Aviso aos navegantes
Ficou para amanhã a conversa sobre Terras do sem fim, prevista originalmente para hoje. Desculpem a furada.
Ficou para amanhã a conversa sobre Terras do sem fim, prevista originalmente para hoje. Desculpem a furada.

Estou viciado na Globo Internacional.
A última vez em que eu tive satélite recebendo sinal da Globo aqui nos EUA foi naquele campeonato brasileiro em que o Galo caiu na semifinal, de virada, sob um dilúvio em São Caetano. 2001? Acho que sim. O Galo tinha um bom time: Felipe, Valdo, Marques, Veloso. Caiu, de novo de virada, de novo na semifinal, de novo ante um time inferior. Para piorar, com narração de Galvão Bueno. Depois daquilo mudei de casa, larguei o satélite.
Agora com o Galo bombando na segundona e as eleições pegando fogo, resolvi me dar o luxo de novo. Não é muito caro: 40 dólares por mês. Nas transmissões de futebol da Globo Internacional, o Galo tem tido prioridade: exibem os jogos quase toda a semana. Também pudera. Os brasileiros no exterior, como se sabe, se dividem em dois grandes grupos: os mineiros de Governador Valadares e os outros.
O interessante da programação da Globo Internacional é que ela é reduzida ao pão e circo básico: jornais, novelas e futebol. Por aqui a gente vê mais futebol que qualquer brasileiro no Brasil que não tenha TV a cabo e Premiere Sports. São três jogos todo domingo e uns 3 ou 4 durante a semana. E no sábado, a segundona. A novela das 8 passa no horário normal e repete de madrugada. Mesma coisa com a das 7. De madrugada mostram documentários antigos, dos anos 70 e 80, que jamais são exibidos por aí.
Mas o mais curioso é a grade de anunciantes: advogados especializados em problemas de imigração, serviços de remessa de dinheiro ao Brasil, Bradesco Internacional, restaurantes gaúchos em Boston, festas da nostalgia mineira em Washington, lojas online com guaraná, doce de leite e paçoquinha. Ah, as pequenas alegrias dos expatriados!
E o pior é que estou gostando da novela. Imaginem se começamos a discutir Páginas da Vida aqui no blog? Arrasamos com a concorrência!
Uma mui resumida versão desta entrevista, feita a mim pelo jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, foi publicada no Estado de Minas, na época do lançamento do Alegorias da derrota (2003). De lá para cá ninguém mais leu a miniversão que saiu publicada. A versão extensa que segue abaixo é inédita.
1) Quais foram os rumos tomados pelas letras e culturas latino-americanas após o fim das ditaduras no continente, segundo o seu livro?
Ali no livro o assunto é apenas um dos muitos rumos possíveis. Trata-se de ler um conjunto de textos que responderam a um fenômeno cono-sulista e brasileiro, onde as ditaduras, nos anos 60-80, cumpriram papéis comparáveis: realizar ou tornar possível a passagem de um momento de relativa hegemonia do Estado a um momento completamente dominado pelo mercado. A gama de rumos tomados pelas letras latino-americanas ante o legado das ditaduras é ampla e inclui o imobilismo passivo, o pragmatismo cínico, a neovanguarda, a melancolia, o hiper-realismo da neoviolência e uma série de outras posições. Mas todas elas estão respondendo a um mesmo conjunto de dilemas históricos: realizar o luto pelos nomes e ideais que pereceram (o que poderíamos denominar o imperativo de luto pós-ditatorial) e fazê-lo em um momento de amnésia mercado-livrista, de euforia globalizante neoliberal e de crise da cultura letrada. Trata-se um momento difícil para a literatura: ante o horror da tortura disseminada e científica, ela vê questionada sua capacidade de traduzir a experiência. Instala-se a percepção de que há vastas áreas da experiência que não se deixariam traduzir literariamente. Isto reforça o fato de que a literatura se encontra cada vez mais desvinculada da experiência dos leitores, posto que cada vez mais profissionalizada e especializada. No caso hispano-americano, a grandiosa utopia do boom narrativo dos anos 60 vê esgotar sua função histórica, a de oferecer uma modernização latino-americana compensatória, uma espécie de redenção modernista do subdesenvolvimento através das letras. As ditaduras vêm tornar esse projeto de redenção letrada impossível. Para caracterizar os rumos das letras na pós-ditadura, eu diría que eles são marcados por dois fenômenos, o fim do projeto de redenção social letrada e a agudização da separação entre literatura e experiência. No caso da América Latina, esses dois fenômenos, que são globais, se articulam através do instrumental mortuário das ditaduras. 
2) Você escolheu alguns autores específicos para, através de suas obras, realizar o seu trabalho. Quais foram eles e por quê?
Dediquei-me a estudar alguns de meus ficcionistas prediletos: os brasileiros Silviano Santiago e João Gilberto Noll, a chilena Diamela Eltit, os argentinos Ricardo Piglia e Tununa Mercado. São alguns dos autores latino-americanos contemporâneos que leio com mais prazer. Depois vai descobrindo-se, claro, a coerência que organiza as escolhas e o próprio livro. São autores que mantém com nossa realidade relações que poderíamos chamar de intempestivas. Este termo, de inspiração nietzscheana, designa aquela parte do presente que se move, no interior de seu tecido, tentando olhar para aquilo que esse presente reprimiu e ocultou, tentando nomear aquilo que o presente silenciou. O intempestivo é então aquilo que se move em discórdia com o tempo presente a partir de uma memória, mas sempre em benefício de um tempo vindouro. Essa relação entre a memória, o presente e a utopia é o elo que une esses cinco autores, embora eles sejam, claro, muito diferentes entre si. Também os une uma percepção aguda da crise entre literatura e experiência, para a qual oferecem “soluções” diversas: o pastiche histórico de Santiago, o minimalismo rarefeito da ficção de Noll ou a paródia politizada de Piglia; o neovanguardismo redentorista da chilena Eltit, que aposta na radicalização de uma linguagem experimental que traduzisse os setores mais marginais, ou a linguagem reflexiva e memorialista, quase pós-psicanalítica, da obra-prima de Tununa Mercado, Em estado de memória, que se dedica a reconstituir os anos de exílio da autora no México e realizar um verdadeiro desmantelamento de mitos pessoais e nacionais. São escritores bem distintos, mas vincula-os uma reflexão comum sobre a memória e a experiência, realizada por todos eles em termos mais matizados, complexos e inteligentes que o pragmatismo e o conformismo dominantes permitiriam.
3)Você também faz uma análise da intelectualidade e da universidade durante e depois das ditaduras. Qual é sua tese principal sobre esses temas?
A tese principal é a de que as ditaduras também realizam a função de transitar a universidade. Ela passa, grosso modo, de um momento em que ainda era possível a luta entre os ideológos que ela produzia para servir à elite e os intelectuais críticos, ao momento atual, em que a universidade já não produz nem ideólogos nem intelectuais, e sim técnicos, especialistas cada vez mais proletarizados. Se os antigos ideólogos produzidos pela universidade humanista clássica já não são necessários (já não são úteis à elite), os antigos intelectuais de raiz sartreana e vocação de completude, de análise total da sociedade, já não são possíveis – não têm lugar na universidade tecnificada e compartimentalizada de hoje. Esta tecnificação é visível nas próprias leituras das ditaduras que realizaram sociólogos como José Joaquín Brunner, no Chile e Fernando Henrique Cardoso, no Brasil. Ambos definiram as ditaduras a partir do vocábulo “autoritarismo” e teceram a partir dele um modelo do que o deveria suceder. A sociologia do autoritarismo realiza a operação de dar à transição “democrática” uma língua, um léxico, um conjunto de figuras de linguagem. Naquela teoria, o “autoritarismo” teria sido o produto da acumulação de uma camada burocrática no aparato estatal, supostamente alheia aos interesses do capitalismo transnacional: a ditadura militar brasileira teria sido uma espécie de excrescência estatista. Uma vez removida essa camada, as portas estariam abertas para a democratização. Nesse sentido, não há nenhuma contradição entre o FHC que escreve Autoritarismo e Democratização em 1975 e o FHC que implementa o projeto de flexibilização e privatização neoliberais em 1994-2002: o FHC de 1975, sob a forma de “teoria do autoritaritarismo”, já é uma fundamentação a priori da coalização tucano-pefelê de 1994.
4) O que diferencia a literatura latino-americana feita no período das ditaduras, implantadas no Continente a partir dos anos 60, para a que foi feita após a derrocada das mesmas, já nos anos 80 e 90?
Trata-se de um período longo em vários países e duas línguas, claro, o que torna qualquer comparação geral muito difícil. No campo da narrativa entra em crise o projeto modernizador que associava a sofisticação à experimentação com vários narradores, relatos longos e múltiplas temporalidades. Essas características, que foram pilares do discurso do boom hispano-americano dos anos 60, ainda podem ocorrer na ficção, claro, mas já dificilmente com o significado cultural e político que tiveram antes. Esgota-se o paradigma militante, que gerou nas artes sessentistas movimentos como o brigadismo chileno e o CPC brasileiro. Hoje ele não inspira uma produção artística significativa. No campo da poesia chilena observa-se o declínio da hegemonia de uma certa dicção nerudiana, emotiva, épica e grandiosa, e a ascenção de uma série de vozes mais cáusticas, cínicas ou humorísticas inspiradas na anti-poesia de Nicanor Parra. Na Argentina, a passagem dessas décadas coincide com a avaliação do legado do peronismo, e a pós-ditadura vê a consolidação de toda uma linha de narradores que se dedicam a investigar os laços entre a nação e a memória. Ricardo Piglia e Juan José Saer são os mais conhecidos no Brasil, mas a lista de grandes escritores lá é longa: além de Tununa Mercado, meus favoritos são Juan Martini, Daniel Moyano, Andrés Rivera, Alan Pauls, Marcelo Cohen, César Aira, Ana María Shúa, Sergio Chejfec, Martín Kohan, Matilde Sánchez. 
5) No Brasil, como funcionou este processo? A literatura feita durante a ditadura foi mais pungente do que a atual?. O que mais as diferencia?
Em geral tento evitar designar um momento do passado como mais pungente que o atual, porque isso tende a obscurecer certas zonas do presente: somos pouco a pouco seduzidos a não ler o presente para manter o conforto da nostalgia. Eu acredito, na verdade, que a literatura brasileira dos anos 80 e 90 é superior àquela escrita nos anos 60 e 70, mas não creio que isso seja atribuível à censura. No meu livro tento aprofundar a crítica, já feita por autoras como Flora Süssekind, à idéia de que a literatura escrita sob ditadura seria analisável a partir da censura e do que ela supostamente impõe. Não se trata, claro, de subestimar o problema da censura e sim de insistir que ela não é chave explicativa das transformações pelas quais passa a literatura. Estas têm suas raízes na crise de modos de representação anteriores (nacionais, épicos, simbólicos) e na emergência de outros (locais e/ou transnacionais; melancólicos; alegóricos; ligados a grupos sociais, étnicos, sexuais pouco representados até então). A censura não é chave explicativa para essa transição histórica. Acredito que o que mais diferencie a literatura escrita nos anos 60 e 70 da literatura pós-ditatorial é que esta se produz num momento de esgotamento muito mais radical de valores associados ao modernismo e à vanguarda. Isto gera as condições para uma série de novos projetos literários cujos traços principais têm sido estudados por críticos como Flora Süssekind e Italo Moriconi: recurso crescente a gêneros populares (policial, ficção científica), dramatização constante do sujeito, primazia do pastiche sobre a paródia irônico-modernista e tentativas várias de responder ao divórcio entre literatura e experiência – como a inspiração cinematográfica (e muitas vezes o desejo de converter-se em filme), compartilhada por boa parte da ficção contemporânea. Essa produção tende a ser segmentada, ágil, descontínua, organizada em quadros, planos e flashes, em vez de, por exemplo, longas reconstituições de um fio memorialístico, que foram dominantes em outros momentos da literatura brasileira.
