Resposta a um texto de Jorge Coli
No dia 18 de fevereiro, Jorge Coli publicou, na Folha de São Paulo, um texto sobre a crítica literária que merece resposta. Publico quase na íntegra o texto de Coli, em itálicos. Intercalo meus comentários em negrito.
Leitura e leitores
JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA
A literatura sempre vazou suas intuições complexas sobre o mundo no prazer de ler. Mas houve uma reviravolta há algumas décadas na maneira de estudá-la.
Sim, houve. Como houve outra há dois séculos. Houve outra com Platão. etc. Nisso a literatura não difere de nenhum outro objeto de estudo: as maneiras de estudá-lo mudam.
Os romances e poemas tornaram-se objeto de dissecação científica; a tal ponto que sumiram, ou quase, diante da destreza analítica.
Na verdade nas quatro últimas décadas tem ocorrido o contrário. A última voga de um projeto de análise “científica” para a literatura ocorreu com o estruturalismo, cujo auge já passara no final dos anos 1960.
Quantos velhos e bons departamentos universitários de literatura não se metamorfosearam em “de teoria literária”?
A resposta correta para esta pergunta retórica é: “nenhum”. Nos EUA, alguns departamentos de literatura comparada substituíram, até certo ponto, o velho modelo da comparação entre literaturas nacionais à base de “fontes” e “influências” e passaram a oferecer mais cursos que poderiam ser catalogados como de “teoria literária”. Nenhum dos departamentos de literaturas nacionais que eu conheça, nos EUA ou no Brasil, “se metamorfoseou em ‘de teoria literária’”. Nas Faculdades de Letras brasileiras, os departamentos de língua vernácula continuam ensinando a língua e a literatura escrita na dita cuja. Os departamentos de românicas continuam ensinando francês e espanhol e as literaturas escritas nas ditas cujas. Que mais ou menos professores desses departamentos tenham sido influenciados pela teoria literária não implica que não estejam ensinando literatura. O resto é papo furado de quem não sabe do que está falando.
Note-se, para quem gosta de gramática, que “literária” é apenas adjetivo de “teoria”, sujeito e substância.
Como sabem os bons gramáticos, a ênfase, em qualquer sintagma nominal, pode recair no adjetivo ou no substantivo. Depende da enunciação e, claro, do ouvido de quem escuta ou dos olhos de quem lê.
O romance, o poema passaram a ser pretextos muito secundários, trampolins para exercícios mentais altamente sofisticados.
Seria difícil provar que isso é algo que passou a ocorrer recentemente. Platão e Hegel, para não ir mais longe, usaram poemas para exercícios mentais que me parecem bem mais sofisticados, até, que os atuais.
Essa atitude intelectual chega a extremos engraçados. Há um exemplo paradoxal: um livro de Walter Benjamin [1892-1940], grande sábio alemão,
“escritor”, “filósofo”, “crítico” ou “ensaísta” seriam designações que soariam mais apropriadas ou menos irônicas aqui no caso.
intitula-se “Origem do Drama Barroco Alemão”. Essa obra, por sinal bem complicada e obscura, foi traduzida e publicada no Brasil [ed. Brasiliense].
Trata-se de uma obra de crítica literária – disciplina especializada – escrita em 1924. Não é mais “obscura” nem “complicada” para um crítico literário atual que um tratado sociológico de 1924 para um sociólogo atual, ou um livro de criminologia de 1920 para um criminólogo de hoje.
Por mais que seu conteúdo seja autônomo no processo reflexivo, ele pede alguma noção, mínima que seja, a respeito do drama barroco alemão.
Não necessariamente. Claro que conhecer o objeto da obra crítica ajuda, mas nada impede que se leia um livro sobre Clarice antes de conhecer a autora. A legibilidade do livro dependerá de quão esclarecedor for o trabalho de análise ao dar resumos dos enredos, contexto do autor, etc.
Ora, quantos deles existem editados no Brasil? É fácil apostar que nenhum. Esse é um caso sintomático, no qual a especulação intelectual prescinde do objeto.
Errado. Benjamin não “prescindiu do objeto” quando escreveu o livro. Ele conhecia o corpus. Se esse corpus não é conhecido no Brasil e seu livro sobre ele passa a despertar interesse, não seria isso algo a se celebrar, na medida em que a crítica está gerando a reedição de obras ou a publicação de traduções, abrindo assim possibilidades de leituras até então desconhecidas? 
Para continuar no mesmo autor: quantos leitores de Benjamin, que conhecem e citam suas referências a Baudelaire e Proust, leram, de fato, Baudelaire e Proust?
A pergunta retórica é, de novo, falsa. Se alguém acha que pode falar de Proust sem lê-lo, baseando-se somente no ensaio de Benjamin, a culpa não é deste último. A pergunta que importa é outra: quantos leitores foram levados a aproximarem-se de Proust ou Baudelaire justamente porque leram os ensaios de Benjamin? Conheço muitos; eu, inclusive, sou um deles.
Júbilo
Declarações recentes de Tzvetan Todorov, grande sábio búlgaro ainda vivo, enchem o coração de alegria. Todorov, lingüista e filósofo muito cabeça, num chat da revista francesa “Télérama”: (Pergunta) “No seu último livro [“La Littérature en Péril”, A Literatura em Perigo], o sr. diz, a propósito do ensino da literatura, que, “na escola, não se ensina aquilo que os livros dizem, mas aquilo que dizem os críticos. O senhor pode explicar sua opinião?” (Todorov) “Há algum tempo que, na escola, pararam de refletir sobre o sentido dos textos e passaram a estudar de preferência os conceitos e métodos de análise. Nesse sentido, é possível dizer que se estudam as teorias dos críticos, e não as obras dos autores.
Ora, para nós, ignorante é quem não leu “Madame Bovary” [de Flaubert] ou “As Flores do Mal” [de Baudelaire], e não quem não sabe, por exemplo, distinguir focalização interna de focalização externa.”
Se Benjamin não foi um “sábio”, Todorov muito menos. Se Jorge Coli quer saber como anda a crítica literária, eu sugeriria fontes outras além do “grande sábio búlgaro”. Para quem não o leu: Todorov é, há 40 anos, uma espécie de “grande turista dos métodos de análise entendidos como moda”. Escreveu seus tratados de estruturalismo quando o dito cujo estava em voga, passou pelas teorias do “carnavalesco” quando estas eram populares, depois conseguiu cometer a incrível gafe de escrever um livro sobre a Conquista da América sem conhecer a bibliografia (e propondo a bizarra tese de que a conquista espanhola se explicava não pela pólvora, mas pela superioridade do seu sistema de signos!), para, pelo que parece, resignar-se a concluir a brilhante carreira como uma espécie de Allan Bloom, lamentando a barbárie imposta pelos novos tempos.
Para dar um exemplo de como a argumentação de Todorov é mistificada: quem leu Madame Bovary e Dom Casmurro e entendeu a diferença entre um romance de adultério narrado em terceira pessoa e o relato de um pretenso adultério feito pelo marido ciumento certamente já entendeu a diferença entre focalizações interna e externa. Que só os especialistas usem os termos não quer dizer que a realidade designada por eles não tenha importância, seja imperceptível para o leitor comum ou seja algo obscuro e não relacionado ao “prazer da leitura”. Da mesma forma como eu, leigo em química, sei que o carro funciona com a gasolina que compro no posto.
*******
Mais
(Pergunta) “Quais os conselhos para um jovem estudante que deseja se lançar nos estudos literários?” (Todorov) “Antes de tudo, não confundir os meios e os fins. Os fins da leitura de textos literários são os de melhor compreender o sentido deles e, por meio deles, o que nos dizem da própria condição humana. Os meios são todos os métodos de aproximação crítica, que podem nos permitir ler melhor, com a condição de não formarem uma cortina de fumaça diante dos textos.
Sobre os fins: O fins da literatura não são “compreender a condição humana”. Os fins da literatura são, por definição, abertos e não definíveis de antemão. São construídos e reconstruídos a cada leitura. Todorov e Jorge Coli parecem não se dar conta, mas a idéia de que a literatura tem por fim “compreender a condição humana” é também uma teoria, só uma. Nada mais. Aliás, trata-se de uma teoria, o humanismo, que já teve melhores momentos e proponentes mais sólidos em sua argumentação.
Sobre os meios: O medo de que os métodos de análise possam “formar uma cortina de fumaça” ante os textos ou “retirar o prazer” da leitura é absurdo ao extremo: alguém diria que o conhecimento da química da cevada tira o prazer de degustar a cerveja? ou que o conhecimento de astronomia tira o prazer da contemplação da noite? Só na literatura ainda nos encontramos na posição de ter que defender o direito de elaborar um conhecimento especializado sobre o objeto sem sermos patrulhados pelos guardiões do “prazer da leitura” ou da “simplicidade da literatura”.
Intervenções como as de Todorov e Jorge Coli, sob o pretexto de “defender a experiência do leitor comum”, são na verdade patrulhamentos mal-informados sobre o que é a crítica literária. É óbvio que qualquer leitor pode desfrutar da leitura de romances, poemas e peças sem estudar nada de teoria literária. Aqui no Clube de Leituras, alguns dos comentários mais atinados sobre as obras foram de pessoas que não se dedicam a estudar literatura profissionalmente.
Mas há que se convir: esse papo de que os desalmados técnicos da obscura teoria literária são os culpados pelo “fim do prazer da leitura” ou por uma suposta “decadência da leitura” das grandes obras é mais uma miragem reacionária, nostálgica e mal-informada. Populismo que joga para a platéia e cultiva a ignorância. Se você quer saber o que se passa com a crítica literária para além desse chororô apocalíptico, há gente muito mais séria para se ler.
