Ah, Argentina, que castigo
![]()
Ah, a infinita crueldade do futebol. Não é esse afinal o segredo do seu encanto?
O plano de jogo da Argentina foi perfeito. Ou quase. Mas nesse “quase” os hermanos dançaram. Até os 20 do segundo tempo, Pekerman havia feito tudo certo. Errou numa substituição. E a Alemanha ganhou mais germanicamente que nunca.
Eu, argentinófilo assumido, fiquei triste, sim: a Argentina não merecia o castigo. Pekerman montou o time perfeitamente: é um 3-5-2 que se recita como um 4-4-2. Ou seja, o lateral-direito é na verdade o terceiro da linha de zagueiros. Pela esquerda, Sorín jogava livre para atacar, às vezes fechando como ala, às vezes apoiando como um verdadeiro ponta-esquerda. Na frente, Pekerman foi ousado ao tirar Saviola, mais cerebral e menos guerreiro, e iniciar o jogo com Tévez, que infernizava a saída de bola alemã. No meio-campo, entrou Lucho González, que dá combate e cria, e ficou no banco Cambiasso, que não tem o mesmo talento criador. O esquema foi ousado: a marcação era feita no campo alemão. A Argentina tinha a bola durante 63% do tempo, e não era aquela vantagem ilusória, de quem tem mais posse de bola mas se mantém no próprio campo. A Argentina controlou o tempo do jogo no primeiro tempo e, se não criou grandes chances de gol, pelo menos impediu que a Alemanha montasse suas blitzes; de quebra, colocou-se na posição de ganhar todos os rebotes no meio-campo. No primeiro tempo a Alemanha não viu a bola e no lado esquerdo do ataque argentino os pobres Mertesacker e Friedrich comiam o pão que o diabo amassou com Tévez e Sorín.
A Argentina foi recompensada no comecinho do segundo tempo com o gol de Ayala. E ainda por uns bons 10 ou 15 minutos parecia que a Alemanha não teria poder de reação. Seu meio-campo não acertava passes, Ballack estava completamente apagado. Era a hora de matar o jogo, enfiar o punhal goela abaixo do bicho. Faltou a Pekerman instinto matador. Sacou Riquelme (que realmente não vinha bem) e colocou Cambiasso, volante. Mexeu mal, num momento em que mandava no jogo. E logo depois, no momento de sacar Crespo (que, lento e preso entre os zagueiros, já não era efetivo), Pekerman mexeu pior ainda: não teve confiança no jovem craque Messi, que teria certamente infernizado a defesa alemã nos contra-ataques. Pôs o limitado Cruz, que não só tem feições de boliviano: tem futebol de boliviano também.
A Alemanha cresceu mas, mesmo depois de empatado o jogo e iniciada a prorrogação, era a Argentina quem tinha mais gás, era ela quem tinha poder de definição. Os alemães sabiam que tinham vantagem nos pênaltis, que só chama de “loteria” quem não entende nada de futebol. Findo o segundo tempo da prorrogação era nítida a expressão de confiança entre os alemães: chegamos onde queríamos. Lehmann fez o resto, também ajudado por um erro anterior de Pekerman, que deixou em Buenos Aires o grande Germán Lux e levou o jovem Franco para a reserva de Abbondanzieri. O Pato se machucou durante o jogo e entrou Franco. Franco não teve culpa no gol que levou, mas tampouco chegou sequer perto de pegar algum pênalti.
A Argentina foi ousada na preparação e nos primeiros 70 minutos de jogo. Pagou caríssimo pela falta de instinto matador no que restava do jogo. Contra a Alemanha, é pecado mortal.
PS: Blogs argentinos que linkam o Biscoito: Linkillo, Monolingua, Conejillo de Indias, Salón Mati, Mejor en fiestado e vários outros.



Antes do jogo Brasil x Japão circularam duas notícias interessantes sobre a seleção brasileira: a primeira foi divulgada para todo mundo, a segunda era exclusividade da TV Globo.

A história? Nada mais banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim da história.
Manuscrito da primeira página de Ulisses.