Crônica de expatriado
Anteontem, uma discussão acalorada com um amigo muito querido sobre o caderno Mais!, da Folha (que eu tenho achado cada vez mais fraco e que esse amigo defendia) me fez revisitar alguns dos paradoxos que assombram o expatriado. Depois do papo eu me vi recolocando velhas perguntas: quão distorcidas são as percepções do Brasil que temos os brasileiros que moramos fora? Eles são inevitáveis? Quais as distorções mais comuns? Por outro lado, quão distorcidas são as percepções que têm os nossos amigos daqui sobre as ilusões de ótica dos expatriados?
Em 17 anos morando fora, já encontrei brasileiros que se esqueceram completamente de fenômenos como a violência urbana e a miséria no Brasil, e passaram a idealizar um país de cordialidade e doçura que só existe, claro, em suas lembranças distorcidas. Já encontrei brasileiros que se esqueceram de tudo o que existe de positivo no Brasil e passaram a referir-se ao país com uma lamentável mistura de desprezo e ressentimento. Já encontrei brasileiros com crise de depressão “por causa da” falta de Bom Bril, coxinha de galinha ou Fanta Uva (as aspas se devem ao fato de que tais faltas não eram, claro, as causas reais da depressão). No outro extremo, já encontrei brasileiros que acreditavam piamente que jantar às 5:30 da tarde era uma demonstração de superioridade civilizatória. Mas também já encontrei, no Brasil, muita gente que está convicta de que é impossível para qualquer um que resida fora do país entender a dinâmica da sociedade brasileira.
O que gerou em mim essa reflexão foi a crítica que meu amigo me fazia, que nos levou a um ponto em que nenhum dos dois transigia: eu criticava o Mais!, ele dizia, porque eu estava partindo de paradigmas do jornalismo estadunidense ou europeu. Comparado com o NYT ou o Le Monde, claro, o Mais! é um caderno cultural fraco. Não, eu insistia. Eu não o comparava com nada; meu único termo de comparação implícito era o jornalismo cultural brasileiro de épocas anteriores. Não, retrucava o amigo. Você está pensando no primeiro mundo. Você não tem idéia de como é pobre a discussão intelectual sobre literatura e cultura nos jornais brasileiros. Não, não, eu respondia desesperado. Eu leio quatro jornais brasileiros diariamente, como não vou ter idéia? Mesmo comparado com cadernos culturais como o Radar, do argentino Página 12, o Mais! é fraco, redudante, pouco criativo, demasiado dependente de traduções de textos já conhecidos pelos especialistas e de nenhum interesse para o público médio. A partir do momento em que usei a Argentina como termo de comparação, abri a guarda: ora, você não pode nos comparar com um país letrado como a Argentina. No final da conversa decidimos que discordávamos até mesmo acerca das razões que nos faziam discordar. E pronto. Pedimos outro chope.
Em todo caso, este é um post sem conclusão. As distorções que provocam o expatriamento são, muitas vezes, invisíveis para o sujeito que mora fora. Ninguém deixa de ter uma relação forte com o país porque escolheu morar em outras plagas – mesmo que mascare essa relação com o ressentido “detesto o Brasil”. Mas também, entre os que moram aqui e têm amigos fora, é bem comum que se cometam injustiças: que se veja, por exemplo, uma ilusão de ótica ali onde só há a expectativa de que ela exista. Nada garante que seu amigo que trocou Governador Valadares por New Jersey não esteja observando a realidade brasileira de forma distorcida. Mas nada garante, tampouco, que você não esteja distorcendo as distorções dele.
PS: Como sabem meus amigos, não gosto de quem corrige português dos outros e não faço isso. Mas, relacionado ao assunto deste post, confesso que há uma imprecisão lexical me incomoda: é quando vejo algum expatriado brasileiro referindo-se a si mesmo como “exilado”. Ora, não há exilados brasileiros desde 1979. Mora fora quem quer.
PS 2: Parabéns ao campeão!
PS 3: Abraços e bom domingo para todos aqui da incomparável, ensolarada Recife.
