Qual foi mesmo o grande absurdo dito pela Ministra Matilde?
A turba que enlouquece de raiva sempre que o tema do racismo brasileiro entra em pauta e que se especializa em criar simetrias ilusórias do tipo “os negros também são racistas” recebeu da ministra Matilde Ribeiro o presente que esperava: uma declaração que não tem nada de absurda, mas que, tirada do contexto, foi suficiente para que a República Morumbi-Leblon começasse a queima em efígie da Ministra como uma perigosa Goebbels afro-tupiniquim. A hipocrisia de certas reações à fala da ministra demonstra o quanto o Brasil ainda está longe de enfrentar o tema das relações raciais. O motivo para tanto escarcéu? A seguinte citação:
BBC Brasil – E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?
Matilde Ribeiro – Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.
Vamos por partes. A primeira lição retórica que todo político progressista deveria aprender não é a de dar boas respostas; é a de desconstruir perguntas tendenciosas. Em primeiro lugar, como residente dos Estados Unidos há 17 anos, não sei a que “racismo de negro contra branco” nos EUA o entrevistador se refere. Estará pensando nas instituições exclusivamente negras (como universidades) criadas na época em que aos negros não era permitido entrar nas instituições brancas? Se é verdade que nos EUA há mais separação e segregação racial que no Brasil, só um lunático da Klux Klux Klan atribuiria isso ao “racismo de negros contra brancos”. O tema do racismo nos EUA é longo e complexo; não quero me estender sobre ele aqui. Mas a primeira coisa que a Ministra deveria ter feito é questionar essa estranha comparação, ancorada num factóide que o entrevistador pressupôs mas não demonstrou.
Daí vieram as frases que deliciaram a turba, louca para lançar suas pérolas de que “os negros são racistas” (até o termo gentinha, de ilustre história racista, foi ressucitado nos ataques de indignação). A frase Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco, quando justaposta à frase seguinte, me parece de sentido óbvio: o racismo é uma estrutura social que faz com que negros diariamente apanhem da polícia por serem negros, que sejam enviados ao elevador de serviço por serem negros, que sejam barrados na boate por serem negros, que se vejam privados de um emprego ou um financiamento porque se requer “boa aparência” (essa pérola eufemística do racismo brasileiro). Entendido como estrutura social que priva o outro de oportunidades e lhe diminui em sua condição humana – entendido nesse sentido – o “racismo de negro contra branco” obviamente não existe; não estão dadas as condições sociais para que ele exista. É só isso o que disse a ministra. O racismo como estrutura social não pode ser comparado à hipotética animosidade que pode sentir um negro contra um branco (será que a turba atentou para o uso do artigo indefinido singular aqui?) porque são fenômenos de ordens completamente diferentes. São alhos e bugalhos. A operação de criar simetrias ilusórias para justificar situações de opressão é conhecida. A ministra foi ingênua politicamente. Só isso.
Passemos ao tema de se é “natural” a hipotética animosidade do negro contra o branco. Aqui faço, como dizem os gringos, uma full disclosure ou, em bom tupiniquim, ponho os pingos nos i’s: dado meu interesse por candomblé, samba, funk, secondlines, capoeira e outras manifestações da cultura negra, eu provavelmente já passei mais tempo no interior de comunidades afrodescendentes do que a maioria. Incontáveis vezes já participei de desfiles em New Orleans ou shows na periferia de Belo Horizonte onde, entre centenas de pessoas, eu era um dos únicos brancos. Jamais senti qualquer agressividade, animosidade ou olhar do tipo “o que esse branquelo está fazendo aqui?” – o que não quer dizer que eu não acharia compreensível que isso ocorresse. Quando e se ocorrer, agirei – quero acreditar – de forma a minorar essa hipotética animosidade, em vez de tomá-la calhorda, hipocritamente, como prova de que “racismo é tudo igual” e que um gesto de hostilidade é equivalente a 500 anos de sujeição, desumanização e preconceito.
As reações à fala da ministra dizem muito, muito mais sobre a ansiedade da República Morumbi-Leblon com o tema da raça e da etnia do que qualquer coisa que a ministra tenha dito. Um pouquinho mais de compreensão sobre o que se está debatendo aqui, rapaziada.
E viva Nei Lopes.
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A cor não é transparente, no blog Diário da Lulu.



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