Dicas literárias O tempo

Dicas literárias

O tempo que eu poderia ter gastado lendo jornais de novembro até
fevereiro – e acompanhado as manobras do Planalto para espalhar boatos
de que Virgílio desistiria de sua candidatura ou as ofertas de barganhas
feitas pelo governo federal para que os deputados votassem em Greenhalgh
ou os vergonhosos pedidos de voto para Severino que o Komintern petista
fez no primeiro turno (além de mentirosos, burros de achar que Severino
não tinha chance) – esse tempo, enfim, que eu *não* desperdicei lendo
essas porcarias foi dedicado a ler alguns lançamentos editoriais
brasileiros de 2003 e 2004. Deixo aqui três destaques, dois em ficção e
um em ensaio.

A Duas Mãos
[link] ,
Paloma Vidal (Rio: 7 Letras, 2003): Paloma Vidal é autora de A história
em seus restos
[link] ,
um estudo das literaturas argentina e brasileira recentes, e não
atualiza o seu belo blog [link] com a
freqüência que nós, neófitos, gostaríamos. Paloma é doutora em
literatura e, como eu, tem uma relação visceral com a Argentina (nasceu
lá e mora no Brasil desde os 2 anos de idade). A Duas Mãos
[link]
foi elogiado por minha amiga e crítica literária mor Beatriz Resende
[link] . O livro é escrito em
insterstícios, entre Brasil e Argentina, um homem e uma mulher, o som de
uma palavra e o que ela pode significar, entre o que podia ter sido e o
que não foi, entre o desejo e o teatro do seu fracasso. Meu conto
favorito é “A Ver Navios”, em que uma mulher descobre que o marido está
traindo-a. Acompanha um encontro do marido com a amante de longe.
Segue-os até o cinema. Senta-se lá atrás e assiste o mesmo filme. Na
saída do cinema, um final extraordinariamente classudo e inesperado.
Maravilhosa estréia ficcional de Paloma.

BaléRalé
[link] ,
Marcelino Freire [link] (São Paulo: Ateliê,
2003): Se você vir por aí alguém metendo o pau numa coisa chamada
“escola urbana”, não acredite. Não há nenhum estudioso de literatura
digno do nome que use este termo para juntar os melões e morangos
recentes. O que há é um grupinho que usa esse termo para atacar e se
auto-promover. Esses caras, que não vou linkar, morrem de inveja de
escritores como o Marcelino: bonito, jovem, de sucesso e ainda por cima
nordestino. É demais para eles. Sobre o excelente contista pernambucano
Marcelino Freire, autor de *Angu de Sangue* (2000), *EraOdito* (2002) e
também blogueiro [link] , há que se dizer o
seguinte: o cara é bom. Os contos
[link] de Marcelino, quando não
são diálogos, são narrações que se passam inteiras na cabeça de um
personagem, em geral em discurso direto. São ultra-rápidos e ágeis, duas
páginas, frases curtas. Não há “progressão” de acontecimentos, não há
diegese, é a violência do mundo estalando ali, no seu puro acontecer.
Prostitutas, travestis, crianças abusadas, sarjeta, o mundo na miséria
máxima, mas cada personagem é absolutamente singular no seu insight.
*BaléRalé* vale a pena, leitor. Há violência nos contos? Sim. Acontecem
na cidade? Em geral sim. Mas isso não o faz membro de nenhuma “escola
urbana”. O fundamental nos contos de Marcelino, para mim, é uma
concepção do tempo como estalo. Espetacular.

Sem Receita
[link] ,
José Miguel Wisnik (São Paulo: Publifolha, 2004). Eu sou suspeito para
falar. As paixões do cara são literatura, música, futebol. Igualim que
eu. Com este livro José Miguel Wisnik
[link] acabou
de se firmar como um dos maiores pensadores e artistas brasileiros. O
cara teve um ano iluminado: o CD Pérolas aos Poucos
[link] ,
trilha (em parceria com Caetano) para o maior balé da América Latina, o
Corpo [link] , ovação inesquecível à
sua palestra no Festival Literário de Parati
[link] ,
canções suas gravadas por Zélia Duncan e Djavan, convite de Chico
Buarque para que ele escrevesse uma letra (primeira vez na história que
Chico pede a alguém uma letra) e, para coroar, este livro absolutamente
*epocal*. Este livraço de 540 páginas compila ensaios seminais de Wisnik
sobre a cultura brasileira, como o hilário “O Minuto e o Milênio, ou Por
Favor, Professor, uma Década de Cada Vez” e “A Gaia Ciência”. Há artigos
sobre Chico, Caetano, Guimarães Rosa e um extraordinário texto, “Machado
Maxixe”, sobre Machado de Assis, a música do século XIX e a separação
entre popular e erudito. No final, uma entrevista com cobras criadas
como Luiz Tatit, Arthur Nestrovski e meu amigo João Camillo Penna, onde
aprendemos alguns detalhes sobre o livro que Wisnik prepara sobre o
futebol como alegoria do ser nacional. Já estou na fila para ler,
obviamente. Abusou-se muito da palavra “indispensável”, eu sei, mas Sem
Receita
[link]
o é de verdade. Evoé Wisnik.

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