A Testemunha, de Rosemary Sullivan

 

Já fizemos uma brincadeirinha tradutória aqui no blog em certa ocasião. Eu jamais me considerei bom tradutor de poesia, mas hoje resolvi arriscar uma versão para este poema da escritora canadense Rosemary Sullivan, que me intriga há tempos. Está aberta a críticas e a traduções alternativas. O Almirante e a Cynthia, por exemplo, com certeza fariam versão mais elegante. Em todo caso, aí vai. O original está aqui.

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A Testemunha
, Rosemary Sullivan

Tradução: Idelber Avelar

Tenho que admitir que é estranha a sensação
de estourar os miolos da própria esposa,
ele disse como que sorrindo.
Suas palavras me engancharam –- me enlaçaram
Algo numa mulher ama um assassino.
O sexo é a barganha
que sempre arrumamos para perder

Ele programou o assassinato durante anos
no deserto com um revólver
decepando garrafas vazias de Perrier.
Cada uma era humana.
Voltava antes do anoitecer
para uma partida de golfe com seus filhos.

Eu era a testemunha que ouvia
e procurava mensagens em código na distante
ausência onde ele morava.
“Estou saindo”, ele dizia.
Esta pode ser a noite. Fique
antes dele pôr sua peruca laranja
e entrar no Opalão
para um passeio nas ruas.
Uma vez ele atirou na janela
E depois riu.
Não havia medido a grossura do vidro;
a bala, uma coisa morta na neve.
A polícia se esqueceu de checá-lo
esquecida de que um homem sempre queria matar sua esposa.

Eu ri com ele.
O sexo foi bom naquela noite.
Ele foi gentil.
E mortífero.
Eu tinha aprendido a arte daquele jeitinho.
Sexo é morte;
o quente grudento afundamento que te faz e desfaz.
Amada como a morte.
Eu observei as feridas incharem no rosto
que não era meu rosto
mas uma criança acovardando-se num canto
esperando pela tripa de amor.
Naquela violência pelo menos
eu sabia que era possuída.

Tentei matar-me uma vez com Tramadol,
coisa idiota.
Ele me lembrou das regras:
eu era a fraca
Se eu partisse, eu morreria antes
que se ficasse.
As coisas faziam sentido assim.
Ele era o homem de traje de seda
que veio na primeira classe.
Ele se arrastara para dentro do meu corpo
procurando sua vida.
Se ele disparava como uma coisa machucada
era ele o ferido que todos abandonaram.
Talvez eu pudesse salvá-lo
olhando o mundo fixamente
para além da sua necessidade.
Mas meu corpo era inútil.
Lá dentro soltava-se algo triste
que ouvia e temia e pensava
mas nunca era suficiente.
Era algo envergonhado de mostrar-se.
Merecia morrer.

Aí eu vi a foto da mulher no jornal.
Ele a segurara pela coleira como um cachorro
e rasgara-lhe o rosto.
A mão e o punho dela quebrados
Retorcidos ao seu lado.
Indignei-me.
A morte deveria ser limpa não vulgar,
A necessária morte
do amor.

Quando chamei a polícia
Eu só disse que
Eu nunca mentira. Eu não fiz nada.
Em todo caso, ele não era o tipo de homem
pelo qual vale a pena morrer.