Cinco dias sem cigarro!

 

Quando você ler este post fará pelo menos cinco dias que parei de fumar! Desde segunda-feira! Por que venho escrevendo há cinco dias sem dizer nada? Ora, porque me resta um farrapo de orgulho, e já tendo “parado” de fumar umas 12 vezes, estou cansado de sofrer a suprema humilhação de anunciar a todo mundo “parei de fumar” e 48 ou 72 horas depois ser visto com um cigarro na mão, dizendo “pois é, bicho, não deu, não sei o quê”.

Inclusive, eu cheguei a ir ao Quando Onde Como na segunda, dar uma força à Sheila Leirner, que parou. Na segunda eu já havia parado, mas não disse nada porque só fico pronto para dizer parei depois de cinco dias. Chega. Parei e pronto. Os sintomas têm sido os mesmos, já esperados:

24-48 horas: fome incrível, variação no olfato; ao invés de 2 e ½ passa-se a fazer 4 refeições por dia, a mandíbula começa a doer de tanto chiclete; mastigação louca; dorme-se e levanta-se mais cedo; respiração mais longa e de mais qualidade.

48-72 horas: recuperação de forças que você não sabia que tinha e
consciência mais aguçada das partes do corpo, que em compensação começam a “pedir” a droga; saem seres extra-terrestres de cor amarelada escura da garganta, alguns do tamanho de uma bola de tênis; às vezes anunciam sua chegada, às vezes não; macarrão-zinho de pretume começa a sair da pele depois do banho quente; volta paulatina do paladar; você começa a diferenciar a vagem do aspargo sem ter que olhar para eles.

72-96 horas: fincadas violentas no estômago, que pede a droga, mesmo
quando cheio; outra qualidade, freqüência e beleza na sua ereção; queda dramática da capacidade de multi-concentração: diminui o número de janelas e textos que eu manejo; em compensação, como não se pára o
trabalho para fumar, o dia no final rende mais; dificílima a
concentração em frases longas; aos que páram de fumar não recomendo
Proust nos primeiros dias.

Conheço os meandros das tentativas: já usei patches, chiclete de
nicotina, drogas ilícitas, endorfina, morfina, santinho, halls, vudu, o caralho a quatro. Desta vez, optei pela receita melhor: comida, amendoim, amêndoas, chiclete, doces, uma cervejinha com moderação, bastante café, chocolate e mais boa comida

Dar-me-ei o direito de blogar sobre isso *uma vez por semana*. Será como a resenha dos discos. Se eu falar nisso mais de uma vez por semana, vocês me enxovalhem daqui. Ao longo de 52 semanas, faremos uma fenomenologia da fumaça. Eu conto todos os meus casos de fumante, meu pai que morreu detonado pelo câncer aos 60 anos, os cachorros lá na casa da minha mãe que também fumam, a importância do cigarro no existencialismo, o grande romance A Consciência de Zeno sobre o último cigarro, o estudo filosófico Cigarettes are Sublime, a fumaça em Hollywood e outros temas.

Ao final de 52 semanas e 52 crônicas, depois que eu puder dizer
realmente que parei, a gente junta os textos com os comentários e leva
numa editora para publicar como livro. Hehehe! O que vocês acham? Será a primeira metódica blogo-crônica em tempo real de uma ruptura com o cigarro.

Conto com o apoio de todo mundo.

PS do dia 31 de março: o blogueiro depois deu-se conta, claro, de que estava equivocado. O Tabagista Anônimo foi o primeiro a propor uma blogo-crônica da ruptura com o cigarro, e antecede o Biscoito em muitos meses.