Israel continua seus massacres em Gaza
A sanha assassina do estado de Israel não tem fim. 33 palestinos assassinados em dois dias. 10 deles bebês e crianças. Casas bombardeadas indiscriminadamente em Gaza. Assista se tiver estômago.
A sanha assassina do estado de Israel não tem fim. 33 palestinos assassinados em dois dias. 10 deles bebês e crianças. Casas bombardeadas indiscriminadamente em Gaza. Assista se tiver estômago.

Convite aos paulistas: Se você é paulistano e se interessa por música popular – especialmente por Chico Science e o Mangue Beat – há um programa imperdível neste sábado. É o lançamento de Hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi, do meu amigo Herom Vargas. Acontece na Livraria da Vila — Lorena (Al. Lorena, 1731) a partir das 19 horas. Já terminei de ler e recomendo o livro com toda ênfase. É uma versão da tese de doutorado do Herom, defendida na PUC-SP. Apesar de sua origem, o livro não tem qualquer ranço que atrapalhe o desfrute do leitor não-acadêmico. É um passeio elegante pela noção de hibridismo musical, com histórias saborosas sobre as origens da cena contemporânea de música popular do Recife, que este blog considera a mais rica do Brasil. Daí, Herom passa a oferecer análises originais das canções de Chico Science e Nação Zumbi e de sua inserção na história da música brasileira contemporânea. O início do livro nos traz de volta àquela comovente cena, de Ariano Suassuna – inimigo número 1 do mangue beat – chorando, inconsolável, no enterro de Chico. Livraço. Não perca. Se for ao lançamento, procure o Herom por lá e diga que chegou via Biscoito.
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Convite aos mineiros: Minha amiga Maria Esther Maciel lança seu novo romance, O Livro dos Nomes, pela Companhia das Letras, em Belo Horizonte. O lançamento acontece no dia 04 de março, terça-feira que vem, a partir das 18 horas, na Biblioteca Pública Luiz de Bessa (ali na Praça da Liberdade). Se você acha que eu sou produtivo, é porque não conhece Esther – sem dúvida, uma das principais ensaístas brasileiras contemporâneas, além de reconhecida poeta e romancista. O Biscoito já resenhou um romance anterior de Esther, O Livro de Zenóbia. Este, eu não li ainda mas, sendo de Esther, é coisa fina. Se você está na Alterosas, compareça. Dá tempo de tomar um vinho com ela e voltar para o computador para acompanhar a cobertura das primárias americanas aqui no Biscoito.
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Agora, o auto-jabá: Saíram alguns livros com artigos meus. Deixo o anúncio para quem se interessar. O MLA (Modern Language Association) tem uma série muito útil para professores de literatura, não só universitários, mas de nível secundário também. É o “Approaches to Teaching….”, que reúne artigos destinados a auxiliar o trabalho docente com obras já consagradas. Saiu o Approaches to Teaching the Kiss of the Spider Woman. Se você mora nos EUA (ou não mora, mas lê inglês) e se interessa pela obra prima de Puig, dê uma conferida nesse volume. O meu artigo traz algumas dicas para o trabalho pedagógico com o romance de Puig e o filme de Babenco.
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Saiu o The Ethics of Latin American Criticism: Reading Otherwise, com artigo meu sobre blogs e cidadania, que traz citações a vários blogueiros brasileiros. Não, não posso postar o texto aqui, infelizmente. Tudo o que escrevo para o blog é Creative Commons: copie à vontade, citando a fonte. O que entrego a uma editora ainda está sujeito àquela ultrapassada lei do mundo gutemberguiano, o copyright (não é, meu caro Sergio?).
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Recebi o Boca de lobo, de Sergio Chejfec, lançado no Brasil em tradução de Marcelo Barbão, já conhecido dos leitores deste blog por ter traduzido Duas vezes junho, de Martín Kohan. A versão em português do Boca de lobo, como já de costume para Barbão, é impecável. O prólogo do livro é deste atleticano blogueiro.
PS: A querida Marina W pede para avisar que está de endereço novo. Vai lá.
No próximo dia 04, terça-feira, o Partido Democrata realiza primárias em Vermont, Rhode Island, Ohio e Texas. A sorte da candidatura de Hillary Clinton se joga nestes dois últimos, grandes e ricos em delegados. O próprio Bill Clinton declarou em comício na semana passada que, sem vencer em Ohio e no Texas, Hillary não emplaca a indicação. Os números das quatro últimas pesquisas realizadas no Texas são: Rassmussen, Clinton 46 x 45 Obama; Survey USA, Obama 49 x 45 Clinton; Public Strategies, Clinton 46 x 43 Obama; Insider Advantage, Obama 47 x 46 Clinton. Apesar dos números apertados, o Biscoito está pronto para fazer uma previsão: Obama deverá conquistar a maioria dos delegados do Texas. O primeiro motivo é a curva:

As regras para as primárias do Texas fazem Wittgenstein parecer história em quadrinhos. Vou explicar a parte que entendo. Tem café aí? Está sentado? Vamos lá. 193 delegados estarão em jogo no Texas na terça-feira. Trata-se de um sistema híbrido, de primárias e assembléias (caucus). 126 delegados são alocados pela votação em urna, durante o dia. Os outros 67 serão disputados à noite, no sistema de assembléias. O mesmo eleitor pode votar durante o dia e ir depois às assembléias. Aqui começa a vantagem de Obama. No sistema de assembléias, onde vale a mobilização da base, a diferença em favor de Obama é enorme e não se reflete necessariamente nas pesquisas. Podem esperar uma vantagem dele no universo desses 67 delegados disputados à noite nas assembléias. As primárias do Texas permitem o voto antecipado. Até segunda-feira, já haviam votado 419.404 eleitores. São simplesmente 347.216 mais do que havia sido o caso até este momento em 2004. As primárias do Texas são abertas, ou seja, você não precisa ser um democrata registrado para votar. É outra vantagem para Obama, que goleia com folga entre os eleitores independentes. Os delegados são distribuídos pelos distritos do Senado Estadual:

Desses 31 distritos, os 4 maiores em termos de números de delegados são:
Distrito 14, Austin (8 delegados): linda, boêmia, musical, Austin é a casa da Universidade do Texas, uma das principais universidades públicas do país. É o único lugar do Texas em que eu aceitaria morar. Com enorme população universitária, deverá votar em peso em Obama. A campanha de Hillary despachou Bill Clinton para lá hoje, tentando estancar o sangue. Bill é muito querido na cidade. Os garotos escutaram e deram risadas com o Big Dog. Na terça, votarão em Obama.
Distrito 13, Houston (7 delegados): em Houston se localiza uma das maiores concentrações afro-americanas do estado. Todas as fontes de lá confirmam diferença grande em favor de Obama.
Distrito 23, Dallas (6 delegados): entre os 280.000 negros da cidade Obama leva grande vantagem. Ao contrário do que aconteceu na Califórnia, onde Clinton goleou entre os latinos, os 270.000 votos hispânicos de Dallas devem ser disputados pau a pau. Aliás, entenda-se: a população latina do Texas tem pouco a ver com a da Califórnia. 50% dos latinos da Califórnia são imigrantes. No Texas, este número é 18%. Junto com Nova York e Flórida, a Califórnia tem população latina em sua maioria hispano-falante. No Texas, Arizona, Colorado e Novo México, domina, entre os latinos, a língua inglesa.
Distrito 25, San Antonio (6 delegados): este distrito contém algumas áreas rurais além da urbe, San Antonio. Vantagem de Obama na cidade, vantagem de Clinton nas áreas rurais.
De onde saem, então, os votos de Hillary no Texas? Do sul, na fronteira com o México, e do leste do estado. Nessas regiões, Clinton vem goleando por margem considerável nas pesquisas. O problema para ela é que são distritos pequenos, cuja representatividade é prejudicada pelo sistema de alocação de delegados: vários desses distritos – 16, para ser exato — têm direito a 4 delegados. Para abocanhar 3 dos 4 delegados, um candidato tem que ter 62.5% dos votos. Se vencer por 60 x 40 num distrito de 4 delegados, a alocação fica 2 x 2. Coisas da democracia texana.
O Texas, assim como a Flórida, tem longa história de falcatruas eleitorais. A mais conhecida delas foi o inacreditável processo pelo qual se redesenharam as zonas eleitorais em 2003, com o objetivo de criar distritos que, às vezes, vão se retorcendo como cobras no mapa — é o chamado gerrymandering, que enclausurou os eleitores negros em bantustões com cada vez menos representatividade. Na eleição de 2006, centenas de eleitores negros denunciaram terem sido impedidos de votar. Desta vez, pelo menos a garotada não quis ter surpresas. Mais de 2.000 alunos da Prairie View A & M, histórica universidade negra, andaram a pé 7,3 milhas até Hampstead para votar no último dia 19. Digam se não é bonito:
O que mais complica as coisas para Hillary é a campanha incrivelmente desastrada que ela vem fazendo. Em primeiro lugar, há os efeitos negativos do constante discurso “tudo- é- muito- difícil- inspiração- e- esperança- não- resolvem”. Esses garotos que marcharam 7 milhas para votar não querem escutar de um candidato que eles estão se iludindo e que a esperança não resolve. Depois, repercutiu muito mal a declaração de que eu adoraria ganhar no Texas, mas ele em geral não entra no cálculo eleitoral de um democrata, frase no típico estilo Mark Penn. Ninguém gosta de escutar que seu voto não interessa – especialmente no Texas, onde os democratas já sofrem o suficiente. Todos os grandes jornais do Texas endossaram a candidatura de Obama: Austin Chronicle, Dallas Morning News, El Paso Times, Houston Chronicle, San Antonio’s Express News e Fort Worth Star Telegram.
PS: Para saber tudo sobre as primárias do Texas, confira o excelente blog Burnt Orange Report, que é a fonte de boa parte das informações compiladas aqui. Veja também o Texans for Obama e o Texans for Hillary.
PS 2: Como eu já disse aqui, uma das baixas desta campanha eleitoral é o Left Coaster, que era um excelente blog. A última explicação para o sucesso de Obama: Ah, ele tem mais dinheiro. Esqueceram de explicar por que mais de um milhão de pessoas já se sentiram inspiradas a doar para a campanha, com contribuições em média inferiores a 110 dólares por pessoa. O Left Coaster parou de postar do planeta Terra, simplesmente. Há que se entender as diferenças: Digby, um blog pró-Hillary, continua com a lucidez de sempre.
PS 3: Na terça-feira à noite, o Biscoito fará a cobertura em tempo real das primárias do Texas, Ohio, Vermont e Rhode Island, a partir das 20 horas de Brasília.
Já há alguns anos, Zé Carlos Cipriano vem fazendo um dos mais belos trabalhos da blogosfera: um arquivo de canções, entrevistas, resenhas e comentários sobre a música brasileira no Sovaco de Cobra. Dedique um pouco do seu tempo a mergulhar nos posts atuais e nos arquivos desse extraordinário blog.
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Douglas Ceconello escreveu um magnífico e comovente texto sobre mais um evento trágico num estádio brasileiro: o sr. de 60 anos de idade, torcedor do Criciúma, que perdeu a mão direita na explosão de uma bomba no domingo passado. Está passando da hora de se discutir a sério, no Brasil, a abolição das torcidas organizadas. Não há outro jeito.
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Parabéns, parabéns, parabéns! Eu tenho orgulho de ser amigo de Milton Ribeiro.
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Mais parabéns: Marconi Leal detalha os dez conceitos chave do conservador moderno.
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O Paraíba me passou esse estranhíssimo meme chamado Mulher Frankenstein para Onanistas Fetichentos, e começou com a voz da Peta Wilson. Emendo de primeira: o cabelo da Maria Bethânia dos anos 70, fase Doces Bárbaros. Agora é a vez do Biajoni.
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Minhas impressões dos debates presidenciais da última semana: no Texas, ambos fizeram magníficas apresentações, talvez com ligeira vantagem para Clinton. Ontem, em Cincinnatti, Obama deu uma goleada. Concordo com 2/3 dos que responderam a pesquisa da MSNBC sobre o debate.
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PS: Se alguém quiser me dar umas dicas sobre como ensinar, a distância, um garoto a mexer no iPod nano, eu agradeço. Pelo jeito, a maquininha é bem diferente dos iPods de gerações anteriores. No meu, mais antigo, ao ligá-lo no computador já se abre um “mapa” que lhe permite fazer o “drag and drop” e passar canções do disco rígido para o iPod. Pelo jeito, o nano é diferente. O que aparece é a ficha de um cadastro. Confere? Como lhe ensino a carregar as canções sem nunca ter visto a máquina?
Dedicado a Ju Sampaio, que insistiu.

Um certo professor de literatura cubana de uma universidade pública da Flórida preparava seu histórico de pesquisa e magistério para apresentar aos comitês avaliadores que decidiriam sobre seu tenure, a estabilidade no emprego que, nas universidades americanas, se conquista (ou não) depois de sete anos, em geral. O trabalho do cabra era completamente apolítico. Ele se filiava à semiótica, a chamada ciência geral dos signos, método de leitura bem formalista e asséptico para meu gosto mas que, como qualquer método, tem seus prós e seus contras. Popularíssimo professor, com excelentes avaliações, amplo leque de artigos nas revistas mais conceituadas, dois livros publicados (o requisito para o tenure costuma ser um livro), ele foi aprovado numa votação unânime do departamento. O dossiê seguiu para a esfera superior, a do college, e também ali ele foi aprovado por unanimidade. O presidente da universidade corroborou, como é de costume, a decisão dos especialistas. Só ficou pendente o carimbo do governo estadual, coisa absolutamente pró-forma nas universidades públicas americanas.
Até que um setor da comunidade cubana de Miami entrou em ação. Protestos e abaixo-assinados pediam que o governador cancelasse o tenure do sujeito com um curiosíssimo argumento: o fato de que ele não lecionava a “literatura do exílio” cubano em suas aulas era uma violação do direito de livre expressão da comunidade exilada. Isso mesmo: eu não ensinar sua sub-literatura nas minhas aulas é uma violação dos seus direitos. Um caso comum e corrente de avaliação acadêmica transformava-se numa estranha guerra política. Foi a primeira aula que tive sobre o que a comunidade exilada cubana entende por livre expressão. Seus métodos, que aqui nos EUA têm bastante em comum com os do lobby pró-Israel, colocam boas dúvidas sobre seu compromisso com a democracia, que tanto apregoam querer trazer de volta a Cuba. O tenure foi revertido e a carreira do profissional foi destruída.
O segundo caso é curioso e aconteceu comigo. Passeando pelo centro de Miami, me lembrei de que havia uma notícia argentina, já não me lembro se política ou esportiva, que eu queria conferir. Parei numa banca de jornal e vi o Página 12. Como sabe quem o lê, o Página 12 é um jornal que está, digamos, alguns centímetros à esquerda da Folha de São Paulo. Não é nem de longe um jornal “comunista”. Pedi o jornal ao cubano que estava na banca e lhe estendi uma nota de dez dólares. O sujeito imediatamente iniciou uma diatribe inesquecível: ¿qué quiere Usted con ese diario de comunistas? ¿qué va a hacer con un periódico de comunistas? Por qué leer esas cosas de comunistas? De cada três palavras, uma era “comunista”. O cabra perorava com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos. Atônito, eu o olhava, sem acreditar que, em nome do capitalismo, ele se recusava a me vender um produto da sua própria banca de jornais! Era uma mistura de Fellini com o teatro do absurdo. Normalmente, eu evito esses confrontos, mas decidi que não sairia dali sem o jornal. Coloquei a nota de dez dólares no bolso, tirei o dinheiro trocado, peguei o jornal, enfiei o dinheiro na mão dele, esperei que ele terminasse e lhe disse uma frase da qual depois, em alguns momentos, me arrependi: não vou escutar palestra política de jornaleiro.
Conto os casos para ilustrar a imensa falta de credibilidade de boa parte dos que gritam por “democracia” em Cuba. O problema é que, do outro lado, na esquerda, a situação é bem problemática também. Eu tenho amigos que até muito recentemente diziam que essa história de presos políticos em Cuba é propaganda. Movida pela compreensível solidariedade a uma Revolução acuada e sabotada pelo país mais poderoso do mundo, pela indignação com as centenas de tentativas de assassinato a Fidel, a esquerda fez vista grossa a uma situação indefensável. Agindo assim, perdeu credibilidade também. Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos. Aí eu não posso deixar de lamentar que as pessoas dedicadas a defender a Revolução Cubana — causa mui legítima — simplesmente não mencionem o fato. Vira uma ladainha: os defensores mencionam educação e saúde; os detratores mencionam a falta de imprensa livre e os presos políticos. Ambos têm razão. Ambos vão perdendo a razão na medida em que se recusam a olhar a coisa de uma maneira mais trimensional.
O bloqueio americano tem o seu papel no quadro que vemos hoje? Sem dúvida. Mas também é fato que já em 1965, quando o bloqueio americano ainda não havia tido grande impacto, o Comitê Central já estava discutindo se autorizava ou não a publicação de uma obra prima como Paradiso, de Lezama Lima (um extraordinário escritor que jamais saiu da ilha, talvez o maior escritor cubano de todos os tempos). No final das contas, a obra foi publicada, mas o próprio fato de que a discussão tenha existido já indica que a vertente autoritária é bem antiga. Quando se revela ao mundo, em 1971, que a perseguição aos homossexuais é política estatal explícita, fica sacramentada uma relação minha bem ambígua com a Revolução. Não sei se vocês já repararam, mas este blog, que regularmente discute política internacional, jamais fez um post sobre Cuba.
Conta-se que nos anos 1960, ao Premiê Zhou Enlai foi dirigida a pergunta acerca do que ele achava da Revolução Francesa. A resposta foi lapidar, pura sabedoria chinesa: ainda é muito cedo para saber. Não há frase mais perfeita para definir o legado da Revolução Cubana. Sou defensor intransigente da soberania dos povos e inimigo declarado de qualquer intervenção estrangeira, em Cuba ou em qualquer lugar. Mas não vou maquiar o sofrimento alheio por preguiça de repensar a derrota de um sonho.
Eu já havia preparado links e anotações para um post sobre a judicialização do debate jornalístico no Brasil. Nos domingos, em geral, dedico a tarde e a noite ao trabalho acadêmico, reservando um par de horas na madrugada para o post da segunda. Como já estava preparado o post, fui fazer uma das coisas que mais gosto: ver um bom jogo de futebol. Era a final da Taça Guanabara, entre Botafogo e Flamengo.
O Maracanã é, sim, o grande templo do futebol – que me desculpem os paulistas. A Taça Guanabara é o que chamamos, em outros estados, “primeiro turno”. Mas tem um charme e uma tradição incomparáveis. Esquentei uma carninha, abri uma Dos Equis Amber e fui ver a partida. Maraca lotado, jogo aberto, bonito: um sonho para qualquer fã de futebol.
Mais uma vez senti vergonha de ser brasileiro. O que foi feito com o Botafogo ontem no Maracanã é uma dessas coisas que, em qualquer país sério, terminaria na delegacia de polícia ou na barra dos tribunais. Há 18 anos acompanho basquete universitário e profissional, futebol americano universitário e profissional. Tenho meus times (Universidade da Carolina do Norte, New Orleans Hornets, New Orleans Saints, além de ter algum carinho pelo Carolina Panthers, clube que vi nascer). Nunca, em 18 anos, presenciei espetáculos grotescos de arbitragem como os que acontecem no Brasil quase todas as semanas.
Faço questão de escrever este post porque não faltam leitores que apontam “choro de perdedor” cada vez que assinalo os incontáveis roubos de arbitragem de que o Atlético-MG foi vítima ao longo dos anos. Pois bem, agora não foi com o meu time. Botafogo, Vasco, Fluminense, São Paulo, Palmeiras, Corinthians: para mim dá tudo na mesma. Sou Galo, sinto simpatia pelos times do sul, especialmente pelo Inter, e tenho lá um cantinho de amor pela Ponte Preta e pelo Vitória-BA. Desta vez, eu só queria ver um bom jogo. Que vencesse o melhor.
O pênalti marcado em favor do Flamengo, quando o Botafogo vencia por 1 x 0, é daqueles que teriam que ser marcados 20 vezes por jogo. Não pode segurar a camisa do adversário ao subir para cabecear? Perfeito. Que se apite 20 pênaltis por jogo então. Eu não teria problema com isso. Um outro critério, que uns poucos juízes honestos utilizam, é marcar esse tipo de pênalti quando o atacante estiver sendo impedido de fazer a jogada. Não era o caso, já que não havia nenhum perigo de gol. Mas, claro, a camisa sendo agarrada era rubro-negra. Não é preciso dizer que a mesma jogada aconteceu pelo menos 5 vezes do outro lado, sem que se marcasse nada.
Esqueçam o pênalti. Que eu saiba, existe uma regra no futebol que determina que, numa bola recuada intencionalmente com os pés para o goleiro, este não pode segurá-la com as mãos, sob pena de tiro livre indireto na área – a não ser, claro, que o jogador que fizer o recuo se chame Léo Moura e vista uma camisa rubro-negra. O cartão vermelho para Zé Carlos e o cartão amarelo para Lúcio Flávio, do Botafogo, aconteceram por quê mesmo? Uma cotovelada no adversário, em geral, é jogada para cartão vermelho – a não ser, claro, que o autor se chame Souza e vista uma camisa rubro-negra, e a vítima for um goleiro uruguaio (aliás, a xenofobia dos árbitros brasileiros é outro tema que mereceria longa discussão; Valdivia que o diga). Eu poderia listar outros exemplos.
Um árbitro que permanecerá inomeado uma vez me disse: “Idelber, se você quer prejudicar uma equipe, não espere as jogadas decisivas na área. Trave-a no meio-campo”. Assistam o VT da partida e vejam essa regra em ação. O pior é que ela não foi suficiente. O juiz roubou no meio-campo e roubou na área. O Botafogo foi imensamente superior ao Flamengo? Não, não foi. Poderia ter perdido na bola? Poderia. Desequilibrou-se emocionalmente a partir de um certo momento? Sem dúvida. Mas nada justifica a bandidagem. O impressionante no Brasil é que mesmo os melhores e mais honestos cronistas observam essas coisas e acham tudo normal. Não deve ser coincidência que, nos campeonatos cariocas, o time sistematicamente roubado seja justo aquele que é (ou era) dirigido por um ser humano íntegro, não cúmplice dos bandidos da Federação de Futebol do Estado do Rio – ainda que, nas competições nacionais, e especialmente contra mineiros e gaúchos, essa mesma equipe seja auxiliada pelas arbitragens.
Alguém em sã consciência é capaz de dizer que o pênalti que sofreu Tinga, do Internacional, no jogo contra o Corinthians que poderia ter decidido o Brasileirão de 2005, não teria sido marcado caso a sua camisa vermelha tivesse um par de listras horizontais negras? É frustrante, porque os flamenguistas (e, em menor medida, os corinthianos) já se acostumaram a ganhar dessa forma. Mesmo gente instruída e sensata se recusa a discutir o tema, não entendendo que o futebol brasileiro é um patrimônio do país, destruído e pisoteado cada vez que isso acontece. O problema transcende o esporte. É um roubo contra o consumidor, numa esfera que movimenta muito dinheiro e tem enorme significação simbólica para o Brasil, dentro e fora de suas fronteiras. Cada rubro-negro que repete “é choro de perdedor” quando acontecem esses escândalos, me desculpe, é um cúmplice do crime organizado.
Esta semana, chegou a notícia de que a Nike assinou um contrato de patrocínio com a seleção francesa por um valor cinco vezes maior que aquele destinado à seleção brasileira. Eu pergunto: em qual bolsa de apostas da galáxia a seleção francesa vale cinco vezes mais que a brasileira? Ou será que o valor oficial não é o efetivamente pago à CBF? Aliás, eu entendo que o Banco do Brasil patrocine a seleção de voleibol. Trata-se da seleção brasileira de vôlei. Alguém poderia me explicar porque a Petrobras, uma empresa estatal sem concorrência no país, patrocina o Flamengo?
Atualização: Juca, não é possível, Juca. Se você acha que essa foto encerra a discussão sobre tudo o que está dito acima, e tudo o que observaram milhões de torcedores, só nos resta dizer: então tá. Quando alguém com a integridade de Juca Kfouri começa a defender o que aconteceu ontem no Maracanã, sinceramente, dá vontade de jogar a toalha e assistir só futebol americano mesmo.
Elis Regina tinha mais recursos técnicos e Carmen Miranda teve mais impacto fora do Brasil e em outras artes, como o cinema. Mas a maior cantora dessa terra de cantoras foi Cássia Eller, a atleticana:

Duas das melhores memórias de minha vida são de shows de Cássia. Às vezes ela entrava, parava ante o microfone, virava a cabeça e cuspia no chão, dava uma “coçada no saco” e gritava: Galôôô! Nos shows em Minas Gerais, era delírio coletivo na certa. Tímida e reservada, ela explodia quando subia ao palco. Despretensiosa, ela tinha um conhecimento musical gigantesco. Tudo o que gravava trazia a sua assinatura, inconfundível. Quando gravou “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, deu à canção uma sonoridade blues que fazia aflorar toda uma conversa entre esses dois gêneros musicais. Assim era Cássia: inventava coisas que ninguém havia visto. Depois da invenção, tudo parecia óbvio e cristalino. Não é uma boa definição para o que sempre faz um verdadeiro artista?
Os dois grandes letristas da geração roqueira que se consolidou na década de 80 – Cazuza e Renato Russo – não podiam imaginar que nos anos 90 uma excepcional cantora extrairia de suas músicas sentidos que eles mal puderam entrever originalmente. Cássia tinha sobre sua colega de geração mais badalada pela mídia, Marisa Monte, uma série de vantagens: era uma artista mais autêntica, mais propensa a correr riscos, além de ser uma instrumentista superior. Poucas roqueiras foram tão respeitadas por sambistas. Poucas artistas da MPB foram tão idolatradas por metaleiros e punks. Até na morte ela foi pioneira, quando sua companheira Maria Eugênia venceu a mais justa das batalhas judiciais, pela guarda do filho Chicão, derrotando uma absurda demanda do avô do garoto e abrindo um precedente jurídico importantíssimo para casais de gays e lésbicas no Brasil.
A minha foto favorita de Cássia é a da capa de seu primeiro disco:

Também gosto muito do jeito que ela segura o cigarro na capa do segundo:

Quando mais “invocada”, mais sexy ela parecia:

E o charme com que ela cantava “Malandragem”?
Na entrega das faixas de campeão da Série B de 2006, contra o América-RN no Mineirão, o Atlético-MG homenageou Cássia Eller com o Galo de Prata, a mais alta honraria concedida a um atleticano. Sua mãe recebeu o troféu, enquanto 60.000 torcedores gritavam o nome de Cássia.
Cássia Eller foi enterrada com um bótom do Galo preso a um lenço laranja amarrado à cabeça. Que ela tenha morrido aos 39 anos de idade é um desses acontecimentos que nos lembram que não existe justiça no mundo.
Alguns leitores me pediram um post detalhando como seria a política externa sob Obama ou sob Clinton. Suponho que esteja claro que, com qualquer um dos dois, ela seria bem diferente do que tem sido sob Bush. Nem o eleitor mais convicto de Ralph Nader, o candidato a presidente pelo Partido Verde em 2000, teria coragem de dizer hoje que uma presidência de Al Gore teria sido idêntica à de George W. Bush. Sim, às vezes o malfadado voto útil é uma questão de compromisso com a espécie humana.
É fato que há muitas semelhanças entre os programas de Hillary Clinton e de Barack Obama. Mas talvez a política externa seja uma das áreas onde os contrastes são mais nítidos – e eles ficaram claros para quem assistiu o debate da CNN ontem à noite. Na questão decisiva do nosso tempo, a Guerra do Iraque, eles estiveram em lados opostos. No dia 11 de outubro de 2002, o Senado votou a resolução para o uso de força contra o Iraque. A emenda foi aprovada por 77 votos a 23. Exatamente 21 senadores democratas votaram com George Bush, incluindo-se aí Hillary Clinton. Dez dias antes, Barack Obama, então membro do legislativo de Illinois, participou de um comício em Chicago onde fez um veemente discurso contra a guerra.
A diferença foi decisiva nesta campanha, especialmente pela forma como Hillary lidou com o voto depois que a guerra perdeu popularidade. Entre os candidatos presidenciais que apoiaram a resolução de Bush também estava John Edwards, mas este último pediu desculpas pelo voto. Hillary preferiu racionalizá-lo, dizendo que a resolução exigia que Bush esgotasse as vias diplomáticas e que o presidente havia enganado o Congresso. O problema com a justificativa é que qualquer residente dos EUA com um mínimo de informação e independência de juízo sabia, já em 2002, que Bush mentia sobre o Iraque. A diferença é que antes éramos 10%. Hoje somos 77%. Evidentemente, a senadora fez um cálculo político que, a longo prazo, saiu pela culatra. Esse cálculo já estava nítido — para quem sabe ler — no discurso com o qual ela acompanhou o voto.
Também na política com Cuba há diferenças marcantes. Obama já declarou, no debate de ontem e em outros lugares, que está disposto a sentar-se para conversar, sem pré-condições, com qualquer líder estrangeiro, incluídos Raúl Castro e Ahmadinejad. Clinton defende a tese das pré-condições para o diálogo: que Cuba deve democratizar-se, liberar prisioneiros políticos, abrir a imprensa etc. antes de que possa haver qualquer negociação. A diferença se manifesta em históricos diferentes de votação no Senado. Nos últimos anos, Clinton votou duas vezes para renovar o financiamento da TV Martí, a rede americana de transmissão de propaganda para os cubanos. Obama, já no Senado, votou em ambas ocasiões contra o financiamento à TV Martí. Quanto à normalização das viagens de famílias cubano-americanas à ilha, também há diferença: Obama a favor, Clinton contra.
No que se refere ao desarmamento, os históricos de votação também são bem diferentes. No dia 06 de setembro de 2006, votou-se no Senado a emenda Feinstein, que proibia os EUA de exportar bombas de dispersão (cluster bombs) a não ser que a compra incluísse a proibição de seu uso e estocagem em áreas habitadas por civis. A emenda foi derrotada por 70 x 30. Obama votou a favor. Clinton foi uma de 15 democratas que votaram com os Republicanos para derrotá-la. No dia 26 de setembro deste ano, Clinton também votou com os Republicanos na aprovação da medida Lieberman-Kyl, que designava as forças armadas do Irã como uma organização terrorista. Foi, convenhamos, uma votação bem insólita: o Senado americano se reuniu para declarar terroristas as forças armadas de uma nação soberana. É mais um sinal do desgaste de uma palavra.
Clinton e Obama também estiveram em lados opostos de votações sobre direitos humanos, venda de armamentos e proliferação nuclear. Esse texto pega um pouco pesado com Clinton na retórica, mas todos fatos relatados ali são verdadeiros. Quanto à América Latina, a linha típica dos discursos de Obama tem sido de que a era do junior partner acabou; que a conversa será sempre horizontal; que o continente receberá o respeito de uma interlocução de igual para igual. O tema é sistematicamente mencionado em seus discursos (veja, por exemplo, esse vídeo). Há que se ver tudo com ceticismo, evidentemente. Mas não há dúvidas de que há sinais encorajadores.
PS: Quem tiver assistido o debate de ontem à noite, fique à vontade para comentar. Eu assisti e gostei muito. Foi, provavelmente, a melhor performance de ambos.
PS 2: Já não são dez, e sim onze, as vitórias consecutivas de Obama. Saiu hoje o resultado da votação nas primárias entre os democratas residentes no exterior, com vitória de Obama por 65,6% contra 32,7% de Clinton. Estão curiosos para saber como foi no Brasil? Entre os democratas residentes aí, a vitória foi de Obama por 69,6% contra 30,4% de Clinton (veja os números completos nesse pdf).
PS 3: Em breve, uma explicação sobre as incríveis primárias do Texas, onde é possível conquistar 60% dos votos e ficar com 40% dos delegados. Ou vice-versa. Ou muito antes pelo contrário.
Nas ocasiões em que assinalei a vergonhosa cumplicidade da grande mídia americana com as mentiras e manipulações do governo Bush, não faltou quem me colocasse o rótulo de “anti-americano”, como se aceitar uma imprensa subserviente fosse um valor americano sacramentado em algum lugar da constituição. Pois bem, ao invés de fazer críticas iradas, iniciemos hoje uma nova série no blog, que eu espero manter funcionando até as eleições presidencias americanas: perguntas que a imprensa americana jamais fará.
Um artigo da Associated Press de 1985 dizia o seguinte (tradução e grifo meus):
O deputado Tom Loeffler (R-TX), apresentou o prêmio “Lutador da Liberdade do Ano” ao líder da resistência afegã Wali Khan em nome do Conselho Americano para a Liberdade Mundial no dia 03 de outubro.
Loeffler convocou o Congresso e o povo americano para “ampliar o apoio” aos lutadores da liberdade no Afeganistão, lembrando aos ouvintes a luta da própria América pela liberdade.
O Congresso aceitou dar 15 milhões de dólares em assistência encoberta à causa afegã, sendo esta a primeira vez que os legisladores “se prontificaram” a ajudar desde o começo do conflito, de acordo com Loeffler….
Aceitando o prêmio em nome de Khan estava Pir Syed Ahmed Gailani, chefe da Frente Islâmica Nacional do Afeganistão, na qual Khan comanda 20.000 lutadores da resistência.
Outros congressistas que se juntaram a Loeffler incluíam o Deputado Eldon Rudd e o Deputado John McCain, ambos republicanos do Arizona.

Considerando que: 1) os ataques do 11 de setembro de 2001 foram perpetrados por uma organização terrorista cujo embrião é precisamente o grupo “premiado” por McCain e seus colegas; 2) que os EUA continuam envolvidos numa guerra civil no Afeganistão contra a mesma força política que antes haviam homenageado e financiado; 3) que o Senador McCain foi parte tanto da homenagem como da aprovação do financiamento para dita organização; 4) que o Senador McCain é hoje o virtual candidato a presidente pelo Partido Republicano, não seria lógico e esperável que uma imprensa livre em algum momento colocasse a ele a seguinte pergunta:
Senador McCain, qual foi o seu papel no financiamento e na homenagem ao embrião do Talibã em 1985?
Como dito antes, não faço previsões em política. Neste caso, no entanto, prevejo sem medo de errar: nenhum veículo da grande mídia americana sequer se lembrará do episódio. É mais fácil e inofensivo investigar com quem ele trepou ou não trepou. Se algum veículo da grande mídia americana se lembrar de fazer ao Senador McCain qualquer pergunta sobre seu papel nos primórdios do financiamento americano ao extremismo islâmico no Afeganistão, eu tiro uma foto com a camisa do ex-Ipiranga e poso com a dita cuja para escárnio geral aqui no blog.
É a imprensa “livre” americana, que tantos jornalistas brasileiros tomam como modelo de democracia, enquanto se queixam dos horrores da “censura” no governo Lula, entre um impropério e outro dirigido sempre livremente contra o presidente do Brasil.
(inspiração e fonte: Juan Cole)
Desde que os irmãos Bush nos roubaram a eleição de 2000, eu prometi nunca mais fazer previsões em política. Mas o fato é que ficou difícil, muito difícil para Clinton. Quem sabe o Alon ou o Rafael possam me ajudar a lembrar alguma eleição – no Brasil ou em qualquer outro lugar – em que tenha havido uma virada de 30 pontos em duas semanas. Porque foi exatamente isso que Obama fez em Wisconsin, no coração da base clintoniana. Há 15 dias, Clinton chegou a liderar por 13 pontos.Obama venceu ontem por 58 x 41, num estado em que a população negra não passa de 4%. Talvez não fique claro de imediato para o leitor brasileiro a dimensão desse resultado. Para efeitos de comparação, imagine Lula vencendo José Serra por 7 x 3 em Higienópolis e nos Jardins. Ou, não importa, imagine Alckmin enfiando 7 x 3 em Lula no estado de Pernambuco. Foi mais ou menos isso o que aconteceu em Wisconsin ontem, numa primária em que 58% do eleitorado era feminino e 92% branco.
Digamos, então, que o Biscoito está preparado para fazer a seguinte afirmação: as chances de Hillary conquistar a indicação democrata para a presidência dos EUA são comparáveis às do São Paulo ser rebaixado para a segunda divisão no Campeonato Brasileiro deste ano. Para alcançar Obama, ela teria que vencer Ohio, Texas e Pensilvânia por diferenças de 65 a 35, o que simplesmente não parece possível neste momento. No próximo dia 04, votam Ohio, Texas e Rhode Island.
Em futuros posts, vou tentar explicar o que me parece que aconteceu aqui nos últimos meses. É verdade que a campanha de Obama tem mobilizado – particulamente entre os jovens – uma energia que há décadas não se via na política americana. Mas também é verdade que poucas vezes na vida vi uma campanha tão incompetente como a de Hillary Clinton. Até mesmo uma campanha razoavelmente administrada teria sido suficiente para ela, dada a grande diferença de reconhecimento entre os dois nomes e a colossal diferença de poder entre os dois grupos dentro do Partido Democrata.
Mas a campanha foi enterrada pela estratégia de ignorar os lugares onde sofria derrotas (não oferecendo parabéns ao vencedor e nem mesmo agradecendo seus voluntários), pelo recurso à sistemática negatividade (as pesquisas de boca-de-urna em Wisconsin mostraram uma imensa rejeição a essa estratégia, um dia depois de que a campanha de Clinton tirou da cartola uma incrível acusação de plágio contra Obama) e pela desqualificação dos estados vencidos pelo senador de Illinois (com argumentos do tipo: assembléias não contam, estados com população negra não contam, estados republicanos não contam etc., até o ponto em que Wisconsin, que é a epítome do estado que, segundo essa lógica, deveria “contar”, terminou rejeitando-a) .
Na quinta-feira à noite há um debate na CNN. Dentro do campo de Clinton há um intenso debate acerca da estratégia. Reforçar os ataques pessoais contra Obama ou dar outro giro, enfatizando os planos e as qualidades da senadora? A briga em torno disso é tremenda: ainda existe – acreditem – um setor da campanha argumentando que a estratégia negativa funcionou, pois a margem de Obama havia sido maior na Virgínia do que foi em Wisconsin! Quanto a Obama, tudo o que ele precisa fazer no debate é não prometer bombardear o Canadá.
PS: O Biscoito saúda Digby, blogueira pró-Hillary que já está pronta para unir forças em torno de Obama para o que verdadeiramente importa, que é derrotar a máquina republicana. Ao longo desta campanha, Digby se firmou como a melhor analista política democrata na blogosfera, mantendo sanidade e ponderação ao longo do processo. No Daily Kos, a fascinação com Obama às vezes prejudica bastante a percepção da realidade. E o clintoniano Left Coaster, que era um bom blog, já não posta do planeta Terra há meses. Em breve, faço um post sobre o terrível legado desta campanha sobre a blogosfera progressista gringa. O saldo não é positivo, não.
PS 2: Não, não tenho nada a dizer sobre a aposentadoria de Fidel. Pelo menos não aqui no blog. A discussão que se armaria já é por demais previsível e eu estou um pouco cansado dela. Eu até poderia tentar fazer uma avaliação mais tridimensional sobre o legado da Revolução Cubana. Mas a discussão descamba, não tem jeito. Até mesmo aqui ela descambaria.
