Por que Obama goleou na Carolina do Sul

 

Nas primárias da Carolina do Sul, de novo as pesquisas estavam erradas. Elas apontavam uma vitória de Obama por 8 a 12 pontos e o que se viu foi uma lavada: Obama 55.5% x Hillary 26.5%, com Edwards conquistando só 17.5% dos votos no seu estado natal, onde ele havia vencido as primárias contra John Kerry em 2004. Obama venceu em 44 dos 46 condados. Apresento abaixo um pouco da demografia do voto – sempre importante nos EUA — e logo depois uma rápida análise.

Nas primárias democratas da Carolina do Sul este ano, os negros representavam 55% dos eleitores. Destes, 78% votaram em Obama, 19% em Clinton, 2% em Edwards, sem diferenças significativas entre homens e mulheres. Entre os brancos, 40% foram para Edwards, 36% para Clinton e 24% para Obama. Mas Obama teve metade dos eleitores brancos com menos de 30 anos de idade. Recebeu o apoio de nada menos que 75% de todos os eleitores nascidos depois da posse de Jimmy Carter.

Hillary Clinton fez campanha pesada na Carolina do Sul e só programou a saída rápida do estado – rumo ao Tennessee – quando já estava clara a derrota. Na manhã da votação, sua equipe chegou a enviar um release dizendo que esperavam uma derrota por 12%, dando uma margem generosa que lhes permitiria, depois, pintar com cores positivas o resultado, no caso de uma diferença menor. A margem acabou sendo mais que o dobro, 27%. Foi a primeira vez nesta temporada que um candidato venceu com mais de 50% dos votos. Também foi a primeira vez que um candidato dobrou os votos do segundo colocado.

Como a demografia destas primárias não foi muito diferente da que se esperava, a explicação para tamanha lavada é clara: os eleitores recusaram o tipo de campanha que Hillary Clinton resolveu fazer, com base em mentiras, distorções, divisão racial e ataques abaixo da cintura. O que se viu na Carolina do Sul ao longo da semana passada não fica nada a dever aos momentos mais malignos de Karl Rove ou, para quem não localiza essa referência, ao feito por Collor em 1989.

Todos os links que se seguem remetem a afirmações feitas pela própria Hillary, pelo seu marido ou por líderes de sua equipe: Houve referências ao uso de drogas feito por Obama na adolescência, coisa que ele mesmo reconhece no seu livro. Houve chamadas telefônicas enfatizando o segundo nome de Obama, Hussein. Houve um spam que falsamente afirmava que Obama era muçulmano. Houve manipulação de uma afirmação absolutamente banal de Obama, de que os Republicanos haviam sido o “partido das idéias e das transformações” nos últimos tempos, o que é a pura verdade — a manipulação tentava sugerir que ele considerava essas idéias e transformações algo positivo, coisa que ele nunca disse. Houve sutis tentativas de confinar Obama à condição de “candidato negro”, num ignóbil uso das tensões raciais tão americanas e, acima de tudo, tão sulistas. Houve mais racismo, na sugestão de que latinos não votariam num negro. Houve até mesmo uma tentativa de jogar com a ignorância dos eleitores sobre um procedimento absolutamente normal em várias casas legislativas americanas – votar “presente” ao invés de “sim” como estratégia de aprovação de uma lei – para sugerir que Obama não defende o direito ao aborto. Tudo isso para não falar na embaraçosa armação envolvendo um cartaz sexista (Iron my shirt) exibido por um radialista num comício de Hillary, “levantando a bola” para que ela falasse sobre machismo. O radialista levava adesivo de Hillary no carro e foi visto conversando com lideranças da campanha antes do incidente que, aliás, ocorreu uns poucos instantes depois de que Hillary pedisse mais luz na platéia. Feio demais.

Os eleitores da Carolina do Sul rejeitaram essa lama. Mas ainda é cedo para dizer que o favoritismo de Clinton foi abalado. Edwards já não tem chances, mas cumprirá um papel decisivo, dependendo de que atitude tome e como negocie seu considerável número de delegados. Estamos a 8 dias da Super Terça-Feira, em que 22 estados realizam primárias. Em pesquisas feitas dias atrás, Clinton liderava em quase todos eles (a exceção é Illinois, estado natal de Obama). O efeito do resultado contundente da Carolina do Sul já se fez sentir na nova pesquisa de Colorado, onde Obama virou o jogo. A Califórnia e Nova York, evidentemente, são chave, dada a quantidade de delegados que levam à convenção. Neste domingo, Obama recebeu um comovente endosso da Caroline Kennedy, filha de JFK. Seu tio Ted Kennedy, neutro até agora, deve anunciar seu apoio a Obama nas próximas horas.

Duas coisas, nesta campanha, são certas: os Democratas preferimos enfrentar qualquer candidato republicano que não seja John McCain. Os Republicanos adorariam enfrentar Hillary Clinton, que tem taxa de rejeição de 52% no começo da brincadeira e que conseguiu alienar tanta gente em seu próprio partido que milhares de ativistas já declararam que nela não votam de jeito nenhum.

PS 1: O Left Coaster, um blog que já foi bom, se pergunta (ver caixa de comentários): o que Hillary fez para ser tão odiada? Às vezes eu não sei se é ingenuidade ou se é má fé.

PS 2: A super terça-feira cai no carnaval e vocês aí no Brasil estão 4 horas na minha frente. Considerando isso, será que vale a pena fazer uma cobertura em tempo real, com o post sendo atualizado a cada 10 ou 15 minutos com informações novas, ou deixo para publicar um texto na madrugada, como de costume? Os primeiros números reais só começarão a sair às 23 h de Brasília.