*Secondlining* e *Blackitude* Eu
Eu ando escrachando nas afrontas ao vernáculo né? Deixa os colegas de
letras saberem. Duas palavras estrangeiras no título! Chamem o Aldo
Rebelo
[link]! O
post de hoje é para eu me lembrar de por que, quando tive a oportunidade
de trabalhar num lugar mais rico e prestigioso, eu acabei optando por
ficar aqui em Nova Orleans: *eu amo demais a cidade*. Hoje foi dia de
*secondlining*: palavra inglesa só existente como substantivo aqui em
Nova Orleans
[link],
ela designa o ato de seguir uma banda de metais, dançando pela cidade,
de tal forma que você estaciona, sai saculejando e, na hora que se
assusta, já está a 5 milhas de distância do carro, tendo que atravessar
a cidade caminhando de volta. Eu dancei milhas e milhas por esta cidade
hoje.
Durante a festa, uma reflexão: éramos, calculo, umas 600-800 pessoas (um
quarteirão e meio, sólido, de gente dançando: eu aprendi a quantificar a
densidade de pessoas nas minhas épocas de passeatas estudantis). Até
onde pude enxergar *eu era o único branco*. Não foi surpresa e não é
incomum. A cultura hegêmonica aqui é afro-atlântica e somente os brancos
que fazemos questão de acompanhar a cultura negra participamos de
*secondlinings* e dos desfiles que ocorrem em datas simbólicas como o
domingo do *Black Man of Labor*. Já são seis anos vivendo intensamente
esta cidade. Alguma única vez alguém olhou-me com cara de hostilidade ou
cara de *what’s this white boy doing here?* Jamais, nem uma única vez.
Alguma vez deixei de me sentir bem-vindo numa dessas festas? Não, nem
uma única vez.
Um de meus passatempos favoritos é levar a um *secondlining *as madames
e madamos brasileiros, de classe alta, que vira-e-mexe chegam a Nova
Orleans. Vocês sabem, madames do Morumbi ou do Leblon. Acompanham-me.
Entre assustadas, reácias e traumatizadas, protegem suas bolsas e – as
mais inteligentes, as que têm perspicácia para tanto – não se conformam
de que toda a população negra do bairro está ali na rua *sem dar a menor
bola* para elas.
Para quem ainda repete asneiras como “no Brasil não existe racismo” ou
“os próprios negros se discriminam” ou “usar camisa que diz 100% negro é
racismo invertido” (acho que li essa asneira por aí na blogosfera, nem
lembro onde), seria muito bom fazer uma observação da classe média alta
pindorâmica que vem passear aqui na Bahia gringa. O racismo tupiniquim
fica cristalinamente visível quando sai de seu campo preferencial de
jogo, que é a porta do elevador de serviço dos prédios de classe alta no
Brasil.
Fica visível porque aqui (e eu me refiro a esta *cidade*)* é outra
onda,* você é bem-vindo se entender que a cultura da cidade é afro mesmo
e, acima de tudo, se entender que a sua presença não faz a menor
diferença, nem para um lado nem para outro. A gente saculeja aqui nesta
cidade há 200 anos e não deixaremos de saculejar porque apareceu algum
sueco filmando-nos. Se for filmar e bater fotos, entenda: o objetivo
principal ali é dançar. Hoje foi dia de tomada ritual da cidade pelo
povo negro e a tarde inteira foi embalada ao som das marchas das *brass
bands. *Valeu*. *
Para ouvir a música de Nova Orleans, confira a wwoz.org
[link]. Nesta época do ano a emissora, que é comunitária,
está em campanha financeira e pode ser que esteja um pouco chata de
ouvir. Se for o caso, há boa música de Nova Orleans aqui
[link].
PS 1: Como eu faço para sair da primeira página
[link] do UOL? Não sei, já tentei. Sei que o exército
dos blogs pisca-pisca está chegando. *Leitores históricos*: mantenham o
leme desta joça!
PS 2: Notícias da transição ao pontocom: há profissionais extraordinários me auxiliando. Mas parece que este é o primeiro blog a tentar converter conteúdo do UOL para o *Moveable Type*. É possível que tenhamos que fazer toda a transferência de conteúdo manualmente, porque não parece haver tradutibilidade. O UOL parece rodar numa gerigonça de formato alheia aos outros conhecidos. Enfim, mantê-los-ei informados, mas se a esperança era uma transição de alguns dias, parece que foi para o brejo: serão algumas semanas.
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