À minoria

imagem roubada dela
Foram 58,3 milhões de votos, 5 milhões a mais que em 2002. Nos votos válidos, uma acachapante vitória de Lula por 61 x 39. Pela primeira vez na história das eleições presidenciais, um candidato regrediu do primeiro para o segundo turno. Além de não ganhar nenhum eleitor, Alckmin perdeu quase 2,5 milhões que haviam votado nele no primeiro turno e desistiram de repetir o voto no segundo. Os votos de Heloísa Helena e Cristovam Buarque migraram massivamente para Lula. O New York Times falou em “landslide”, o Página 12 comemorou e Reinaldo Azevedo reconheceu que foi uma derrota humilhante.
Durante certo tempo, parcela do eleitorado tucano falou de Lula como o candidato “dos grotões”. Chegou a brincar-se com fantasias secessionistas para o Sul e o Sudeste do país. A brincadeira não durou muito: Minas Gerais deu a Lula 65% dos votos e o Rio de Janeiro nada menos que 70%. Em São Paulo, onde Alckmin esperava ganhar de muito, levou por pouco, 52 x 48 (um resultado que esteve além do esperado para Lula e que, por sinal, fortaleceu Marta Suplicy para o jogo político no futuro próximo).
No Nordeste, a surra foi de 77 x 23. No Amazonas, estado daquele senador tucano que gosta de ameaçar o Presidente da República com agressões físicas, a balaiada foi de 86 x 14. Lula venceu em vinte estados. O único que deu ao candidato “moderno” uma maioria significativa foi Roraima. Em 2002 Lula tinha o apoio de 4 governadores quando se elegeu. Hoje conta com 16. A base do governo em 2002 girava em torno de 200 deputados. Hoje ela engordou para 300. Ainda não é o suficiente para aprovar emendas constitucionais – para as quais são necessários 308 deputados, ou 3/5 da Câmara – mas é uma situação bem melhor que a de 2002.
O PT, que havia elegido três governadores em 2002, desta vez elegeu 5 (Sergipe, Bahia, Pará, Piauí e Acre). Esteve longe, muito longe de levar a surra que se chegou a prever: entrou nas eleições com 81 deputados federais e elegeu 83. Não é, de forma nenhuma, indicação de que o eleitorado tenha esquecido as lambanças feitas pelo partido ou esteja assinando um cheque em branco. A vitória é acima de tudo do lulismo; o PT deve explicações à sociedade e uma reformulação à sua militância. Mas dançou quem apostou no estilo Jorge “essa raça” Bornhausen de fazer política. Quem apostou no ódio como plataforma dançou. E vai continuar perdendo o bonde da história quem se agarrar a explicações paupérrimas como “o país está bêbado” ou “venderam-se por um prato de comida”. É incrível que uma parcela significativa dos que esbravejam contra Lula, “o analfabeto”, não consiga ler a realidade com fórmulas um pouquinho mais sofisticadas que essas.
Lula, que não é bobo, sabe que não é hora de tripudiar. Mas é a oposição, principalmente o PSDB, quem tem que decidir qual é a cara que terá. A campanha que terminou ontem teve mais pinta de Arthur Virgílio e Reinaldo Azevedo que de Gustavo Fruet e Aécio Neves. E o PSDB pagou caro pela escolha. Não acho Fruet e Aécio dois modelos de políticos, mas por ali o PSDB pode conseguir revitalizar-se. Apostar no xingatório e no lacerdismo só fará deles uma presa do moribundo PFL (que elegeu, viva, um mísero governador, só no DF!) e os condenará a serem o eterno anti-PT.
Que todas ações do governo federal sejam sempre fiscalizadas e que os responsáveis por quaisquer irregularidades sejam punidos. Mas ficar apostando fichas nas denúncias de uma combalida revista semanal para virar eleição não é papel que se espere de um partido político sério. Apresentar-se como “os únicos éticos” contra “os corruptos” é uma zombaria da inteligência do eleitor. O PSDB pode e deve ter mais a dizer do que disse nesta campanha.
Um primeiro passo é abandonar as esdrúxulas explicações que os peessedebistas de Higienópolis, por exemplo, deram à Folha ontem (para assinantes): O eleitor do Lula é o povo do interior ou do Nordeste, que não tem acesso à informação, disse uma delas. Trata-se de frase ironicamente infeliz, ou infelizmente irônica, já que mostra que é ela quem ainda não teve acesso a um simples mapa eleitoral do Brasil. Uma executiva chegou a dizer que Alckmin perdeu porque seu programa tinha nível alto demais: É triste, mas só ganha quem reduz a qualidade do discurso para atingir o maior número de eleitores possível, frase que é uma monstruosidade de cegueira, como se o programa do candidato tucano tivesse sido uma riqueza de propostas que o pobre eleitor analfabeto não conseguiu descifrar.
O PSDB pode escolher insultar os eleitores brasileiros com ofensas ou insinuações, ou pode elaborar um programa político para reconquistar a hegemonia política. Pode escolher ecoar as asneiras das entrevistadas de Higienópolis ou pode construir uma cara mais conforme com a herança de Montoro e Covas. Se optar pela última alternativa, mais sensata, tem todas as condições de brigar pela presidência em 2010.
PS: Há exatamente dois anos, em 29 de outubro de 2004, nascia este blog, filho de um erro.
