*Sobre Certas Inverdades publicadas
*Sobre Certas Inverdades publicadas pela Revista /Veja/ – Entrevista com
Christopher Dunn*
/Christopher Dunn é meu colega no departamento de Espanhol e
Português [link] de Tulane University e
autor de Brutality Garden: Tropicália and the Emergence of a
Brazilian Counterculture
[link] .
Amigos há uns 13 anos, colaboramos em Brazilian Popular Music and
Globalization
[link] e
estamos preparando juntos uma coleção de ensaios sobre a música
popular brasileira e a questão da cidadania, com a qual já se
comprometeram quinze estudiosos da música brasileira, no Brasil e
nos EUA./
I.A. – Bem-vindo ao *Biscoito Fino e a Massa, *Chris.
C.D. – Obrigado, Idelber.
I.A. – A matéria da *Veja* de há duas semanas, sobre o novo
brasilianismo nos EUA, faz menção ao seu trabalho e coloca algumas
coisas entre aspas como declarações suas, além de usar formulações que a
matéria pressupõe serem suas. Há algo incorreto ou distorcido na matéria
da *Veja* em relação ao que você falou?
C.D. – Primeiro, a matéria da *Veja* me identifica erradamente como um
dos “poucos estudiosos” da cultura brasileira nos Estados Unidos. Ora,
há relativamente muitos estudiosos trabalhando na área cultural, levando
em conta literatura, música popular, teatro e outras esferas de
produção. Faço questão de dizer que faço parte de uma comunidade
discursiva de ‘brasilianistas’ — e, é claro, de estudiosos
brasileiros– que trabalham com a cultura. O autor da matéria cita meu
livro Brutality Garden,
[link]
que trata do movimento tropicalista, [link]
e diz corretamente que tentei um “mapeamento das acaloradas declarações
da época.” Mas ele comete um erro grave ao dizer que meu trabalho mostra
que o crítico literário Roberto Schwarz foi “inimigo número 1 dos
tropicalistas” e que ele teria acusado Caetano e Gil de serem
“americanizados.” Isto é bobagem. Schwarz nunca participou da campanha
jornalística contra os tropicalistas. Ele se posicionou em relação ao
movimento num artigo elegante escrito e publicado em Paris em 1970
quando já estava exilado. É verdade que neste artigo Schwarz fez severas
críticas ao movimento tropicalista, mas nunca adotou uma posição de
nacionalismo cultural como outros críticos da época. Aliás, na primeira
parte do artigo ele faz questão de criticar o anti-imperialismo
simplista de alguns setores da esquerda cultural nos anos 60. Seguindo
uma linha desenvolvida por críticos marxistas da Escola de Frankfurt
[link] , sobretudo Walter Benjamin
[link] , ele faz uma leitura
da Tropicália pela ótica da alegoria. Este texto se tornou uma
referência fundamental, mesmo para aqueles, como eu, que discordam de
suas conclusões. Mas a parte do artigo da *Veja* que mais me irritou é
quando o autor diz que eu teria enfatizado a “saúde cultural daquela
época” em comparação com a “pasmaceira que reina nos dias atuais.” Na
verdade, ele me fez uma pergunta que deu a entender que ele queria esta
resposta, me eu lhe disse categoricamente que não era saudosista e que
adorava a música brasileira atual! Sou contra esse papo de “época áurea”.
I.A. – Considerando a matéria da *Veja* e o que você realmente lhes
disse na entrevista, você acha que eles são culpados de burrice,
imbecilidade, falta de ética, de vergonha, filhadaputagem, má fé ou
alguma combinação entre as opções acima?
C.D. – Idelber, sinceramente não sei. Tenho a impressão que circulam
estereótipos facilmente digeridos sobre a Tropicália que ocultam suas
complexidades. Evidentemente, isto se passa com fenômenos culturais
complexos em geral. Um jornalista tem um determinado número de laudas e
um prazo para produzir a matéria. Acho que repetir aquelas histórias foi
o caminho mais fácil. Talvez foi por preguiça– um motivo muito mais
nobre que as opções que você cita!
I.A. – Obrigado pelo papo com o *Biscoito*, Chris.
C.D. – Valeu, mano. Acho genial seu blog e celebro a expansão do
bloguismo em geral justamente para criar este tipo de espaço para debate
e reflexão “além das laudas”.
/PS de I.A./ – Christopher Dunn é gentil em demasia, mas eu gostaria de
colocar, a modo de /post scriptum/, uma afirmação e duas perguntas aos
leitores do *Biscoito*. Afirmação: o que ocorreu com Chris Dunn na
matéria da *Veja* sobre os “brasilianistas” vai *além* da
ultrasobremega-simplificação que é de se esperar num veículo de
comunicação indigente como essa revista. Houve *falsa atribuição de
citação*, na medida em que Schwarz jamais chamou Caetano ou Gil de
“americanizados”, quem leu a mínima bibliografia sobre o Tropicalismo o
sabe e qualquer um que afirmasse essa bobagem não tiraria um B na aula
de Chris, assim como não conquistaria B tampouco, nessa mesma aula,
qualquer um que epitetasse Schwarz de “inimigo número 1 dos
tropicalistas”. Usou-se o nome de Chris para *atacar* Schwarz com uma
crítica que é quase um insulto.
Agora, as perguntas são as seguintes: será que essa *falsa atribuição de
citação* é um mero erro provocado pela indigência encefálica dessa pobre
revista ou será mais malicioso intento de atingir Roberto Schwarz
(intelectual de esquerda, ligado a causas progressistas) usando o nome
de um jovem acadêmico estadunidense (de credibilidade) como Chris Dunn?
Qualquer que seja a resposta para a primeira, fica a segunda pergunta,
Blogosilvânia: os blogs chegaram para ficar como alternativa de espaço
rápido e ágil em que poderemos defender-nos efetivamente contra meios de
comunicação como a *Veja*, que sistematicamente distorcem a palavra
alheia? Ou será que é inútil tentar esclarecer qualquer coisa para o
pobre público que acode a essa revista em busca de sua informação
semanal? Seja qual for o caso, acredito que na era dos blogs será mais
difícil que esses megaconglomerados* *atribuam citações falsas, atinjam
a reputação de profissionais sérios e achem que fica tudo por isso mesmo.
——–
