John Edwards abandona a corrida

 

edw-nola.jpg Foi simbólica a despedida de John Edwards da campanha presidencial norte-americana. Ele viajou até aqui, New Orleans, onde havia começado a caminhada. Foi até o Lower Ninth Ward, bairro de Fats Domino, completamente devastado pela enchente que se seguiu ao furacão Katrina. Ali ele fez seu discurso (veja o vídeo). Além de emblemática musical e culinariamente, New Orleans é hoje o melhor retrato do fracasso do governo Bush, de seu descaso com os pobres, da falência do modelo entregue ao mercado que ele resolve. A cidade é também a mais eloqüente metonímia das dezenas de milhões de pobres que a América não consegue mais varrer para debaixo do tapete.

Edwards foi sua grande voz nestas eleições. Ele foi o único dos grandes candidatos a falar sistematicamente da pobreza e do colapso do sistema de saúde americano. Foi o único a enfatizar o simples fato de que o abismo entre os ricos e os pobres não diminui nos Estados Unidos, só aumenta. Não há como medir a importância que teve Edwards na campanha. Foi graças a ele que tanto Clinton como Obama se comprometeram com a proposta de um sistema genuinamente universal de assistência médica. Ele também foi o único dos grandes a encarar de frente a máquina de distorções da extrema-direita midiática americana. Em toda a base do Partido Democrata, pipocaram os agradecimentos ao longo do dia de ontem. Nas últimas cinco eleições presidenciais americanas que acompanhei diretamente, ele foi o único candidato que conseguiu empurrar o debate minimamente para a esquerda. Aqui em New Orleans, ele conquistou o respeito de todos ao mobilizar centenas de estudantes universitários e trazê-los à cidade no verão de 2006, para ajudar na reconstrução. A foto que ilustra o post (Fox News) é daquela época.

É óbvio que o apoio de Edwards a um dos candidatos pode ser decisivo. Imediatamente depois do anúncio da sua saída, tanto Clinton como Obama atualizaram seus websites com fotos de Edwards na página principal e agradecimentos a ele. Veículos de mídia que ignoraram e marginalizaram a mensagem de Edwards passaram a destacá-lo. Os funerais sempre foram ocasiões para elogios hipócritas.

São 6 da manhã na Costa Leste e a expectativa no campo de Obama é grande. Depois do discurso em New Orleans, Edwards falou com os dois candidatos restantes e arrancou deles a promessa de que o combate à pobreza seria central em suas campanhas e em seus eventuais mandatos. Edwards telefonou para Obama, mas a conversa com Clinton foi iniciativa desta última. Significará algo?

O movimento nas pesquisas é claro: Obama vem encurtando a distância que o separa de Clinton na maioria dos estados da Super Terça-Feira. Em Connecticut eles já estão empatados. A diferença na importantíssima Califórnia já diminuiu sensivelmente e agora há empate técnico, inimaginável há algumas semanas. Obama mantém a liderança na Geórgia. Em Massachussetts, a diferença de Clinton para Obama caiu de 37 para 6 pontos — o endosso de Caroline e Ted Kennedy obviamente tem muito a ver com isso. O cálculo da Rassmussen Markets ainda é de que Clinton tem 62% de chances de ser a escolhida, enquanto Obama teria 38%. Mas o apoio de Edwards pode decidir a parada.

PS: O New York Times publica hoje uma longa matéria sobre a relação dos Clinton com mafiosos do Casaquistão.

PS 2: Também no campo republicano sobraram só dois: Mitt Romney, o ultramilionário ex-governador de Massachussetts e o senador do Arizona, John McCain, muito forte entre o eleitorado de centro mas não exatamente bem visto pela ala mais conservadora do partido. Depois da vitória na Flórida, McCain é o claro favorito. A mitologia do 11 de setembro não foi suficiente para fazer decolar a candidatura de Rudy Giuliani, que já saiu e apoiou McCain.

PS 3: Na terça-feira à noite e madrugada adentro, o Biscoito fará uma cobertura em tempo real dos resultados de 22 primárias democratas. Depois de voltar do baile de carnaval, se ligue aqui no blog, com um dedo na F5.