Monthly Archives: março 2006
Censura na blogosfera do Grupo Folha
Em nome da “isonomia” e da “isenção”, Soninha já não poderá falar de política em seu blog, hospedado na Folha Online. Está claro que houve uma nítida intervenção censora, que revoltou os leitores do blog. Enquanto isso, Josias de Souza desfila seu tucanismo incólume num blog também hospedado pelo Grupo Folha e cheio de “notícias” tendenciosas, ilações e insultos morais a membros do governo federal.
É a “isenção” da mídia brasileira.
Soninha merece muito mais, mas que conste: o idelberavelar.com e a Verbeat já se colocaram à disposição de Soninha caso ela queira mandar a hospedagem do grupo Folha ao raio que o parta.
PS: o Juca Kfouri, de quem eu gosto muito, pisou na bola nessa caixa de comentários, ao dizer que passou a “indicar, em seu blog, este, da Soninha, exatamente porque, agora, deixou de ser partidário“. Isso é ridículo, seu Juca. Seria como eu não linkar a Fefê porque ela é cruzeirense, o Inagaki porque a política dele é diferente da minha, ou a Leila porque ela é anti-tabagista. Ou você gosta do blog e linka, ou não gosta e não linka, mas linkar um blog porque ele foi censurado e passou a ser “apartidário” – condicionar a linkania ao “apartidarismo” num momento em que este é produto de um “cala-boca” – é ser conivente com a censura. Bola murcha para o Juca nessa aí.
O aniversário do golpe, o dia da mentira, as confusões entre ética e política, os cowboys gays, a cara-de-pau da Primeira Leitura e a ‘coerência’ do tucanato
Sabe-se que o golpe militar brasileiro – o aniversário vem aí – só se consumou realmente no dia primeiro de abril. Sim, foi em 31 de março que o general Olympio Mourão Filho partiu com suas tropas para o Rio de Janeiro, movimento que Castello Branco julgou intempestivo e tentou bloquear com um telefonema a Magalhães Pinto. Sim, foi em 31 de março que se unificaram no Vale do Paraíba as tropas do General Murici e as do General Morais Âncora, este último encarregado por João Goulart de prender Castello Branco. Âncora desobedeceu, optando por evitar o que provavelmente teria sido o estopim de uma guerra civil.

Foto: Tanques na Avenida Presidente Vargas (obrigado pela correção, Tania)
Mas é no dia primeiro de abril que ocorre a unificação de toda a liderança militar e a consumação do golpe, que havia sido marcado para o dia 04 de abril, tendo sido depois adiado para o dia 08 porque, segundo o general Carlos Guedes, nada que se faz em lua de quarto minguante dá certo.
Fugindo da lua de quarto minguante, a camarilha golpista terminou condenada ao dia da mentira, cuidadosamente evitado nos livros de história por uma sutil manobra sofista.
E haja sofisma, nesta época eleitoral.
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Um dos momentos mais divertidos que tive ano passado no Brasil foi durante a exibição de um Manhattan Connection, em que Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo comentavam – sem haver assistido – o filme Brokeback Mountain. Repetiam a cantilena da extrema direita americana: trata-se uma “politização” inaceitável do western, da utilização de um gênero para avançar a “agenda gay”, etc. e tal.
Foi a cena mais divertida da minha estadia: ver Reinaldo Azevedo, com aquele anelzinho, desmunhecando vigorosamente contra os cowboys gays.
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E agora eis que a Primeira Leitura, revista que abertamente se assume tucana, não vê nada de errado em receber dinheiro de um banco estatal de São Paulo, um estado administrado por um tucano. Esses são os mesmos que falam do “maior escândalo de corrupção da história”. Não vêem nada de errado nisso, por quê? Segundo Azevedo, porque
Primeira Leitura, de fato, foi criada por Luiz Carlos Mendonça de Barros. Mas não pertence mais ao ex-ministro desde setembro de 2004. Como informa o próprio jornal, “de outubro de 2004 até julho de 2005 (…), Primeira Leitura circulou com anúncios de página dupla da Full Jazz”. Ou seja: Mendonça de Barros já não tinha mais qualquer vínculo com a revista, de que deixou de ser, infelizmente, até mesmo colunista.
Como se Primeira Leitura tivesse deixado de ser tucana depois que Mendonça de Barros a abandonou, como se o governo de São Paulo não tivesse sido tucano entre outubro de 2004 e julho de 2005, como se um vínculo como esse, entre uma revista partidarizada e um fundo de dinheiro público – gerenciado, ainda por cima, por um pré-candidato a presidente – não fosse tão ou mais escandaloso que qualquer evento do suposto “maior escândalo de corrupção da história”, o do governo do PT.
Mas as justificativas esfarrapadas não terminam por aí. Segundo Azevedo, o mais “importante” é que seu apoio a José Serra durante o processo de decisão do PSDB o eximiria de qualquer responsabilidade nessa maracutaia:
Se estivéssemos mesmo fazendo site e revista a soldo de Geraldo Alckmin, seríamos, ademais, notórios traidores, vira-casacas. Que saibamos, Primeira Leitura foi o único veículo de comunicação que anunciou seu apoio à pré-candidatura de José Serra à Presidência da República (link)
Ou seja, como apoiamos outro pré-candidato na disputa interna do PSDB, está provado que somos inocentes de qualquer acusação. É como se um deputado do PT beneficiado com o caixa 2 de Delúbio se defendesse dizendo que pertence a uma corrente interna diferente da corrente de Delúbio dentro do PT. Com a diferença, claro, que todo o dinheiro dos anúncios da Nossa Caixa na Primeira Leitura é dinheiro público.Na seqüência de sofismas, Azevedo conclui:
No texto da primeira página, afirma a Folha, referindo-se inclusive a nós: “Os demais acusados também negam irregularidades”. Pergunta-se ao jornal: do que somos “acusados” exatamente? (link)
Expliquemos de novo, então: vocês são acusados de receber dinheiro público para financiar uma revista partidária, dinheiro que curiosamente vem do estado administrado pelo partido de vocês. Disso vocês são acusados. E não se explicaram ainda.
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Mas a Primeira Leitura não tem só colaboradores como Reinaldo Azevedo, que recorre a sofismas de escola de primeiro grau para justificar maracutaias piores que aquelas que o “escandalizam” tanto, desmunheca contra os cowboys gays, tece loas ao Papa mais reacionário dos últimos tempos, e em fevereiro diz que as “agressões” dos partidários de Alckmin “imitam” o estilo petista para em março declará-lo salvação do país.
Tem também colaboradores de outro nível, como Roberto Romano, professor de Filosofia da UNICAMP. Roberto Romano não é um idiota, não é um Olavo de Carvalho. É autor de uma respeitável obra. Mas vejamos o que ele dizia antes e o que ele diz agora.
Em 2000, quando FHC e Paulo Renato submetiam as universidades federais brasileiras ao maior sucateamento da história, o Prof. Romano dizia:
É muito interessante que comecemos a falar de universidade, porque o que aconteceu nestes últimos seis anos no Brasil foi um desmonte programado, intencional, racional, de todo um sistema de produção de saberes. . . . Fernando Henrique . . . e o seu ministério, a começar pelo ministro Paulo Renato, têm uma responsabilidade muito grande sobre o que está acontecendo. Ao abraçar o Antônio Carlos Magalhães, e ao abraçar essa via do possível, o que fez ele? Escolheu o caminho da tradicional dominação brasileira, violentíssima, paternalista e mentirosa.
Numa louvável denúncia do que o tucanato fez com a universidade brasileira, o Prof. Romano chegou a falar de “genocídio programado”. Curiosamente, em janeiro deste ano, ele dizia que
O PSDB é uma das últimas fronteiras políticas em prol do Estado democrático de direito.
Claro que a todos é dado o direito de mudar de opinião, mas nada nos textos do Prof. Romano nos explica como o partido que patrocinou o “genocídio programado” que ele denunciou há seis anos se converteu, num passe de mágica, em bastião da moralidade. Prof. Romano, se o sr. quer defender as CPIs com o argumento de que
sem CPI, quantos saberiam algo sobre as façanhas de PC Farias, dos Anões do Orçamento, do mensalão, do Land Rover do Silvinho, do conúbio entre Delúbio e certos agentes pouco ortodoxos do mercado, etc? (link)
o sr. poderia explicar por que os apoiadores do PSDB bastião do “Estado democrático de direito” sufocaram nada menos que 69 pedidos de CPIs na Assembléia Legislativa de São Paulo? Nenhuma delas se justiificava segundo o “Estado democrático de direito”?
Mas o Prof. Romano vai mais longe. Defendendo, em janeiro, a candidatura de Serra a presidente, ele dizia que o documento assinado por José Serra, em que ele se comprometia a ficar 4 anos na prefeitura de São Paulo era um “papelucho” sem valor porque
. . . um ato humano só pode ser válido quando feito sem constrangimentos externos, quando o diálogo que conduz a ele é efetivado com plena boa-fé do seu beneficiário . . . Serra foi constrangido por um truque petista (link).
Ora, Prof. Romano, assista esse vídeo aqui, em que Serra promete ficar 4 anos na prefeitura, e me diga se ele foi constrangido por algum “truque petista”.
Mas a coisa ainda piora para o lado do professor. Dando uma nítida “carteirada” de autoridade – como se ele, autor de pelo menos um belo livro, precisasse disso – o Prof. Romano afirma:
Como o PT possui gente que se arvora em especialista na filosofia de Spinoza (mas até o nome do filósofo deturpam, grafando-o contra toda a tradição como “Espinosa”), citarei a Ética e a Política spinozana para aclarar o caso da assinatura de Serra no documento/armadilha que lhe apresentaram.
Com essa grosseira referência, Romano obviamente alude a Marilena Chauí, autora de vasta obra espinosiana. Ora, que coisa feia, professor! Aprenda com os blogueiros! Quando se quer criticar alguém diretamente, nomeamos-no e damos o link. Deu para entender? Não é difícil. Se quer criticar Chauí, maravilha. Se quer questionar sua leitura de Espinosa, eu, particularmente, seria todo ouvidos, porque o tema me interessa muito. Mas deveria evitar essas referências grosseiras, não nomeadas, a uma mulher que tem um currículo infinitamente superior ao seu.
Sobre Marilena Chauí, há que se dizer, professor, e o senhor sabe disso, apesar de fingir não saber: ela não “se arvora” em especialista em Espinosa (sim, com E mesmo, escrito à brasileira). Ela é reconhecida em vários círculos espinosianos como a maior autoridade do mundo na obra de Espinosa, e como tal validada em italiano, em alemão, em francês, em espanhol.
Até agora não ouvi falar de ninguém que estivesse aprendendo português para ler o senhor ou a Primeira Leitura. Sei de vários estudiosos que o estão fazendo para ler a obra de Chauí. Ela jamais diria, por exemplo, uma platitude como essa do senhor:
Na Ética (Livro Quarto, proposição 72), Spinoza afirma: “O homem livre não age nunca com fraude, mas sempre de boa-fé” . . . Serra não agiu de má-fé quando assinou um “compromisso” que dele retirava a própria existência política. (link)
Prof. Romano descobre Espinosa, o fundador do PSDB.
Era só o que nos faltava: o vampiro da meia-noite é o homem livre espinosiano! Ora, professor, mais respeito com a nossa inteligência. Em todo esse debate, eu me encontro mais próximo da sua esposa, a grande acadêmica Maria Sylvia Carvalho Franco, que conclui uma entrevista dizendo:
Estamos num mato sem cachorro.
Atualização 1: Não, Sr. Reinaldo Azevedo, o deputado Henrique Fontana (PT-RS) não o acusou de ser financiado com dinheiro do PSDB. Acusou-o de ser financiado com dinheiro público. E o sr. continua sem se explicar.
Atualização 2: Se o Prof. Roberto Romano – que acha que o PSDB é bastião do “Estado democrático de direito” – teve a excelente idéia de fazer um blog para disseminar seus textos, seria elegante de sua parte abrir uma caixa de comentários, não é mesmo? Ou alguém poderia achar que ele não quer debater o que escreve.
Perdoai, Caymmi
Um ilustre membro da Academia Brasileira de Letras decreta que Peguei um Ita no Norte é uma “toada de Luiz Gonzaga”.
Perdoai, Caymmi, porque não sabem o que fazem.
PS: Ok, ok, a reabertura era dia 31, mas essa foi tão cabeluda que eu não podia deixar passar.
Reabertura do blog
A vida anda se ajeitando, e este blog será reaberto.
No dia primeiro de abril, para não perder a piada.
Até lá.
Atualização: acabo de ver que primeiro de abril é sábado, dia em que o movimento na blogosfera arrefece um mucadinho. Combinemos a reabertura para o dia 31 de março então, o que não deixa de ser um dia da mentira também.

