Perguntas que a imprensa americana não fará, 1

 

Nas ocasiões em que assinalei a vergonhosa cumplicidade da grande mídia americana com as mentiras e manipulações do governo Bush, não faltou quem me colocasse o rótulo de “anti-americano”, como se aceitar uma imprensa subserviente fosse um valor americano sacramentado em algum lugar da constituição. Pois bem, ao invés de fazer críticas iradas, iniciemos hoje uma nova série no blog, que eu espero manter funcionando até as eleições presidencias americanas: perguntas que a imprensa americana jamais fará.

Um artigo da Associated Press de 1985 dizia o seguinte (tradução e grifo meus):

O deputado Tom Loeffler (R-TX), apresentou o prêmio “Lutador da Liberdade do Ano” ao líder da resistência afegã Wali Khan em nome do Conselho Americano para a Liberdade Mundial no dia 03 de outubro.

Loeffler convocou o Congresso e o povo americano para “ampliar o apoio” aos lutadores da liberdade no Afeganistão, lembrando aos ouvintes a luta da própria América pela liberdade.

O Congresso aceitou dar 15 milhões de dólares em assistência encoberta à causa afegã, sendo esta a primeira vez que os legisladores “se prontificaram” a ajudar desde o começo do conflito, de acordo com Loeffler….

Aceitando o prêmio em nome de Khan estava Pir Syed Ahmed Gailani, chefe da Frente Islâmica Nacional do Afeganistão, na qual Khan comanda 20.000 lutadores da resistência.

Outros congressistas que se juntaram a Loeffler incluíam o Deputado Eldon Rudd e o Deputado John McCain, ambos republicanos do Arizona.

reaganmuj.jpg

Considerando que: 1) os ataques do 11 de setembro de 2001 foram perpetrados por uma organização terrorista cujo embrião é precisamente o grupo “premiado” por McCain e seus colegas; 2) que os EUA continuam envolvidos numa guerra civil no Afeganistão contra a mesma força política que antes haviam homenageado e financiado; 3) que o Senador McCain foi parte tanto da homenagem como da aprovação do financiamento para dita organização; 4) que o Senador McCain é hoje o virtual candidato a presidente pelo Partido Republicano, não seria lógico e esperável que uma imprensa livre em algum momento colocasse a ele a seguinte pergunta:

Senador McCain, qual foi o seu papel no financiamento e na homenagem ao embrião do Talibã em 1985?

Como dito antes, não faço previsões em política. Neste caso, no entanto, prevejo sem medo de errar: nenhum veículo da grande mídia americana sequer se lembrará do episódio. É mais fácil e inofensivo investigar com quem ele trepou ou não trepou. Se algum veículo da grande mídia americana se lembrar de fazer ao Senador McCain qualquer pergunta sobre seu papel nos primórdios do financiamento americano ao extremismo islâmico no Afeganistão, eu tiro uma foto com a camisa do ex-Ipiranga e poso com a dita cuja para escárnio geral aqui no blog.

É a imprensa “livre” americana, que tantos jornalistas brasileiros tomam como modelo de democracia, enquanto se queixam dos horrores da “censura” no governo Lula, entre um impropério e outro dirigido sempre livremente contra o presidente do Brasil.

(inspiração e fonte: Juan Cole)