Mais um blogueiro ameaçado por político
Leonardo Sakamoto, jornalista, doutor em ciência política pela USP, coordenador da ONG Repórter Brasil e um dos maiores conhecedores da realidade do trabalho escravo no Brasil (e há tempos recomendado cá neste blogroll), foi ameaçado de processo na tribuna do Senado Federal no dia 25 de setembro. A senadora Kátia Abreu (PFL DEM-TO), conhecida líder da bancada “ruralista”, reagiu a uma simples informação – a de que ela votou de acordo com os interesses de latifundiários flagrados no uso de trabalho escravo – com uma ameaça de processo sobre o jornalista. O discurso da senadora, como costuma acontecer nesses casos, foi um arrazoado de incorreções:
Disse a digníssima na Tribuna do Senado: Sr. Leonardo Sakamoto, dono do site Repórter Brasil, financiado por recursos públicos, como consta no Contas Abertas, o senhor recebe dinheiro público para financiar o seu site e me acusa dizendo: A Senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando Deputada Federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo esse tipo de crime e atuou contra. Quero dizer-lhe, de público, que vou processá-lo por calúnia e difamação. O senhor é um irresponsável que mama nas tetas do Governo, que financia esse site irresponsável, o qual não tem crédito.
Na sua contudente resposta, Sakamoto refuta ponto por ponto:
1) Uma organização não-governamental, com diretoria e estatuto devidamente registrados, não tem dono e sim associados que elegem uma diretoria, da qual faço parte. Não sou proprietário de nada na Repórter Brasil.
2) A senadora cortou a frase que escrevi. A sua íntegra é a seguinte: “A senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática”. A matéria na íntegra pode ser lida clicando aqui.
Um exemplo: No dia 11 de agosto de 2004, 326 deputados federais aprovaram, em primeira votação, a proposta de emenda constitucional que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo for encontrado, considerado uma das bandeiras da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. A então deputada Kátia Abreu e mais nove parlamentares posicionaram-se contra. Depois disso, a PEC 438/2001 não foi colocada em votação em segundo turno devido à pressão realizada pela bancada ruralista da Câmara dos Deputados, o que tem beneficiado os fazendeiros que utilizam mão-de-obra escrava. De acordo com parlamentares e entidades que atuam no combate ao trabalho escravo, a senadora Kátia Abreu foi uma das mais atuantes para que isso acontecesse.
3) Ao contrário do que informou a senadora Kátia Abreu, eu não mamo “nas tetas do governo”. Ou seja, eu não “colho benefícios financeiros ilícitos de empresa ou administração pública” (conforme o dicionário Houaiss). Essa sim é uma declaração passível de um processo por calúnia e difamação. Meu cargo na direção da Repórter Brasil não pode ser, nem é, remunerado, como manda o estatuto da entidade.
Como se lembram os que acompanharam este blog na época da campanha eleitoral, processos judiciais de senadores contra blogueiros já têm história e triste memória no Brasil. O Biscoito empresta sua solidariedade irrestrita a Sakamoto, deixa a sugestão de que os eleitores do Tocantins escrevam à sua senadora com pedidos de esclarecimentos e convida os amigos blogueiros a repercutirem a notícia.
Minha aposta é que depois da resposta de Sakamoto e do desagravo do Senador Nery ao jornalista, a Senadora Abreu não volte mais ao assunto. Mas permaneçamos atentos ao desenrolar dos eventos. Em todo caso, minha convicção é que isso só vai deixar de acontecer quando os parlamentares e membros do Executivo perceberem que a força da internet já é tal que os custos políticos de ficar ameaçando blogueiro serão altos demais para valer a pena. Com a palavra, a turma que é criativa com banners e que esteja disposta a compor uma caricatura da senadora pefelê, nos moldes do grande sucesso que foi o Xô, Sarney.
(notícia via Blue Bus via Querido Leitor)
PS 1: A Revista Bula, em parceria com o Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado da UEG/GO, pediu a 400 usuários de internet que indicassem os melhores blogs do Brasil e publicou o resultado. Com muitíssima justiça, Pensar Enlouquece ficou em primeiro. Meus agradecimentos a quem participou e votou cá neste blog.
PS 2: Belo texto do Hermano Vianna sobre hip hop (via Blog vermelho do hip hop).
PS 3: Maravihoso post da minha amiga Lucia Malla sobre a bendita readaptação do ex-expatriado.
PS 4: Aos participantes do Clube de Leituras do Borges: confirmado o tema do papo de quarta-feira. É o conto “Emma Zunz” (disponível na internet em português e no original)

Acabei de ler o livro do Ministro do Longo Prazo, o Roberto Mangabeira Unger, What should the left propose? [O que a esquerda deveria propor?]. Li não porque acompanhe Unger — é o primeiro livro dele que leio — nem porque esteja no campo de estudos dele, mas por pura vontade de resenhar algo diferente aqui no blog, que poderia ter alguma relevância, sei lá, para debates brasileiros.
Vai sair no Brasil mais um notável romance argentino contemporâneo. Boca de lobo (2000), de Sergio Chejfec, será lançado em novembro pela
Na maioria das vezes, quem grita contra lavagem cerebral ou doutrinação está julgando a inteligência alheia com o metro de que é capaz a própria. Em época de Google, falar de lavagem cerebral em 7a, 8a série – qualquer que seja o conteúdo do livro didático – é passar atestado de completa ignorância da realidade da sala de aula do século XXI, seja no Brasil ou em qualquer lado, em escola pública ou particular.
No episódio Renan Calheiros, o que menos importava, para todos os senadores e partidos políticos envolvidos, é se Renan havia recebido dinheiro da Mendes Júnior ou não; se tinha bois voadores ou não; se mentiu para a Receita Federal ou não; se usou laranjas para comprar emissoras de telecomunicações ou não. Isso importa, claro, para a cidadania, que deve exercer o direito de fiscalizar a política. Mas a política mesma não é um ramo da ética nem nunca vai ser. O que não quer dizer que não se deva lutar por mais ética na política. Só significa que àquele que faz do brado pela ética o seu único bordão, sempre cabe perguntar: “ok, e sua próxima proposta, qual é?”
(O post que se segue é um convite a uma discussão de “