Resposta a Renato Janine Ribeiro
Você não se lembra de mim e provavelmente não lerá isto, mas achei por bem fazer este post em forma de carta e evitando o tratamento de Sr. que, se justificável pela diferença etária e curricular existente entre nós, talvez pudesse, aqui no caso, soar irônica. Não é a intenção.
Mas convenhamos: que cagada, hein cara? Eu vou lhe contar uma coisa: com esse artigo que você escreveu para a Folha de São Paulo do dia 18/02, você pode ter jogado por terra toda a reputação construída ao longo de pelo menos 16 livros, uma centena de artigos e uma presença impecável na vida intelectual brasileira. A estas alturas do campeonato, você já deve ter se arrependido amargamente do que disse. Você quis agradar a direita e sacudir a esquerda, e acabou ridicularizado por aquela e desmontado por esta – para não falar na tunda que o Elio Gaspari lhe deu, na lição de classe que o italiano Andrea Lombardi, seu colega de USP, lhe brindou e nas aulas que você andou levando blogosfera afora. Você conseguiu desagradar todo mundo; ficou mal com gregos e baianos.
Tudo isso para satisfazer a sanha linchadora da turba depois do assassinato do menino João Hélio? Tudo isso para mostrar que o intelectual também pode ser durão como o Jornal Nacional, indignado como o Fantástico, paladino e denunciador como a Veja? Tudo isso pelo medo de remar contra a maré? Tudo isso para pegar carona nos discursos simplistas, por medo de discutir com argumentos um pouco mais tridimensionais o complicadíssimo problema da violência no Brasil? Você abdicou da principal tarefa do intelectual, que é desconfiar do senso comum e não ter medo de estar em minoria. Juntou-se à turba com argumentos tão patéticos que ela própria se encarregou de expulsá-lo do cerimonial do linchamento.
Você escreveu: Se não defendo a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho que é pouco. Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte . . . Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido . 
Custa acreditar que quem escreveu essas frases é a maior autoridade brasileira no ramo da filosofia conhecido como ética. Aliás, o que anda acontecendo com os professores de ética aí em São Paulo, hein? Primeiro, o Roberto Romano descobre o tucanato como culminação da razão ocidental; agora, no maior jornal do país, você fantasia estuprar e torturar prisioneiros com o argumento de que “pena de morte é pouco”. Você se lembra da época em que explicava o imperativo categórico kantiano (aja a cada momento como se o seu ato fosse ser universalizado) com a frase a cada ação que cometo, estou reconhecendo o direito (ou o dever) de todo ser humano a também cometê-la? Sem dúvida, trata-se de uma explicação boa, compreensível, que capta o essencial da Crítica da razão prática. Como é que você vai explicar o imperativo categórico kantiano agora, hein Renato?
Você sabe, já li uma penca de livros seus. Meu favorito é A sociedade contra o social. Quando estou no Brasil, assisto ao seu programa sempre que posso. Ana também gosta. Era um belíssimo precedente de incorporação da filosofia, de forma aplicada, aos meios de comunicação de massa. Digo “era” propositalmente. Não é irônico que os episódios mais recentes tenham sido exatamente sobre a diferença entre justiça e vingança, sobre a irredutibilidade daquela a esta? Como é que você se esqueceu dessa diferença? Com que cara você vai apresentar esse programa agora?
Para satisfazer a turba, você disse: Se há Deus, e acredito que haja, embora não necessariamente antropomorfo, como admite Ele esse mal extremo, gratuito, crudelíssimo? . . . Não vejo diferença entre eles e os nazistas . . . Os nazistas foram culpados do que fizeram. Optaram pelo mal. Como esses assassinos.
Nazistas? Mal gratuito? Que pilha de platitudes pré-kantianas é essa? Depois de um homícido culposo, produto de uma trapalhada de um assalto feito com arma de brinquedo? O sofrimento horrível da criança e dos seus pais vai agora sair da esfera privada e virar inspiração para políticas públicas? Como é que você vai ensinar agora, aí na USP, a diferença entre um indivíduo culpado de um crime e uma política de exterminação estatal de mais de uma década? Você cometeu o pior erro que um progressista pode cometer em política: aceitar discuti-la com categorias morais.
Fiquei sabendo que no próximo domingo, no Mais!, você vai tentar “explicar” que não defendeu a pena de morte nem a tortura. Sabe, Renato, em Minas temos um bom ditado: merda, quanto mais mexe, mais fede. Não tente dizer que não o entendemos. Retire o que disse, retrate-se. É o mais digno.
Já sei: não faltará quem diga que estou absolvendo os criminosos. É o que sempre acontece quando alguém tenta introduzir um pouco de racionalidade no debate sobre o castigo. É fácil gritar: mais porrada, mais cadeia, mais polícia. Falamos de prevenção do crime, de políticas públicas para tentar atenuar a violência, e o patrulhamento só vê nisso a absolvição dos criminosos e a justificativa dos seus atos.
Veja bem, não nego que possam existir argumentos razoáveis a favor da redução da maioridade penal para 16 anos; não nego mesmo que possam existir argumentos razoáveis a favor da pena de morte. Eu sou radicalmente contra esta última, especialmente num país como o Brasil, onde o judiciário quase só funciona contra os pobres. Mas deixemos de fingir que a punição é a chave maior para resolver o problema, num país onde só 3% dos homicídios são esclarecidos.
Discutamos também as experiências reais, ainda que limitadas, de redução da violência. Diadema é um exemplo. Belo Horizonte não fez milagres, mas melhorou. Nas experiências com algum grau de sucesso, em geral se vê uma combinação de fatores: iniciativas educacionais, melhoria das condições de trabalho da polícia, programas de reintegração. Discutamos também alguma mudança na absurda política de drogas do Brasil, talvez a nossa grande chance de reduzir rápida e significativamente a taxa de homicídios dolosos.
Não, não acho que a “sociedade” seja culpada pelo crime dos assassinos do João Hélio, pelo menos não dessa maneira simplista; da mesma forma, Renato, que a lamentável ausência de um discurso de esquerda sobre a segurança pública no Brasil (que acaba deixando o tema nas mãos da direita) não é a culpada pela monumental cagada que você cometeu na Folha.
Mas não há dúvida que a luta contra a violência passa, sim, por medidas educacionais, ambientais e também penais, assim como a formulação de um discurso progressista sobre a segurança pública talvez possa impedir que no futuro apareçam no Brasil professores de ética defendendo a tortura de presos.
Atentamente,
Seu leitor.

