*Convite à leitura de

*Convite à leitura de dois textos de Machado de Assis *

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Nesta quarta, alguns alunos meus passarão por aqui para bater um papo
sobre Machado de Assis
[link] . Gostaria de
convidar outros leitores a participar (especialmente quem estiver
cansado de Dostoiévski [link] !).
Este blog já fez uma pequena experiência de ‘aula virtual’ com o pessoal
da Faculdade da Cidade lá na Bahia neste post aqui sobre o conto
[link] .
Foi muito legal.

Neste semestre um dos dois cursos que estou ditando em Tulane
[link] é sobre a contística brasileira, de Machado ao
presente.

Para este papo selecionei duas histórias – um conto e uma novela – que
podem ser lidos online: Um Homem Célebre
[link] e O Alienista
[link] . Quem puder,
leia essas mini obras-primas e passe aqui para papear.

Um Homem Célebre [link]
narra a história de Pestana, um talentoso compositor de polcas
[link] no
Rio de Janeiro de 1875. O suplício de Pestana se deve ao fato de que
ele *não* *quer *compor polcas, e sim consagrar-se no panteão da arte
erudita – o das sonatas para piano. Mas sempre que se senta ao piano,
são as polcas – e *boas* polcas – que prevalecem. Numa época em que a
polca – depois de introduzida no Rio na década de 1840 – já havia
alcançado sua popularidade máxima, Pestana bem pode ser a primeira
dramatização do conflito entre cultura erudita e cultura urbana de
massas na ficção brasileira. A narrativa, típicamente machadiana, é
cheia de ironia leve e requintada. É importante sublinhar que os títulos
das polcas de Pestana – como ‘Não Bula Comigo nhonhô’ – já indicam
traços de algo que permanecia inomeável naquele momento, por demasiado
associado à lascívia, à permissividade, à sexualidade e ao corpo negro:
sim, falamos do maxixe
[link] ,
que naquele momento vivia sua fase de constituição a partir da base
rítmica da polca. Não nomeado no conto como tal, claro, o maxixe é uma
espécie de vertiginoso fantasma que ameaça engolir Pestana, esse criador
bem brasileiro, preso entre seu desejo de universalização via cultura
erudita e a realidade sedutora – e ao mesmo tempo para ele desprezível –
da cultura popular urbana. O conto abre o leque de uma imensidão de
questões ligadas não só à hierarquia entre produções culturais, mas
também a temas como raça e nacionalidade.

O Alienista [link] é
bem mais conhecido e narra a história de Simão Bacamarte, ‘cientista’
ancorado na onda positivista, que chega a Itaguaí e dedica-se à sua
‘grande obra’, um asilo para loucos chamado Casa Verde. Sua chegada é
uma cena repetida na literatura do século XIX, na Europa e nas Américas:
a chegada do citadino à roça, legitimado por um saber ‘moderno’ mas
incapaz de ler competentemente a realidade à sua volta. Na medida em que
evolui o projeto do asilo, as teorias de Simão vão ficando mais absurdas
e a quantidade de gente definível como louca vai só aumentando, até o
hilário e irônico final, que eu não vou revelar. Há muito que se dizer
aqui sobre a história da psiquiatria, a definição do que é a loucura e o
relacionamento com ela, a relação entre ciência e poder político e
outros temas.

Pessoal da aula: passem e deixem suas observações (ou perguntas) sobre
um ou ambos textos. Pode postar em inglês, portuga ou espanhol (uma
língua de cada vez, claro). Os leitores regulares do *Biscoito* estão
convidadíssimos a participar deste papo.
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