“Israel está criando homens-bomba”. Amálgama traduz do Guardian
A convocação chegou por telefone, às 11h de um sábado. O celular de Yitzchak Ben Mocha mostrou “número não identificado”, mas ele sabia. Uma voz gravada ordenava que se apresentasse à sua unidade do exército às 8h da manhã seguinte. Pôs o uniforme na mala, pensando que, dali, iria diretamente para a cadeia. Reservista israelense, 25 anos, Yitzchak saiu de casa apenas para informar a quem o recebesse que não aceitaria lutar naquela guerra, nem, em nenhum caso, participaria de qualquer ação relacionada à guerra de Gaza.
Apresentou-se e o mandaram montar barracas para os soldados em combate.
“Disse ao oficial ‘Não. Não vou fazer isso.’ Na manhã seguinte, mandaram-me de volta para casa. Disseram que me reconvocariam, se fosse necessário. Até agora, não convocaram. Antes, todos os ‘refuseniks’ passavam meses na cadeia. Depois soltavam, depois voltavam a prender, e era isso, meses a fio. Agora, mandam pra casa. Acho que o exército está dispensando quem se recusa a combater para não ter de admitir que há muitos ‘refuseniks’. Seria prejudicial à imagem de que os israelenses e o exército estão unidos nessa guerra.”
O exército tem informado que há tanto apoio à guerra de Gaza, que apresentaram-se mais soldados para lutar o que a imprensa local caracteriza como uma “guerra justa” do que o necessário, que muitos reservistas apresentaram-se e muitos foram dispensados, para serem reconvocados se necessário. Ben Mocha diz que isso só serve para encobrir o número cada vez maior de homens e mulheres em idade de servir o exército que se recusam a combater contra Gaza.
Uma organização de apoio aos que se recusem a combater, “Courage to Refuse”, publicou manifesto em vários jornais, condenando a matança de centenas de civis palestinos e conclamando os convocados a recusar-se a combater em Gaza. “A violência brutal, sem precedentes, contra Gaza é chocante. É falsa a esperança de que tanta brutalidade trará alguma segurança aos israelenses, e é esperança perigosa. Não podemos nos manter passivos, quando centenas de civis são assassinados, na carnificina promovida pelo exército de Israel” – dizia o manifesto.
É difícil saber com segurança quantos recusaram-se a combater em Gaza, porque o exército os dispensa silenciosamente. Até hoje, só um reservista foi preso por recursar-se a combater em Gaza. No’em Levna, primeiro-tenente do exército israelense, foi posto em prisão militar por 14 dias. “Não há o que justifique matar civis inocentes”, disse ele. “Nada justifica essa carnificina. É a arrogância dos israelenses, como se fosse lógica. É como se dissessem ‘se os chacinarmos, ficará tudo bem’. Mas o ódio, a ira que estamos plantando em Gaza recairá sobre nós mesmos.”
Ben Mocha não é militante pacifista nem é anti-Israel. Cresceu em família de judeus ortodoxos, frequentou escola religiosa e prestou serviço militar pleno numa unidade de paraquedistas de combate, considerada da elite do exército israelense.
Disse que se alistou pensando em combater “organizações terroristas”. De repente, “estava matando palestinos que lutavam por independência e autodeterminação, ou espancando agricultores em protesto contra o roubo de suas terras.” Também viu abusos, como soldados israelenses que mandavam mulheres e crianças entrar em casas abandonadas, para “verificar” se não estariam minadas. “Isso é usar escudos humanos” – disse.
“Não sou pacifista. Reconheço que é importante para Israel ter um exército eficiente de defesa, mas não quero mais participar de uma operação de ocupação que já tem 40 anos. Comuniquei ao exército que me apresentarei para treinamento, de modo que sempre estarei preparado para defender Israel. Mas atacar Gaza e perpetuar a ocupação não é defender Israel.”
Leia a íntegra do artigo de Chris McGreal, em tradução de Caia Fittipaldi e Daniel Lopes, no Amálgama.
