Perguntinha
Qual o seu post favorito neste blog?

Segunda-feira vai rolar aqui uma conversa sobre Terras do Sem Fim, de Jorge Amado. Eu comecei a ler e já me envolvi. É curioso como isso acontece rapidamente com Jorge Amado.
No último post, Monix, Milton, Edk, Fefê, Vera, Carmen, Valéria, Isabela, Alessandra e mary w toparam a parada. Estão dentro mesmo, né? Alguém mais?
Sobre o Clube de Leituras do blog, um leitor uma vez disse que ficava sem jeito de escrever sobre literatura no blog de um professor de literatura. Fique não, viu? A idéia é brincar e trocar leituras, e não demonstrar erudição. Inclusive porque sobre Jorge Amado eu não sei porra nenhuma mesmo. De forma que estamos todos no mesmo barco.
Agora com licença que eu vou ali tomar umas biritas para festejar o niver (o meu, não o do blog – eu nasci no dia em que nasceram Carlos Drummond de Andrade e John Keats, é mole?). Amanhã volto com um post decente sobre qualquer coisa, menos política.
Inté.

imagem roubada dela
Foram 58,3 milhões de votos, 5 milhões a mais que em 2002. Nos votos válidos, uma acachapante vitória de Lula por 61 x 39. Pela primeira vez na história das eleições presidenciais, um candidato regrediu do primeiro para o segundo turno. Além de não ganhar nenhum eleitor, Alckmin perdeu quase 2,5 milhões que haviam votado nele no primeiro turno e desistiram de repetir o voto no segundo. Os votos de Heloísa Helena e Cristovam Buarque migraram massivamente para Lula. O New York Times falou em “landslide”, o Página 12 comemorou e Reinaldo Azevedo reconheceu que foi uma derrota humilhante.
Durante certo tempo, parcela do eleitorado tucano falou de Lula como o candidato “dos grotões”. Chegou a brincar-se com fantasias secessionistas para o Sul e o Sudeste do país. A brincadeira não durou muito: Minas Gerais deu a Lula 65% dos votos e o Rio de Janeiro nada menos que 70%. Em São Paulo, onde Alckmin esperava ganhar de muito, levou por pouco, 52 x 48 (um resultado que esteve além do esperado para Lula e que, por sinal, fortaleceu Marta Suplicy para o jogo político no futuro próximo).
No Nordeste, a surra foi de 77 x 23. No Amazonas, estado daquele senador tucano que gosta de ameaçar o Presidente da República com agressões físicas, a balaiada foi de 86 x 14. Lula venceu em vinte estados. O único que deu ao candidato “moderno” uma maioria significativa foi Roraima. Em 2002 Lula tinha o apoio de 4 governadores quando se elegeu. Hoje conta com 16. A base do governo em 2002 girava em torno de 200 deputados. Hoje ela engordou para 300. Ainda não é o suficiente para aprovar emendas constitucionais – para as quais são necessários 308 deputados, ou 3/5 da Câmara – mas é uma situação bem melhor que a de 2002.
O PT, que havia elegido três governadores em 2002, desta vez elegeu 5 (Sergipe, Bahia, Pará, Piauí e Acre). Esteve longe, muito longe de levar a surra que se chegou a prever: entrou nas eleições com 81 deputados federais e elegeu 83. Não é, de forma nenhuma, indicação de que o eleitorado tenha esquecido as lambanças feitas pelo partido ou esteja assinando um cheque em branco. A vitória é acima de tudo do lulismo; o PT deve explicações à sociedade e uma reformulação à sua militância. Mas dançou quem apostou no estilo Jorge “essa raça” Bornhausen de fazer política. Quem apostou no ódio como plataforma dançou. E vai continuar perdendo o bonde da história quem se agarrar a explicações paupérrimas como “o país está bêbado” ou “venderam-se por um prato de comida”. É incrível que uma parcela significativa dos que esbravejam contra Lula, “o analfabeto”, não consiga ler a realidade com fórmulas um pouquinho mais sofisticadas que essas.
Lula, que não é bobo, sabe que não é hora de tripudiar. Mas é a oposição, principalmente o PSDB, quem tem que decidir qual é a cara que terá. A campanha que terminou ontem teve mais pinta de Arthur Virgílio e Reinaldo Azevedo que de Gustavo Fruet e Aécio Neves. E o PSDB pagou caro pela escolha. Não acho Fruet e Aécio dois modelos de políticos, mas por ali o PSDB pode conseguir revitalizar-se. Apostar no xingatório e no lacerdismo só fará deles uma presa do moribundo PFL (que elegeu, viva, um mísero governador, só no DF!) e os condenará a serem o eterno anti-PT.
Que todas ações do governo federal sejam sempre fiscalizadas e que os responsáveis por quaisquer irregularidades sejam punidos. Mas ficar apostando fichas nas denúncias de uma combalida revista semanal para virar eleição não é papel que se espere de um partido político sério. Apresentar-se como “os únicos éticos” contra “os corruptos” é uma zombaria da inteligência do eleitor. O PSDB pode e deve ter mais a dizer do que disse nesta campanha.
Um primeiro passo é abandonar as esdrúxulas explicações que os peessedebistas de Higienópolis, por exemplo, deram à Folha ontem (para assinantes): O eleitor do Lula é o povo do interior ou do Nordeste, que não tem acesso à informação, disse uma delas. Trata-se de frase ironicamente infeliz, ou infelizmente irônica, já que mostra que é ela quem ainda não teve acesso a um simples mapa eleitoral do Brasil. Uma executiva chegou a dizer que Alckmin perdeu porque seu programa tinha nível alto demais: É triste, mas só ganha quem reduz a qualidade do discurso para atingir o maior número de eleitores possível, frase que é uma monstruosidade de cegueira, como se o programa do candidato tucano tivesse sido uma riqueza de propostas que o pobre eleitor analfabeto não conseguiu descifrar.
O PSDB pode escolher insultar os eleitores brasileiros com ofensas ou insinuações, ou pode elaborar um programa político para reconquistar a hegemonia política. Pode escolher ecoar as asneiras das entrevistadas de Higienópolis ou pode construir uma cara mais conforme com a herança de Montoro e Covas. Se optar pela última alternativa, mais sensata, tem todas as condições de brigar pela presidência em 2010.
PS: Há exatamente dois anos, em 29 de outubro de 2004, nascia este blog, filho de um erro.
Em ponderada crônica escrita hoje para o Globo, Teresa Cruvinel fez uma avaliação das razões da vitória de Lula e da implosão da candidatura de Alckmin no segundo turno. É uma apreciação crítica de ambos os lados: petistas e tucanos deveriam lê-la.
Mas num dado momento a colunista diz: Muito se escreveu, com frustração ou preconceito, sobre uma suposta leniência brasileira com a corrupção. Houve até uma pesquisa sustentando que os mais pobres, os mais negros e os menos escolarizados têm menor exigência ética que os mais ricos, brancos e cultos.
Na verdade, a segunda frase é falsa. Não houve nenhuma pesquisa “sustentando” isso. Houve uma pesquisa que não encontrou, entre esses grupos, nenhuma diferença de atitude que excedesse a margem de erro. Mesmo assim, o jornal Estado de São Paulo permitiu-se a manchete: Rigor com a corrupção na política varia com região e condição social.
Não houve, como supôs Cruvinel, uma pesquisa “sustentando” o que afirma a manchete do Estadão. Houve uma manchete que não condizia com a informação dada na matéria. Só isso. Quando aconteceu, nós apontamos.
As últimas pesquisas fizeram desmoronar a tese de que Lula só se elegerá graças aos pobres e ao Nordeste. Elas confirmam, por exemplo, o empate técnico entre eleitores com nível superior e a considerável subida de Lula no Sul e no Sudeste. Revelou-se péssima sociologia a tese do “Brasil arcaico versus o Brasil moderno”, com que Fernando Henrique Cardoso entreteve jornalistas argentinos e tentou explicar a divisão do eleitorado. Nessas explicações ele nunca foi bom, mas as últimas têm sido particularmente sofríveis.
Se alguma influência o debate puder exercer nas eleições de domingo, ela terá sido de poucos pontos. Será interessante ver se se realiza a previsão dos que viram uma “vitória” de Alckmin, que talvez leve […] uns pontos a mais, evitando que Lula fique na casa dos 60% dos válidos. Eu acho exatamente o oposto: que o debate ampliou a vantagem de Lula. 62% é a porcentagem de votos que Lula teve no segundo turno contra Serra em 2002. Chegar a esse número depois dos tropeços e dos ataques cerrados sofridos na segunda metade do mandato seria simbólico de uma grande vitória.
Para os indignados da Zona Sul que ainda não conseguiram entender por que o povo escolheu Lula, o debate foi um resuminho de tudo. Nada do que Alckmin disse “estar mal” no Brasil estava melhor sob FHC. Nada: nem juros, nem emprego, nem educação, nem saúde, nem microcrédito, nem acesso do povo pobre à cidadania. Como diz o Alon, o que derrotou Alckmin não foi o marqueteiro ruim e sim uma discussão política, na qual o terreno de jogo, os termos nos quais dava a peleja, foram definidos pela coligação Lula, que partiu para o ataque já no dia 02 de outubro. A dificuldade com que Alckmin respondeu aos ataques feitos ao passado privatista do PSDB foram a expressão da sua sina neste segundo turno, a de debater nos termos ditados por Lula.
Na última volta do parafuso da privatização, não deixou de ser cômico assistir ao candidato tucano acusar Lula de estar “privatizando” a Amazônia. Não se trata de discutir aqui a lei nº 4.776, de 2005, claro. Simplesmente aponto o óbvio: um Alckmin que esteja acusando Lula de “privatizar” já está debatendo em termos determinados pelo adversário. Por ali não vence nunca.
Como notou a Mary W, Alckmin transmite a péssima impressão de que está sendo condescendente quando tenta explicar algo em termos populares. Em algum momento do debate cheguei a achar que o olho-no-olho que Lula lhe dirigia podia ter passado da medida e que o candidato do PT poderia perder pontos por excesso de agressividade com um adversário já derrotado. Mas a força com que Lula investiu sobre Alckmin e a insistência em fazer gestos de conciliação a Aécio Neves e José Serra já podem ser parte do mapa pós-eleitoral. Para o PSDB, continua o desafio de conseguir ser algo que não um mero anti-PT. Seria muito bom para o Brasil.
Boa eleição para todos.

Descubra, se puder, os autores de cada uma das seguintes frases sobre o café:
1. O café faz árabes fogosos; o chá, chineses cerimoniosos.
2. Ao tomar café, as idéias movimentam-se como os pelotões do grande exército no campo de batalha.
3. O café deve ser preto como o diabo, quente como o inferno, puro como um anjo, doce como o amor.
4. Leva sempre a ração de café, mesmo com prejuízo do pão.
5. A história do Brasil foi escrita com tinta de café.
6. O café é a bebida dos homens que nunca se embriagam.
7. Desses grãos escuros tiraram os enciclopedistas a força, o ardor, a petulância e as idéias.
Dicas: são três franceses, um português, um brasileiro, um estadunidense e um inglês.
PS: Vou assistir o debate da Globo esta noite. Sábado de manhã tem post.

No dia 14 passado, o meio-campista Vander e a equipe do Santo André descobriram a diferença entre um time grande e um time pequeno. Em sétimo lugar na tabela, o Santo André precisava da vitória em casa contra o líder Galo para seguir sonhando com a série A. Cometeram o erro fatal: eles, cujo o primeiro uniforme é branco, resolveram usar camisas azuis para “amedrontar” o primeiro campeão brasileiro. Erro número 1: um time grande jamais muda o uniforme em função do adversário, e os pequenos que o fazem geralmente pagam o preço. Erro número 2: ninguém no Santo André sabia, pelo jeito, que o Galo pode até ser eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará, mas tem larguíssima vantagem sobre o Cruzeiro em confrontos diretos – a maior de todos os grandes clássicos brasileiros, aliás. Se há algo que não “amedronta” o Galo, é uma camisa azul.
Aos 2 minutos de jogo do segundo tempo, o meio-campista Vander cometeu o terceiro erro fatal: ao marcar o gol de empate, mandou a multidão alvi-negra (que era maioria no próprio estádio do Santo André) “calar a boca”. Ora, há que ser muito suicida para mandar calar, na hora de um empate, uma torcida visitante que está em maioria. Se for a torcida do Galo, é um tiro no peito. O Santo André até cresceu no jogo, mas a torcida mais apaixonada do mundo encheu-se de brios e gritou até o fim. Aos 43m, contra-ataque do Galo, gol de placa de Tchô, Galo 2 x 1, Santo André mais um aninho na Segunda Divisão. Vander, na próxima, pensará duas vezes antes de pôr o indicador entre os lábios na frente da mais apaixonada do mundo.
No sábado passado, a torcida do Galo bateu de novo o recorde de público do futebol brasileiro em 2006, com quase 60 mil pessoas no Mineirão. A goleada sobre o Avaí praticamente carimbou o passaporte de volta para a Primeira Divisão. Os poucos pontinhos que faltam devem ser conquistados nas próximas rodadas. Em meio à euforia, até mesmo o Sr. Mílton Neves fez questão de aparecer no Mineirão, fazer média com a torcida e bajular os cartolas, numa tremenda confusão entre jornalismo e politicagem.
É hora de reiterar o óbvio: os méritos da iminente subida à Primeira Divisão são, em primeiro lugar, da mais apaixonada do mundo, que arranjou forças para incentivar um time que não havia vencido ninguém fora de casa no primeiro turno. O que aconteceu no jogo contra o Avaí neste sábado foi indescritível. Depois da goleada, um desolado catarinense testemunhava: “contra essa torcida, não dá”. Inconscientemente, ele citava Telê Santana, autor da frase “quem tem uma torcida como essa é quase impossível de ser derrotado em casa”. Em segundo lugar, os méritos são dos garotos que vieram das categorias de base e puseram os corações nas chuteiras; depois, de Levir Culpi, que soube colocá-los para jogar. A diretoria do mais querido de Minas continua criminosamente omissa, burra e sem planejamento, para não dizer mui, mui suspeita. Aliás, com raríssimas exceções – São Paulo, Internacional, Botafogo – os clubes brasileiros continuam em mãos das mesmíssimas corjas. Comandada pelo Sr. Ricardo “BMG” Guimarães, a atual diretoria do Galo é responsável pela pior crise técnica e financeira da história do clube e não merece nenhum laurel por este belo movimento que está unindo atleticanos em todo o Brasil. Vamos subir, Galô! – mas sem nos deixarmos cegar, ok?
Enquanto isso, na série A, tudo na mesma chatice. E na Série C, olha o Ipatinga aí, gente.
Leia e veja mais: Vamos Subir, Galô!
Do Balípodo: Torcer, torcer, torcer, esse é o nosso ideal.
No Youtube: A massa alvi-negra faz a festa no Mineirão.
Youtube: Galo 2 x 0 Sport, melhores momentos no campo e nas arquibancadas.
Movimento 105 minutos (dica da Ana)
PS: O Prêmio The BOBs já escolheu os dez blogs finalistas em língua portuguesa. O Biscoito convida seus leitores para comparecerem e votarem no Pensar Enlouquece.
Atualização: … e convida também a votar no blog da Alcinéa Cavalcante, que concorre ao prêmio Repórteres sem fronteiras.
Depois de umas semanas só trabalhando “para os outros” (dando aulas, corrigindo trabalhos, revisando teses, escrevendo cartas de recomendação, etc.), arrumei finalmente um tempinho para trabalhar numa coisa minha, que é um projeto de artigo sobre a relação entre algumas formas de música popular no Brasil e novas práticas cidadãs. O que me interessa não é analisar canções que “falem do tema da cidadania”, mas mostrar como certas práticas musicais a transformaram, em diferentes pontos do país (meus guias são Chico Science e o Mangue Beat).
Há trabalhos recentes que fazem isso. Há um estudo interessante, por exemplo, de Goli Guerreiro, que mostra a trajetória do projeto musical de Carlinhos Brown no Candeal, em Salvador, e detalha o impacto gigantesco que ele teve na auto-estima da comunidade.
A formulação mais influente do conceito de cidadania nas ciências sociais, durante algumas décadas, veio da obra de T.H. Marshall, Citizenship and Social Class (1950). Ela associa a cidadania à condição de “ser membro pleno” de uma comunidade, independendemente das desigualdades econômicas existentes. A noção de universalização do direito como característica do cidadão é mais antiga, claro. É grega, e vem acompanhada sempre da salutar ressalva que o princípio da universalidade ali não incluía mulheres nem escravos.
Marshall separa a cidadania em três tipos – civil, econômica e política – e entende que há considerável independência entre eles, chegando ao ponto mesmo de designar um período formativo para cada tipo: fim do século XVIII para o civil, século XIX para o econômico, século XX para o político (períodos que devem ser entendidos de forma flexível e elástica, claro).
O que vários estudos contemporâneos têm feito é sublinhar que há uma esfera não necessariamente dos direitos civis, econômicos ou políticos através da qual a cidadania também é articulada. Chamemos-na de cidadania cultural. São todas as iniciativas que passam pela cultura (música, internet, teatro, o que seja), mas que têm impacto real na condição de cidadãos dos sujeitos envolvidos nela; são, numa palavra, práticas que redefinem a cidadania a partir da cultura. Há uma corrente que é bem entusiasmada com essa noção de cidadania cultural. Há outra mais cética, que diz que esse papo de cidadania cultural tira a atenção do mais importante, que é o direito ao feijão no prato, ao décimo-terceiro salário e ao voto na urna.
Já reuni uma baita bibliografia para esse artigo e sei que no Overmundo há um zilhão de casos, mas adoraria escutar quaisquer pitacos sobre histórias que você conheça, sobre iniciativas culturais que têm potencial cidadão, sobre como a música realiza mediações entre você e a polis. Diga lá uma coisa bem inteligente para que seu blogueiro possa cumprir suas obrigações acadêmicas e voltar para escrever novos posts.
Nesta quinta-feira, ao tentar responder à reportagem de Raimundo Pereira na Carta Capital, o editor-executivo da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel – sim, aquele que escreve livro para negar a existência do racismo no Brasil – levou uma das maiores lavadas que já vi alguém levar na história da internet brasileira. O episódio já é, em si, um marco desta campanha eleitoral e mostra a força democratizadora do “jornalismo cidadão” feito na internet por gente como Mino Carta, Luis Nassif, Paulo Henrique Amorim e Luis Weis.
A reportagem da Carta Capital demonstrou como o jornalismo da Globo foi cúmplice do delegado Bruno – que fotografou, na véspera da eleição, o dinheiro apreendido com petistas quase duas semanas antes, para depois pedir divulgação no Jornal Nacional e exigir mentira dos veículos para explicar aos seus superiores o vazamento (além de cometer várias outras ilicitudes, como implicitamente confessar que o fazia por motivos políticos). As fotos do dinheiro que talvez pudesse ter origem ilícita e poderia ter sido usado para comprar um dossiê contra José Serra que talvez não contivesse nada de grave contra o tucano (contaram os condicionais?) receberam, nos dois Jornais Nacionais imediatamente anteriores à eleição, cobertura ampla, histérica e raivosa que excedeu inclusive o tempo dedicado a um dos piores acidentes aéreos da história do Brasil, em que mais de uma centena de famílias haviam sofrido perdas. Isso no sábado, porque na sexta-feira o JN curiosamente ainda não sabia que o avião da Gol havia caído. O Sr. Ali Kamel sofisma, faz traça da inteligência de seu leitor e não oferece explicação satisfatória para o fato de que a CNN e o New York Times noticiaram a queda do avião da Gol horas antes da TV Globo. Essas horas são cruciais, claro, porque entre aquelas foi exibido o Jornal Nacional com a farra das fotos. Na reportagem em que detalhou como a Globo omitiu informações cruciais na divulgação do dossiê, Raimundo Pereira incluiu as dez perguntas que havia encaminhado ao responsável pela Central Globo de Jornalismo. O Sr. Ali Kamel não respondeu nenhuma das dez perguntas feitas pelo jornalista Raimundo Pereira quando da confecção da reportagem.
Seis dias depois da ampla circulação da reportagem da Carta Capital e de sua repercussão na internet, o Sr. Ali Kamel veio ao Observatório da Imprensa tentar se explicar. A reportagem da Carta Capital havia perguntado porque o JN não destacara um repórter para a investigação das relações entre Barjas Negri e Abel Pereira em Piracicaba. Perguntava porque a Globo omitiu o conteúdo da conversa que atestava participação na ilegalidade cometida pelo delegado Bruno. Perguntava porque a Globo adotou critérios diferentes para divulgar as fotos (obtidas ilegalmente) na véspera da eleição e não divulgar o dossiê de Cuiabá sob a alegação de que o material estava sob suspeita. Perguntava várias outras coisas. Quantas dessas perguntas o Sr. Ali Kamel responde no seu longo arrazoado de enrolações produzido seis dias depois da publicação da CC? Nenhuma. 
Para tentar defender a si e ao Jornalismo da Globo, Ali Kamel escreveu um texto que se enrola em contradições, longas citações fora de assunto, omissões de explicação para fatos já sabidos, meias-verdades, clichês desprovidos de credibilidade e todo um sem-fim de fraquíssimos truques retóricos para evitar responder claramente o perguntado. Como exercício de argumentação num hipotético curso de graduação em retórica, o texto de Kamel mereceria nota não maior que D até mesmo na Faculdade de Conceição do Mato Dentro.
O artigo de Kamel tenta fazer-nos crer que o acidente da Gol já não era fato sabido às 20:30 de sexta-feira, e sua mentira é desmascarada por vários leitores que testemunham terem lido sobre o acidente antes do JN (em vários outros veículos, como a CNN e o Terra) e terem ligado a televisão na Globo com a esperança – a certeza – de que o JN o noticiaria. Leva o primeiro tombo ali. Também tenta desqualificar as 10 perguntas apresentadas por Raimundo Pereira usando um velho truque retórico: simplesmente ignora 8 delas e toma 2, jogando uma contra a outra como se elas fossem contraditórias entre si. Não são. Elas perguntam coisas diferentes sobre a não-cobertura das atividades de Abel Pereira. É pego na mentira uma segunda vez. Escreve como se a frase Tem de sair hoje à noite na TV. Tem de sair no Jornal Nacional, dita pelo delegado Bruno, tivesse sido editada pela Carta Capital. Não foi. Pego na mentira a terceira vez. No final coloca um PS dizendo que Cópias da fita com a conversa gravada entre o delegado e os repórteres, divulgadas por alguns sites, estranhamente têm uma qualidade sofrível. Duas horas depois ele é pego na mentira pelo próprio site da Globo que, diante da pressão criada na internet, coloca no ar a gravação da conversa – pelo menos quatro dias depois da sua divulgação em outros blogs, como o de Paulo Henrique Amorim – ironicamente desautorizando seu chefe de jornalismo com o título Leia e ouça, com nitidez e na íntegra, conversa do delegado do caso dossiê com repórteres. Kamel também é contradito outras vezes, como quando afirma que esses diálogos mostram claramente que CartaCapital se baseou numa edição parcial das frases do delegado. Os leitores do Observatório demonstram repetidas vezes, de diferentes formas, como é Kamel que está omitindo o fundamental: a motivação política, vingativa e a atitude ilegal do delegado Bruno com a cumplicidade da direção de jornalismo da Globo, que recebeu a fita não depois do dia 29 de setembro e agiu como se não a tivesse recebido.
Enquanto que as inverdades são muitas, as meias-verdades não são menos numerosas: Kamel repete duas vezes no seu texto que o delegado Bruno, ao vazar as fotos, conversara com quatro repórteres, “nenhum deles da TV Globo”, sem dizer que uma delas era do jornal O Globo, sem dizer que além disso um repórter do JN é explicitamente mencionado na conversa,sem dizer que o material é prometido a ele e sem dizer que o jornalismo da TV Globo sim recebe a gravação não depois de 29 de setembro e decide acobertar a mentira que ali está. Esqueceu de dizer isso tudo? Ora, ora, quem está trabalhando com uma edição parcial das frases do delegado?
Depois de umas poucas horas no site do Observatório, o texto de Kamel já havia sido esmigalhado, minuciosamente desmontado, desconstruído, depenado por 90% – sim, pelo menos 90% – dos 286 leitores que lá haviam escrito até a madrugada de hoje. Os leitores não puderam senão recordar, claro, a sujíssima história da TV Globo em episódios como o quase-roubo da eleição estadual de 1982 das mãos de Brizola (em conluio com o Proconsult) e a edição do debate Collor / Lula em 1989. Este episódio das fotos ilegais para atingir Lula e a posterior – posterior em seis dias – “explicação” de Kamel demonstra que a TV Globo vai além de ter na chefia do maior telejornal do país alguém que pensa em seu tele-espectador como um “Homer Simpson”. Demonstra também que o chefe de jornalismo da Globo ainda não conseguiu diferenciar os leitores de um site como o Observatório da Imprensa dos seus Homers imaginários. Demonstra que o Sr. Ali Kamel ainda não aprendeu o básico do básico sobre o jornalismo político dos nossos tempos: que na era da internet, o buraco é mais embaixo. Tudo indica que pagará caro em perda de credibilidade por achar que o Observatório da Imprensa era o sofá de Homer Simpson.
Começa amanhã em São Paulo, na Livraria da Vila, uma Balada Literária que tem programação imperdível até o dia 31. Armação do super-ativo Marcelino Freire.
No Rio de Janeiro, a grande dica é a mostra O Negro no Cinema Brasileiro, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Se você nunca viu Barravento (1962), de Gláuber Rocha, na telona, amanhã é a chance. A mostra inclui debates com cineastas e críticos. Infelizmente para nós, o melhor que já se escreveu sobre o negro no cinema brasileiro está em inglês: Tropical Multiculturalism, do meu amigo Robert Stam.
Conheça melhor a trajetória de Raimundo Pereira, ícone do jornalismo brasileiro e responsável pela reportagem da Carta Capital que detalha como os grandes veículos de comunicação do país não só omitiram a fonte, o que é procedimento corrente no jornalismo, mas mentiram com a fonte no caso do vazamento das fotos que inundaram a mídia na véspera da eleição. Ouça a gravação ou leia a transcrição da conversa do delegado Bruno com repórteres aqui. Das organizações Globo, até agora, alguma palavra?

Saiu o novo Datafolha e Lula abriu vinte pontos sobre Alckmin. Depois de 2 anos sob fogo cerrado na mídia, Lula se aproxima da votação consagradora que teve contra Serra há quatro anos. É o povo se vendendo por um prato de comida, como querem alguns colunistas? Não é bem isso, explica o Alon num de seus melhores posts.
Enquanto isso, a o ódio de classe na Zona Sul mostra suas garras.
No mesmo dia em que reconhece a derrota iminente de seu candidato, Reinaldo Azevedo afirma : Lula termina o segundo mandato? É razoável apostar que não. Tenho as licenças de Vossas Senhorias para chamar isso de golpismo?
Um espectro paira sobre o Observatório da Imprensa: o que aconteceu com o Alberto Dines? Num texto irreconhecível, ele supõe que há “indícios claros” de que a Veja está dizendo a verdade e a Polícia Federal está mentindo. Quais os argumentos apresentados? Nenhum. Leiam o texto de Dines, mas leiam também, com cuidado, a excelente caixa de comentários. Dines é minuciosamente desconstruído por mais de 100 leitores, incrédulos com a mainardização do antigo crítico arguto da mídia. Vale a pena presenciar. Sobre o mesmo episódio, e contrastando com a crença de Dines nas ilações da Veja (sim, ilações, pois não há testemunhas nomeadas, provas, literalmente nada), vejam os textos de Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif e Luis Weis.
A grande notícia: depois de ajudar a eleger o novo governador de Sergipe, o Paraíba voltou com tudo.
PS 1, aos amigos: já tenho data de chegada ao Brasil de novo: 10 de dezembro. Pelo jeito, com as coisas nos devidos lugares, Lula reeleito e Galo na Primeira Divisão. Só falta o time chapa-branca cair, aí fica bonito mesmo.
PS2: Houve um debate na TV Cultura entre Mino Carta e Clóvis Rossi. Eu seria capaz de vestir uma camisa do ex-Ipiranga para ter acesso a esse debate. Alguém aí gravou ou sabe se será reprisado?
PS3: A partir de hoje a tolerância com certos termos na caixa de comentários será um pouco mais baixa do que tem sido. Descer o sarrafo nas idéias que eu defendo pode. Insultar e xingar não pode. Confio no bom senso de todos para discernir o limite entre as duas coisas e manter o blog como espaço aberto de debate sem moderação de comentários.
Atualização: Ao falar de CPI da mídia nesse post, eu não me referia à discussão de conteúdo ou “censura” do que entra no jornal ou na novela. Mas acho que a população tem o direito de saber quanto a Globo recebeu da ditadura militar, por exemplo; quanto ela deve ao BNDES; quais foram as barganhas feitas. Mesma coisa no caso do grupo Civita. Não tem nada a ver com censura, e tudo a ver com saber qual tem sido a relação desses conglomerados com o erário público.
