Páginas da Vida

 

paginas.jpgTodos os apelidos de personagens são roubados de Falzuca ; Marina W já comentou também.

Pressão do público ou fruto do absurdo show de bola do Marcos Caruso: o Francisco ficou mesmo com o avô. Porque não era para ser. A narrativa vinha encaminhando outra coisa: Clarinha com a mãe adotiva, a Densa, e o Francisco com o casal bunitim formado pela Jujuba Traíra e pelo Embuchador D. Pedro I. No final o vovô-pobre-mas-honesto, o Boca de Alma, não só manteve o moleque como levou a Renata Sorrah de quebra.

Para dar verossimilhança à resolução que não era a que a trama encaminhava, Manoel Carlos escreveu um par de capítulos malucos na última semana – onde Jujuba e D. Pedro I, sempre tão razoáveis na novela inteira, entravam na casa de Densa insultando-a por ter escondido a identidade de Clarinha. Era necessário completar a construção da antipatia do público ante o casal, que havia se iniciado meio que sem querer. Levantar a bola para a catarse pró-vovô do último capítulo.

Completinha a parábola, todos os vilões triunfaram. O crime compensa. Sim, porque apesar das aparências criadas pela performance tão brilhante de Caruso, o avô é maligno também, ou não? Pouca gente notou isso. Ora, é o único da novela que dá porrada em mulher, destila ressentimento a cada frase e tem esse estranho jeito de amar o neto, exigindo retribuição e exclusividade – transtorno afetivo narcísico que aparece à beça entre amantes, mas que eu nunca vi, naquele grau pelo menos, entre pai e filho ou avô e neto. É um obsessivo-compulsivo com distúrbio narcisista em último grau, o cabra. Mais cinco anos com aquele avô e o moleque precisará da freudiana braba. Mas Caruso é tão show de bola que nos identificamos. MarcosCaruso.jpg

Os outros vilões todos venceram: Alícia, a PCC (Perua Ciumenta Consumista), vê o ex-namorado bonitão perder os dois processos, esfrega a derrota na cara dele e ainda embolsa uma bolada; Winnits, a Abusada, embolsa metade da grana roubada por Gregui Falcatrua e ainda o relega à posição de amante quando Machadão, o porteiro, ganha na megasena; o Gregui Falcatrua termina onde no fundo sempre quis estar, com grana e na posição de segundo homem de alguma perua. Dona Martha escapa do sanatório e de ter que morar com Boca de Alma e moleque. A única vilã que se dá mal é a Craudétes, a racista-mineira-mas-de-sotaque-Leblon, que morre queimada no ônibus. O buzum ia para BH mas, pelo sotaque, o destino era Juiz de Fora, no máximo.

No racismo a novela derrapa. Feio. Tentou fazer o gesto, mas não deu. Porque o racismo brasileiro pode chegar a cúmulos, mas ninguém – nem mesmo o pior racista – rejeita uma comida porque foi feita com mãos negras. Não no país da servidão doméstica institucionalizada. Não cola. O tema do racismo perdeu verossimilhança ali.

E os dois casais de mocinho com mocinha que a novela prometia para o final? Formaram-se, mas sem nenhum charme: Embuchador D. Pedro I ficou com Jujuba Traíra, mas sem as crianças. O casal fracassou tanto como polarizador de simpatia do público que a última cena do D. Pedro I não foi com Jujuba, mas com a antiga namorada, a megera, comemorando a derrota dele no tribunal. Sem as crianças, a Jujuba perde seu encanto. Ela era o duplo do fantasma de Nanda, um mero eco.

O Capitão Cueca com a empregadinha Big Broda era o casal que dava audiência mesmo. Terminaram casando-se na igreja, claro. Na alegoria incestuosa tupiniquim, o pobre que sabe o seu lugar até ganha a recompensa – o filho do patrão para a Big Broda e a Carmen Opera Bufa, ex-corna e ninfomaníaca monogâmica, para o jardineiro. Mas quem preside sobre a porra toda ainda é o Tide – ninguém sai daquele casarão, que no final das contas é a própria imagem da endogamia. Casam-se, mas não se mudam.

Falou-se das mulheres da novela, mas os homens são todos emasculados. O único homem é Tide, o patriarca, essa estranha figura do fálico-quase-virgem: homem que não gerou homens, só mulheres e meninos. A família tem um pequeno probleminha com a reprodução da Lei do Pai. Bem apropriado, então, que não haja rolado nada com a Sônia Braga – que estava de visual medonho. O casal emblema da novela termina sendo, então, a Olhos Arregalados com o Boca de Gato: comportado, o bom mocismo incestuoso (eles são ex-cunhados) continua sentado à direita do pai. Priminhos brincando. Bons modos. O pai fálico-quase- virgem preside a mesa.

Confirmo-lhes, jubilante, que suportei a Regina Duarte durante 6 meses. E ganhei a recompensa: 10 minutos de Eva Wilma, poderosíssima, no episódio final. Vai ser charmosa assim lá longe.

Foi bom seguir uma novela – tenho mantido a minha média de uma a cada vinte anos.