Debate da Globo

 

lula-alckmin.jpg As últimas pesquisas fizeram desmoronar a tese de que Lula só se elegerá graças aos pobres e ao Nordeste. Elas confirmam, por exemplo, o empate técnico entre eleitores com nível superior e a considerável subida de Lula no Sul e no Sudeste. Revelou-se péssima sociologia a tese do “Brasil arcaico versus o Brasil moderno”, com que Fernando Henrique Cardoso entreteve jornalistas argentinos e tentou explicar a divisão do eleitorado. Nessas explicações ele nunca foi bom, mas as últimas têm sido particularmente sofríveis.

Se alguma influência o debate puder exercer nas eleições de domingo, ela terá sido de poucos pontos. Será interessante ver se se realiza a previsão dos que viram uma “vitória” de Alckmin, que talvez leve […] uns pontos a mais, evitando que Lula fique na casa dos 60% dos válidos. Eu acho exatamente o oposto: que o debate ampliou a vantagem de Lula. 62% é a porcentagem de votos que Lula teve no segundo turno contra Serra em 2002. Chegar a esse número depois dos tropeços e dos ataques cerrados sofridos na segunda metade do mandato seria simbólico de uma grande vitória.

Para os indignados da Zona Sul que ainda não conseguiram entender por que o povo escolheu Lula, o debate foi um resuminho de tudo. Nada do que Alckmin disse “estar mal” no Brasil estava melhor sob FHC. Nada: nem juros, nem emprego, nem educação, nem saúde, nem microcrédito, nem acesso do povo pobre à cidadania. Como diz o Alon, o que derrotou Alckmin não foi o marqueteiro ruim e sim uma discussão política, na qual o terreno de jogo, os termos nos quais dava a peleja, foram definidos pela coligação Lula, que partiu para o ataque já no dia 02 de outubro. A dificuldade com que Alckmin respondeu aos ataques feitos ao passado privatista do PSDB foram a expressão da sua sina neste segundo turno, a de debater nos termos ditados por Lula.

Na última volta do parafuso da privatização, não deixou de ser cômico assistir ao candidato tucano acusar Lula de estar “privatizando” a Amazônia. Não se trata de discutir aqui a lei nº 4.776, de 2005, claro. Simplesmente aponto o óbvio: um Alckmin que esteja acusando Lula de “privatizar” já está debatendo em termos determinados pelo adversário. Por ali não vence nunca.

Como notou a Mary W, Alckmin transmite a péssima impressão de que está sendo condescendente quando tenta explicar algo em termos populares. Em algum momento do debate cheguei a achar que o olho-no-olho que Lula lhe dirigia podia ter passado da medida e que o candidato do PT poderia perder pontos por excesso de agressividade com um adversário já derrotado. Mas a força com que Lula investiu sobre Alckmin e a insistência em fazer gestos de conciliação a Aécio Neves e José Serra já podem ser parte do mapa pós-eleitoral. Para o PSDB, continua o desafio de conseguir ser algo que não um mero anti-PT. Seria muito bom para o Brasil.

Boa eleição para todos.