Sobre Terras do sem fim
Terras do Sem Fim (1943) é algo diferente do realismo “social” de Jubiabá (1935), do realismo mais claramente socialista de Seara Vermelha (1946) ou da sensualidade ligeiramente folclorizada de Gabriela (1958). Se em Seara Vermelha os personagens parecem ser marionetes de forças mais poderosas que eles (as tais “leis da história”, entendidas segundo um marxismo já naquele momento stalinizado), acredito que em Terras do sem fim as escolhas dos personagens são mais genuinamente abertas. No final eles sucumbem à “lei do lugar”, que é afinal de contas a lei da selva que rege o processo de concentração de terras da indústria cacaueira. Mas essa lei é produto também de uma seqüência de ações humanas cujo sentido não estava dado de antemão. Por isso eu diria que Terras do sem fim é um romance mais polifônico e plural, menos naturalista que Seara Vermelha, por exemplo. Ou seja, na minha escala de valores, um melhor romance.
O texto começa com a cena do navio que transporta trabalhadores e coronéis à região cacaueira, e que oferece uma espécie de panorama do que virá: chefes locais na primeira classe, caixeiros-viajantes, jogadores e prostitutas na segunda, trabalhadores migrantes com sonhos de enriquecimento na terceira. Mesmo o leitor mais distraído já sabe que ali tais sonhos serão derrotados, mas o uso do discurso indireto livre (colocando o leitor “na cabeça” dos personagens) vai construindo empatia com as quimeras de, por exemplo, Antonio Vítor, que se despede da amada com a promessa Enrico num ano, venho lhe buscar. Ao mesmo tempo, o romance vai tecendo um retrato do mandonismo e coronelismo na zona cacaueira, mas os coronéis do livro estão longe, muito longe de serem meros monstros.
Pelos perfis já antecipados no navio, o leitor vai conhecendo os dois coronéis mito que lutam por hegemonia sobre o território: Horácio e Sinhô Badaró (este último acompanhado do irmão mais novo, o não menos temido Juca Badaró). São coronéis distintos de boa parte dos que encontramos na literatura sertaneja realista: há uma certa glorificação de suas figuras. Parecem-se, em certos momentos, com cavaleiros medievais. São bárbaros e violentos, mas também corajosos e heróicos; aliás, não deixam de ter seu próprio código de ética. Plurais, contraditórios, elês têm que encarar escolhas não muito comuns entre seus antecessores no romance brasileiro.
Avessa àquele mundo rude, Ester, a esposa de Horácio, é seduzida pela elegância cosmopolita do Dr. Virgílio, o advogado do coronel Horácio. Corneado pelo próprio advogado, Horácio só descobre o chifre depois da morte de Ester – acontecimento que, como apontou o Milton Ribeiro, convenientemente serve para resolver o dilema que o adultério apresentava (ela morre da febre que assolou o lugar, justo depois de cuidar fervorosamente do marido que havia caído doente com a mesma febre).
Mas a morte de Ester, eu acho, serve para mais que isso. Ester é nome de ressonância bíblica, claro. A sua trajetória no livro repete o padrão ordem – transgressão – punição, que rege o castigo às mulheres no romance de adultério tradicional. Ali, as saídas são três: morte, enlouquecimento ou convento. Talvez exista um mundo em que Ester e Virgílio possam se unir e viver o que seria o único amor real e recíproco do romance, mas eles são impotentes para escapar do “coração das trevas” e chegar a esse mundo: no momento em que Virgílio é destratado pelo coronel Badaró em público ante uma mulher, ele é obrigado a entrar na lógica selvagem do lugar sob o preço de perder a honra. Tem que mandar matar. Na terra do cacau, elegância tem limite.
Alguns dos trechos que mais gostei foram os momentos de falhas dos personagens: o coronel Badaró é ludibriado por um mentiroso contumaz e jogador ladrão João Magalhães; o experiente atirador negro Damião fraqueja e erra um tiro ao pôr-se a pensar na mulher e no filho de sua vítima; o incrivelmente covarde Dr. Jessé é recompensado com a prefeitura depois da mudança dos ventos políticos em nível estadual. Cada um desses personagens escapa daquilo que poderíamos chamar sua “vocação histórica”. Nesse momento, me parece, tornam-se personagens menos redutores, mais plurais, mais interessantes.
Claramente o desejo de Jorge Amado era escrever um panorama da vida no coronelismo cacaueiro. Depois, em São Jorge dos Ilhéus (1944), ele acrescentaria a descrição de um momento posterior, aquele em que tanto os Badarós como os Horácios cairiam ante a chegada do capital estrangeiro. Nestes dois romances, a concepção de história é claramente etapista. Mas o mais interessante do texto passa por fora desse esquema histórico e tem lugar no desencaixe entre os personagens e sua função histórica. Mais uma vez a riqueza da ficção não reside necessariamente onde o seu autor esperava.
PS: Mesmo sem citá-lo diretamente, fiz uso do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: Romance em Tempo de Utopia (Record, 1996).
