Jean Baudrillard (1929-2007)

 

baudrillard.jpgDa gama de pensadores iconoclastas que alcançam a maioridade na França nos anos 60, Jean Baudrillard não foi o de maior importância ou brilhantismo. Mas foi, certamente, o mais engraçado e o mais capaz de despertar fúria: salvo engano, foi o último de alguma estatura a morrer. Há tempos ele não me inspirava muito, mas depois de ler os fracos obituários do Globo e da Folha, não há como não registrar aqui um Requiescat in pace para Baudrillard.

Havia algo de bufão e xamã em Baudrillard: careca, baixinho, fumante, adepto de proclamações hiperbólicas e visionárias, ele influenciou o cinema (em Matrix a influência é inclusive reconhecida), a televisão, a web art e duas gerações na sociologia, nos estudos culturais e na filosofia. Operava como um agent provocateur, carreira na qual chegou ao cume com a afirmação La guerre du Golfe n’a pas en lieu (“a Guerra do Golfo” – a primeira! – “não aconteceu” ou, literalmente, “não teve lugar”): título de artigo e de livro, a frase foi cifra de uma reflexão sobre o caráter midiático, espetacularizado, tecnológico, “de videogame” da primeira Guerra do Golfo, a da CNN. O “ultramoderno processo de eletrocução” não configurou, para Baudrillard, uma guerra, mas uma “paralisia ou lobotomia de um inimigo experimental longe do campo de batalha sem qualquer possibilidade reação”. 10.000 toneladas de armas, dizia, não são suficientes para fazer uma guerra: quando os americanos finalmente saíram de trás da sua cortina de bombas, os iraquianos já haviam se escondido atrás da sua cortina de fumaça, dizia ele. Massivas mortes e destruição, claro, mas fora de toda visibilidade. Sobre o 1991-92 no Golfo, Baudrillard escreveu:

Quem poderia ter prestado mais serviço a todos, em período tão curto e a tão baixo custo além de Saddam Hussein? Ele reforçou a segurança de Israel (refluxo da Intifada, giro da opinião pública mundial para Israel), assegurou a glória das armas americanas, deu a Gorbatchev uma chance política, abriu as portas para o Irã e os Xiitas, lançou de novo a ONU, etc. tudo isso de graça, já que só ele pagou o preço em sangue. Podemos conceber um homem tão admirável? E ainda por cima nem caiu! Permanece um herói para as massas árabes. É como se ele fosse um agente da CIA disfarçado de Saddam Hussein.

Para quem acompanhou as três últimas décadas de Baudrillard, com seus insólitos paradoxos e provocações, seus aforismos vertiginosos, é difícil imaginar o autor dos primeiros livros: um pensador sóbrio, respeitoso com os conceitos. Ele dedicou-se a fazer com o estudo dos signos (semiótica, semiologia) o que Marx havia feito com a economia política: Para uma crítica da economia política do signo (1972) é uma demolição rigorosa dos restos de aristotelismo em Marx, enclaustrados no conceito de “valor de uso” – conceito cujo enterro Baudrillard prepara com pompa e circunstância. O livro pacientemente desmonta o par valor uso / valor troca e o substitui pelo par valor troca / valor signo. O “sistema das necessidades” humanas ao qual o valor de uso responderia não seria senão um mito empirista, uma hipótese falsa. Tudo é desde sempre troca e signo.

Ao contrário do que incorretamente informa o obituário do Globo, Baudrillard não foi um “feroz crítico da sociedade de consumo” nem um “crítico radical dos meios de comunicação”. Em suas primeiras obras, de Sistema dos Objetos (1968) a Sociedade de consumo (1970) a Troca simbólica e morte (1976), ele foi um teórico do consumo, um analista dedicado a desenredar os seus componentes: ali ele encontra a reprodução de desejos, a mitologia das supostas “necessidades naturais”, a produção industrial das diferenças, o caráter simulador, fantasmagórico do marketing, os embriões do que depois ele identificaria como o fim da separação entre realidade e simulacro.

Baudrillard tampouco foi “feroz crítico” desses processos na sua última fase. Nela, dedicou-se a dar à noção de “simulação” uma operacionalidade, alguma nobreza filosófica, um terreno no qual ser ferramenta para o pensamento. Sua escrita, inclusive, era uma constante mímesis dessa simulação. Em Simulacro e Simulação (1981), proclamou que a imagem passa por quatro fases, nas quais ela sucessivamente

1. reflete uma realidade básica.
2. mascara e perverte uma realidade básica
3. mascara a ausência de uma realidade básica
4. não mantém qualquer relação com qualquer realidade: é o seu próprio simulacro. america.jpg

Sobre Brasília, Baudrillard escreveu:

Em Brasília, a abstração da cidade oferece pelo menos uma certeza: ao menos aqueles que são loucos o suficiente para atravessar suas vias expressas urbanas – pondo a perigo suas vidas no processo – são seres humanos. A raça humana não é, em nenhum lugar, tão incongruente como nesse entorno extra-terrestre, com a exceção dessas criaturas minúsculas que se tocam e andam a pé.

A realização maior do simulacro para Baudrillard seria a América, lugar da “utopia realizada”. A ela dedica um livrinho delicioso, poético, que culmina a tradição inaugurada por Tocqueville e deixa como rastro, no Brasil, a bela série de TV feita por João Moreira Salles. Algumas das páginas mais hilárias já escritas sobre Reagan ou a Disneylândia encontram-se nesse livro.

Baudrillard deixou ainda uma reflexão sobre o problema do mal como objeto situado além de toda moralidade (Transparência do mal: Ensaio sobre fenômenos extremos), um escandaloso volume sobre a sedução em que lamentava o abandono, por parte de Freud, da hipótese da sedução infantil como base da teoria da sexualidade, um debochado convite a Esquecer Foucault e 5 tomos de aforismos e lembranças, Cool Memories. Seu adeus a qualquer posição “de esquerda” foi dado num livro de belíssimo título: À sombra das maiorias silenciosas.

Morreu aos 77 anos de idade.

PS: Ver também o belo post da Sheila Lerner e as duas partes da sua ótima entrevista com Baudrillard para o Estadão (hat tip: gugala)