Cidades-vitrine e cidades-véu
Já há tempos eu tenho uma teoria que quero testar e agora é a hora.
Primeiro, uma coisinha sobre os gostos de quem fala. Tolstói começa Ana Karenina com aquela frase memorável: ‘Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira’. Para a minha sensibilidade, a diferença entre a cidade e o campo é a mesma, só que ao revés. Mato prá mim é tudo igual. Não importa que seja floresta, caatinga, serrado, cordilheira ou montanha. O meu desinteresse é o mesmo. Não tenho o menor saco para nada que seja natureza. Não tenho a menor vontade de conhecer o Pantanal, o Grand Canyon ou o Himalaia.
Teria o maior tesão de passar umas duas semanas em Tóquio ou em Praga, cidades que ainda não conheço.Topo qualquer parada, desde que seja na urbe.
Na minha experiência, há dois tipos de cidades: por um lado, aquelas que se oferecem para você, abraçam-no e não requerem, em absoluto, a guia de um conhecedor local. Só o desejo de entrega de quem chega. A cidade faz o resto. Nova York, Salvador, Madri, Rio de Janeiro e Buenos Aires são assim. Por outro lado, há as cidades que podem ser fascinantes, riquíssimas, múltiplas, mas cujos tesouros se escondem, seja numa imensidão, seja num desenho tortuoso, seja na pulverização. A guia de alguém que conhece torna-se imprescindível. Los Angeles, São Paulo, Belo Horizonte, Santiago do Chile e a Cidade do México são assim.
Isso não quer dizer, obviamente, que você não vá aproveitar muito mais
de Nova York se contar com um manhattanite ou de Salvador se contar com uma boa baiana de guia. Mas sim significa que se você se perder na cidade – a primeira coisa que faço quando chego a uma urbe nova é perder-me nela – a cidade mesmo assim estará ali para você. Você encontrará o fundamental. Se estiver aberto para que a cidade o abrace, ela o abraçará.
Conheço alguém que chegou a Belo Horizonte sem notícia das coisas,
zanzou da Praça da Rodoviária (teve o infortúnio de chegar de ônibus)
até a Praça Sete, daí à Praça Afonso Arinos, daí à Raul Soares e zanzou e zanzou e foi embora convencido de que BH é uma amontoeira de prédios e praças sem graça. As pérolas da intensa vida cultural da cidade estão escondidas. Claro, você pode comprar o jornal, mas mesmo assim, se não tiver um bom guia, o fundamental escapar-lhe-á entre os dedos.
Isso é impossível em Salvador. Qualquer que seja o lado que você
escolha, a essência da cidade estará ali, pronta para abraçá-lo. Mesma
coisa no Rio. Já em São Paulo, se não houver alguém que conheça bem
aquela joça prá lhe ajudar, você pode muito bem passar a experiência
mais frustrante da sua vida.
Experimente perder-se em Nova York. A surpresa inaudita, o acontecimento insólito vai aflorar. É muita densidade de opções. Sempre que vou a NYC evito os planos. Desço e começo a andar. Ë sempre o melhor caminho. Só lá para o terceiro dia eu resolvo comprar o jornal.
Experimente perder-se em Los Angeles. Você se sentirá um imigrante
pedestre miserável numa floresta de viadutos que lhe transmitem a
impressão de que não há nada mais na cidade.
Isso não quer dizer que NYC seja melhor que LA ou que o Rio seja melhor que São Paulo. Simplesmente que a exploração de cada uma requer uma arte diferente.
PS: Estou em fase final de revisão e formatação do texto da entrevista
com Jorge Mautner. Será postada logo logo.
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