão grande. Terminou sendo bem maior que a prevista. Obama levou a Louisiana por 57% a 36%, uma goleada superior às mais otimistas previsões feitas pela campanha do senador de Illinois. Aqui em New Orleans, foi um massacre de 3 x 1. Obama teve 34.267 votos contra 10.239 de Clinton. As goleadas também foram superiores às esperadas nas assembléias de Washington (68% a 31%) e de Nebraska (68% a 32%). Nas Ilhas Virgens, Obama teve praticamente 90% dos votos e levou os 3 delegados da minúscula delegação do arquipélago.
Com margem de erro de um pra cá ou pra lá, Obama conquistou 52 delegados em Washington, 32 na Louisiana e 16 em Nebraska. Hillary levou 26 em Washington, 24 na Louisiana e 8 em Nebraska. No momento, portanto, a contagem dos delegados conquistados pelo voto – excluindo-se os superdelegados, que são os biônicos que podem mudar de idéia a qualquer hora – Obama tem 1.012 contra 940 de Clinton (no momento em que escrevo este post, a CNN ainda não atualizou todos os números; veja aqui e aqui). Se você vir uma alguma fonte apresentando a senadora de Nova York na frente, trata-se de uma contagem que inclui os tais superdelegados, onde ela tem uma substancial vantagem até agora. As próximas primárias acontecem na terça-feira, no Distrito de Columbia (onde fica a capital do país), em Maryland e na Virgínia. Hoje se reúnem as assembléias de Maine, estado branquíssimo onde a coisa parece estar pau a pau. Em DC e em Maryland, a expectativa é de vitória relativamente tranqüila de Obama. Na Virgínia, até há pouco tempo, havia empate técnico, mas tudo indica que a trajetória de Obama é ascendente também por lá. A última Rassmussen já dava 55 a 37 para Obama, mas o número pode estar um pouco exagerado.
Hillary pode superar a diferença pró-Obama nos grandes estados de Ohio, Pensilvânia e Texas, onde ela tem expectativa de vitória. O problema para ela é que várias semanas com manchetes anunciando vitórias seguidas de Obama podem criar um clima difícil de se reverter. Ohio e Texas só votam no dia 4 de março, e a Pensilvânia no dia 22 de abril (veja o calendário completo). Tampouco nesses estados, onde ela era favorita disparada há poucas semanas, a coisa será fácil: o maior jornal de Ohio acaba de endossar Obama.
Um cenário que alguns analistas vêm imaginando – e que a direita republicana saliva de alegria ao escutar – é que é perfeitamente possível que Obama chegue na convenção com mais delegados eleitos que Hillary, mas que ela tire a diferença nos superdelegados e conquiste a indicação. Isso significaria, na prática, que o Partido Democrata estaria escolhendo um candidato pelo voto da burocracia, contra a vontade de seus eleitores. É impossível prever quais seriam as reações caso isso ocorresse. Por exemplo, uma analista da CNN e superdelegada do Partido Democrata à convenção, a new-orleaneana Donna Brazile, já declarou que se os superdelegados escolherem o candidato, ela abandona o partido.
O outro cenário é que os superdelegados – que são, na sua maioria, gente que também terá que se submeter às urnas para renovar seus mandatos de deputado, senador etc. — se recusem a contrariar a vontade dos eleitores e entrem no trem-da-alegria do candidato que tiver mais votos.
O outro cenário seria engraçadíssimo: que o candidato do Partido Democrata seja decidido na primária de Porto Rico, que se realiza em junho. Teríamos a hilária situação de ver o candidato democrata escolhido por cidadãos de um território que não tem direito a voto nas eleições presidenciais americanas.
Uma coisa é certa: a disputa ainda promete muita emoção e vai levar o intrincado sistema de primárias norte-americano ao seu limite.
PS: O lado republicano não se cansa de dar demonstrações de desconforto com seu virtual indicado, John McCain. O carolão-que-se-recusa-a-sair, Mike Huckabee, ganhou de lavada nas assembléias de Kansas e também venceu na Louisiana.
Atualização: Tem entrevista comigo sobre as eleições americanas lá no Imprensa Marrom.


