*Ou o mundo se
*Ou o mundo se brasilifica ou vira nazista: Entrevista com Jorge Mautner** *
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Eu conheço Jorge Mautner [link] desde o
começo do ano 2000. Na turnê de divulgação de O Ser da Tempestade
[link] ,
Mautner esteve em Belo Horizonte e fez um memorável show no Bar da
Estação. Ao terminar o show, com o sorriso de sempre, atendeu a todos e
autografou CDs.
Fiz questão de ser o último da fila. Entreguei o meu CD. Balbuceante,
disse: “Mestre, estou tentando traduzir o /’Ereignis’/, de Heidegger
[link] (projeto desde
então abandonado). Adoraria ter um prefácio seu.” Quando recebo o CD de
volta, não só a capa havia sido autografada com lindos desenhos, mas no
encarte, ao lado da letra de “Cinco Bombas Atômicas”, havia um número
que começava com 021: “Ligue prá mim, a qualquer hora. É só deixar um
recado dizendo que é o poeta mineiro.” Eu jamais escrevi um verso na
vida, mas para Mautner eu era poeta. A excitação febril de ter o
telefone do mestre me fez perder o sono naquela noite.
Passaram-se anos e eu não liguei. Em 2003, meu bróde véio Christopher
Dunn
[link]
estava passando seu sabático no Rio, num AP na Visconde de Pirajá. Fazia
suas pesquisas sobre a contracultura e havia combinado um encontro com
Mautner. Depois de um show em que estávamos todos na platéia (era um
projeto experimental eletrônico-percussivo, com Marcos Suzano e outros),
saímos com ele.
Havia outras pessoas ilustres na turma, mas eu só tinha olhos e ouvidos
para Mautner. Sentamo-nos num bar em Copacabana, na beira da praia, e eu
disse: “Mestre, com certeza você não se lembra de mim, mas…. Ele me
interrompe: “Como não lembro: Heidegger nas Minas Gerais! O martelo de
Zaratustra e os tambores do candomblé!” Ele se lembrava de todo o
conteúdo de nossa conversa de três anos antes. Naquela roda, houve
vários papos, mas pouco a pouco as pessoas foram se ligando na conversa
em que eu e Jorge Mautner destrinchávamos Nietzsche
[link] , Heidegger
[link] , os
pré-socráticos
[link]
e o ‘quinto império brasileiro’. Lá pelas duas da manhã o último
sobrevivente se foi e continuamos eu e mestre Jorge, já na casa de um
amigo seu em Copacabana. No táxi rumo ao Leblon (que me deixaria em
Ipanema), menciono meu livro Alegorias da Derrota
[link] .
Descemos do táxi para que eu pudesse pegar um exemplar para Jorge. Ali
no AP, com Chris roncando no quarto, eu e Jorge conversamos até o dia
clarear. Na tarde seguinte, nos encontramos e ele já havia lido o livro.
Desde então, sempre que vou ao Rio, ligo para Mautner e bebo de sua
sabedoria infinita. Ele me atende com uma doçura cativante. Sempre nos
encontramos nos lugares mais insólitos (o último encontro foi num
McDonalds). Também já tive a honra de recebê-lo em Minas.
A entrevista que se segue foi realizada por mim e por Christopher Dunn
no apartamento de Jorge Mautner, no Leblon, Rio, em janeiro de 2004. São
13.000 palavras, quase o tamanho de um livrinho de bolso. Presentes
estávamos nós três, Nelson Jacobina, o espírito de Heráclito, o de
Zaratustra e a flecha de Oxossi. Vai com um abraço a César Rasec, que
acaba de lançar o livro *Jorge Mautner em Movimento* (Salvador: Edição
do Autor, 2004) e brindar-me com uma bela dedicatória.
Sem esquecer de depois voltar aqui para comentar, leia a entrevista
completa com Jorge Mautner [link] .
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