As aventuras do careca, ou fábula de um país imaginário
-- Rapaz, eu te falei que esse negócio dos nossos jornais não darem uma linha sobre a história era burrada. A imprensa inteira fazendo o maior auê e a gente dando manchete sobre o aumento da poluição em BH? Foi bandeira demais. Os caras só seguiram a pista.
-- Eu disse ao Alvim. Era só repetir a ladainha “o aparelhamento da Receita, o Estado policial, patati patatá”. Mas não. Ficaram no silêncio, deu no que deu. Ficou óbvio demais.
-- Uso do cachimbo deixa a boca torta.
-- Pois é.
-- O negócio já estava agourado lá atrás, quando o Ecim bateu na namorada. Pô, tá achando que Copacabana é Barão de Cocais? Lá vaza mesmo. A moça lá da Folha que é dona da boate contou, mas não deu nome nenhum.
-- Quem deu?
-- Aquele jornalista lá, do futebol.
-- Por que o cara fez isso?
-- Ele vive afogado em processos, o Ric o odeia.
-- O Rick o está processando também?
-- Não, sua besta, esse é outro Ric, o do futebol!
-- Ah, sei. Mas o que tem a ver?
-- É que o Ric é chapa do Ecim.
-- Isso aí foi antes ou depois daquele recado do careca, o pó pará?
-- Depois. O Ecim já sabia que o chumbo era grosso. Mas aí o Ecim já estava com a galera nossa aqui, já tinha chamado o Yruama. Quando o careca descobriu que o Rick estava processando o Yruama, endoidou. Ele é feio e desengoçado, burro ele não é. Mas aí Inês já era morta, tinha que continuar com a ladainha de que era o partido dos barbudos. Como réu, o Yruama tinha acesso aos autos. Imagina, o Yruama, repórter, macaco velho, com aquela papelada toda. O sujeito até salivou. Um franguinho assado no colo.
-- O que tem na papelada?
-- Toda a história de Lilliput nos anos 90. Como venderam tudo, as negociatas, tudim, tudim. O careca entrou em pânico.
-- O lance é que o careca tentando fingir de indignado não convence nem minha vovozinha. É mais fácil ele aprender a dançar forró que se fingir ultrajado. Aí fodeu mesmo.
-- Mas o plano não era incriminar o partido dos barbudos com o material do Yruama, aproveitando que era sigiloso?
-- Tentaram. Foram lá em Brasília com aquele delegado. O sargentão estava lá também. Não conseguiram nem um aloprado pra arrastar.
-- Mas a Óia não deu a matéria assim mesmo, dizendo que era o partido dos barbudos?
-- Os caras foram lá, mas a história era tão fantasiosa que nem o Quaresma achou que dava pra vender.
-- Mas a matéria saiu.
-- Saiu, porque ali sacumé. Até o cruzamento da mandioca com o rinoceronte eles já inventaram.
-- E aí, o que rolou?
-- A matéria saiu na internet num sábado. Veio o domingo e nada de repercussão. Veio a segunda, nada. Não sei o que rolou na segunda, mas na terça A Esfera entrou solando, publicou matéria repercutindo. O rapaz da Folha até contou que eles nem iam pegar essa história, era vexame demais, mas como A Esfera já tinha publicado, eles tinham que seguir.
-- Nem com a matéria eles conseguiram algum bobo do partido dos barbudos pra pegar um dado sigiloso e depois ser incriminado?
-- Nem um. Filhos da puta. Os barbudos estão ficando espertos.
-- Como é que eles descobrem a relação disso tudo aí com a cidade do Visconde?
-- Internet, meu filho. Lilliput em 2010 não é Lilliput em 1989. Não sei quem foi, mas às 15 h o trem já estava pegando fogo na internet.
-- Qual foi a besta quadrada que saiu da reunião dizendo “a internet já descobriu que foi o Ecim”?
-- Não sei quem foi, mas vazou isso também.
-- Como é que está Ecim?
-- Ecim está tranquilo. Agora, o careca está em pânico.
-- E o nosso esquemão aqui?
-- Complicado. Descobriram as matérias clandestinas feitas à noite aqui, pra não sair no jornal e vazar pra outros.
-- Como descobriram? Porra, estamos no oitavo andar!
-- A meia dúzia de quarteirões do Ecim. Eu já te falei, Lilliput em 2010 não é Lilliput em 1989.
-- Como se chama este bairro aqui?
-- Bairro da Serra.
-- Avenida Getúlio Vargas no bairro da Serra?
-- Eu sei, pode rir.
-- E o careca agora?
-- Ficou doidão. Não pode revelar o esquema, começou a brigar com os blogs.
-- Blogs?
-- É uma turma suja que escreve na Internet.
-- O cara quer governar Lilliput e está brigando com os blogs?
-- Desespero, mô fio. O Ecim é que é esperto. O careca odeia o Ecim até mais que ele odeia o barbudão. Do barbudão ele tem é inveja.
-- E o barbudão?
-- Estava lá em Porto Alegre quando vazou tudo. Sendo beijado pelo povo, aquela nojeira.
-- Tem perigo disso sair na imprensa?
-- Tem não. Morrem de medo, rabo preso, sacumé. O lance é que dá na mesma, está todo mundo migrando pra internet.
-- O Yruama está se cuidando?
-- Aquele ali é doido de pedra. Você sabe, ele voltou pra Minas depois que levou aquele tiro em Brasília.
Pois é, valente Deputado Brizola Neto, o lacerdismo vive. Para os mais jovens, aí vai a frase de Carlos Lacerda que emblematiza o golpismo tupiniquim: O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência; candidato, não deve ser eleito; eleito, não deve tomar posse; empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.*
Não há momento da história do Brasil em que, ameaçada pelas urnas, a direita não tenha recorrido a alguma variação do espírito dessa frase. Em vez de utilizar a campanha eleitoral para discutir o que interessa--saúde, educação, reforma agrária, política externa, política tributária, papel do Estado na economia--, nos vemos mais uma vez numa grotesca paródia de telenovela mexicana, rastreando um carimbo de cartório de setembro de 2009, indo atrás de contadores e advogados que assinaram ou deixaram de assinar um pedaço de papel, repetindo ad infinitum esse tedioso disse-me-disse dos factoides. A entrevista com o contador que levou à Receita Federal a solicitação de cópias das declarações de Imposto de Renda de Verônica Serra é um festival de chacotas. Quem diria, a sério, algo assim sobre qualquer candidato?: Tenho nojo de política. Mas eu voto no Serra viu? Sou eleitor dele desde que ele nasceu.
Mais uma vez, o futebol nos oferece a metáfora perfeita: a quem interessa a confusão e a bagunça extra-campo? Qual é o time que quer tumulto? Qual é a equipe que deseja levar o jogo para o tapetão? Certamente não são aqueles que estão jogando na bola e ganhando a partida. Serra parece disposto a lançar ao lixo o que lhe resta de biografia honrada. Tudo indica que sairá deste processo passando vergonha: apelando para a pancada, reclamando com o juiz, escondendo a bola, como é de seu feitio (vejam, nesse link do insuspeito Estadão, a referência a Tasso Jereissati).
Aqui, cabe uma palavra acerca do papel da mídia. Nada disso teria tomado a campanha eleitoral de assalto se não fosse pelo exército de manipuladores amestrados dos conglomerados máfio-midiáticos do país. Tento não subestimar nem superestimar o poder desses conglomerados. No ambiente volátil da internet, muitas vezes oscilamos entre os dois extremos, o da euforia (“depois da internet, morreu o poder da mídia!”) ou da conspiração maligna (“a mídia elegeu tal candidato, ela é responsável por esse ou aquele resultado eleitoral”). Acredito que a análise deve ser feita caso a caso. Creio, por exemplo, que no Sul a RBS tem um poder de distorção e manipulação que os Diários Associados não possuem em Minas Gerais. Também acho inegável que hoje já não há espaço para golpes como os perpetrados pela Globo em 1989.
Mas também acredito que não estaríamos discutindo isso se não fosse pela disposição da mídia brasileira de funcionar como porta-voz do golpismo. O Sr. Ricardo Noblat, depois de traficar mentiras sobre assassinatos, ontem entrou no ramo da manipulação de vídeo, editando e cortando uma entrevista de Dilma Rousseff, com grotesca distorção sonora ao fundo. Ele continua tendo a cara de pau de chamar isso de jornalismo.
Acabam de entrar, nada mais, nada menos, com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral pedindo a impugnação da candidatura de Dilma Rousseff, por uma violação de sigilo fiscal da filha de Serra, ocorrida em setembro de 2009, sobre cujas relações com Dilma eles não possuem um fiapo, um miligrama, uma tutaméia de provas. Já tentaram isso antes. E o povo deu a resposta nas urnas, oferecendo ao pobre Alckmin menos votos no segundo turno que ele havia tido no primeiro, façanha inédita na história das eleições presidenciais brasileiras.
Pelo jeito, passaremos alguns dias nessa realidade paralela. Mas concordo com o leitor de Luis Nassif, que lembra que o relator dessa palhaçada será o Ministro Aldir Passarinho Jr., um legalista que honra a toga. O TSE é presidido pelo Ministro Ricardo Lewandowski, constitucionalista e brasileiro honrado, de quatro costados. É evidente que é preciso estar atento, mas tudo indica que o saldo do episódio será mais uma desmoralização para José Serra.
O que sua coalizão e a corja de jornalistas amestrados não parecem entender é que, num país com a história do nosso, essa é uma brincadeira muito perigosa.
PS: Band, iG e Vox Populi iniciaram ontem a divulgação do tracking diário da eleição presidencial. É um modelo que nós, aqui nos EUA, conhecemos bem. Costuma aferir bem a tendência do eleitorado. Foi o estudo do tracking que nos permitiu, aqui no Biscoito, discutir com antecedência a possibilidade de vitória de Obama no republicaníssimo estado da Carolina do Norte, enquanto Miriam Leitão dizia que a escolha de Sarah Palin havia sido um "golpe de mestre" de John McCain--afirmativa pela qual até hoje ela não se retratou. O tracking da Vox entrevista 500 pessoas por dia e divulga, diariamente, a média das últimas 96 horas. A cada dia, saem da ponderação os números auferidos quatro dias antes. Não surpreende o desespero de José Serra. No primeiro tracking, divulgado ontem, os resultados foram: Dilma, 51%; Serra, 25%, Marina, 9%. Antes da divulgação pelos portais, os números apareceram, em primeira mão, no Twitter.
* A frase foi corrigida algumas horas depois de publicado o post.
Blogueira convidada: Sexismos à parte, por Marjorie Rodrigues
O texto de hoje é de autoria de minha amiga Marjorie Rodrigues. Ele é inédito e foi escrito a convite do Biscoito.
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Devo confessar que, no começo do ano, estava um pouco apreensiva em relação a como seria cobertura jornalística das eleições presidenciais. “Podem esperar que vem muito sexismo por aí”, cheguei a twittar. Afinal, teríamos uma situação inédita: duas mulheres entre os três candidatos mais bem colocados nas pesquisas – sendo que uma delas representa o governo que a imprensa, tomando para si o papel de oposição, tanto tem se esforçado para derrubar.
Vale lembrar que a participação das mulheres na política brasileira ainda é muito tímida. Os partidos dizem ter dificuldades para cumprir a cota de 30% de candidaturas femininas. Creio que este é um problema, acima de tudo, cultural. As mulheres se candidatam pouco e as pessoas têm desconfiança em votar nelas, em grande parte, devido à idéia de que mulher “não serve” para política. De que os homens são racionais e as mulheres, sentimentais. De que o comando econômico e político é território masculino, enquanto às mulheres cabe o campo da domesticidade, do cuidado de crianças, doentes e idosos; às mulheres cabe à moda, o enfeite, o supérfluo. Enquanto não rompermos com a idéia arcaica e rígida de que há coisas “de menino” e coisas “de menina”, acredito que o aumento de mulheres em cargos eletivos será um caminho árduo.
Enfim. A imprensa é um dos meios que formam o imaginário coletivo. Portanto, é um dos meios pelos quais é disseminada esta mensagem de que mulher não serve para governar. As últimas eleições presidenciais americanas, as quais acompanhei com bastante entusiasmo, tiveram duas mulheres em posições de destaque (Hillary Clinton e Sarah Palin) e foram um show de preconceito de gênero.
Já no ano passado, as perspectivas não eram das melhores. Há cerca de um ano, o jornalista Marcelo Coelho publicou em seu blog um texto em que media o sex appeal de várias mulheres na política. Jorge Pontual fez o mesmo no twitter, embora tenha voltado atrás e pedido desculpas. Ruth de Aquino caiu no ridículo de entrevistar um psicanalista para dar bronca nos tiques e trejeitos “pouco femininos” de Dilma: “abaixa esse dedo em riste! Seja mais delicada!”. Então, pensei: “ai, ai, ai. Se a coisa já tá assim agora, imagine quando a campanha começar pra valer?”.
Já a revista Veja publicou uma matéria sobre “quão decisivo é o fator beleza numa eleição”. (estranho... Se é tão importante assim, por que nunca tinham escrito sobre o assunto? Só foram escrever agora, que temos duas mulheres? Embora políticos homens sejam citados na matéria, o foco são as mulheres. E são majoritariamente fotos de mulheres que ilustram a reportagem).
Celso Kamura, o cabeleireiro responsável pela mudança no corte de Dilma, também ganhou entrevistas extensas no caderno de política. É necessário? É relevante? Acho que não. Mas, se fosse, cadê as entrevistas com o pessoal que cuida do visual de Serra e de outros candidatos do sexo masculino? O pior foi a ambiguidade utilizada pelo Estadão, na entrevista com Kamura: “este é o homem que faz a cabeça de Dilma”. Recurso já utilizado antes, pela revista Marie Claire, que intitulou uma entrevista com Dilma com "a mulher do presidente".
(Particularmente, também vejo muito de sexismo na mania de chamarem a Dilma de “poste” e dizerem que Lula será seu “tutor”. Ora, Dilma foi Secretária de Minas e Energia de um estado importante, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil. Que o carisma de Lula é algo importantíssimo na campanha, não há dúvidas. Mas daí a usar a palavra “tutela”, sei não. Sinto cheiro de sexismo aí.
Mas Dilma tem se saído muito bem com isso. “Decidam: uns dizem que eu sou mulher de ferro, outros dizem que sou um poste...”, disse ela na famigerada entrevista ao JN. A entrevista chamou a atenção das pessoas pelo nível de grosseria e afetação do casal Bonner e Fátima. A mim, no entanto, o mais chocante foi eles terem passado quase metade do tempo estipulado fazendo inquisição sobre o temperamento, a postura, a conduta da candidata. Ora, a opressão que nós, mulheres, sofremos está muito baseada em códigos de conduta: não se vista assim, não fale assado, não cruze as pernas desse jeito. Eu jamais esperaria que uma das primeiras perguntas da entrevista do JN fosse: “candidata, é verdade que você é grossa?”. Pô, que pergunta é essa?
Mas, como disse, a saída da candidata petista foi de mestre, apontando o óbvio: não dá para uma pessoa ser mandona e capacho ao mesmo tempo. Dilma, ao dizer, “decidam-se”, deixou claras as limitações e contradições da mania de dicotomizar as mulheres: ou puras ou putas, ou santas ou diabas, ou mandonas ou submissas. Há toda uma miríade de meio-termos. As mulheres são mais complexas do que isto)
Mas enfim, divago. Como dizia, sexismo não falta na cobertura. No entanto, ele não tem tido o efeito sobre o eleitorado que eu pensei que fosse ter. Hillary perdeu as primárias sendo amplamente ridicularizada. Dilma só se fortalece, só cresce. Embora a imprensa chie, invente dossiês, tente reduzi-la a um poste ou um bibelô, a candidata do PT avança nas pesquisas. A ponto de podermos até pensar em uma vitória no primeiro turno.
Não sei quanto a vocês, mas eu me emociono deveras diante da possibilidade de ter a primeira presidenta do Brasil. Ainda mais ganhando assim, de lavada, contra um candidato autoritário, tacanho, que sequer a própria campanha foi capaz de conduzir sem trapalhadas. Ainda mais sabendo que não é qualquer mulher. É uma baita mulher.
Claro que a gente deve evitar o clima de “já ganhou”. Até outubro, tem chão. Mas estou otimista. Não tem como não ficar otimista ao ver essa discrepância entre as pesquisas e a cobertura jornalística. É um sinal não só de que o sexismo tem menos poder do que eu pensava, mas também de que a imprensa tradicional está perdendo um tiquinho de seu poder.
E, caso Dilma seja mesmo eleita, um bom horizonte se abre. Ter uma mulher no cargo mais importante da república, um cargo de extrema visibilidade, será um incentivo e tanto para que outras mulheres tomem coragem para se candidatar. Para que outras mulheres tomem coragem para agir politicamente em suas comunidades, municípios, estados. E, principalmente, para que parte do eleitorado deixe de torcer o nariz para candidatas mulheres. Coisas boas hão de vir.
Este é um post do Clube de Leituras dedicado à discussão de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, e O Olho Silva, do chileno Roberto Bolaño. Caso você prefira ler o conto de Bolaño no original, em diagramação melhor, ele está disponível aqui. Vou escrever pouco, porque a ênfase é mesmo na conversa da caixa de comentários. A única regra do Clube é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.
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Causou escândalo a publicação de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, em 1975. O livro chegou a ser proibido pela ditadura militar, não por motivos políticos, mas por “atentado à moral e aos bons costumes”. Fonseca inaugura uma tradição que teria longa história na literatura brasileira, estendendo-se até os dias de hoje. Não são poucos os ficcionistas (especialmente paulistanos e cariocas) que tomariam Fonseca como modelo para o retrato da violência urbana.
Em termos estilísticos, o conto apresentava certa novidade em relação às representações anteriores da violência. Desaparece o sóbrio narrador da antiga ficção realista, que descrevia os fatos a partir de uma posição distanciada. As frases são curtas, grosseiras, chulas. Já no início do relato, o texto nos instala no interior da reunião dos marginais que recebem as armas e preparam o assalto. Há que se notar a escolha do autor: em vez de narrar a partir do ponto de vista das vítimas (em cujo caso o conto se iniciaria, por exemplo, com a festa dos grã-finos, para depois passar ao choque provocado pela chegada dos assaltantes), Fonseca conscientemente escolhe o ponto de vista destes últimos. Ali se vê o ressentimento de classe, o machismo, a brutal distância que os separa do Rio de Janeiro dos burgueses da Zona Sul.
Outra marca característica da representação da violência que se inicia com Rubem Fonseca é que ela já não traz qualquer conteúdo socialmente redentor. Enquanto que em longa tradição anterior de literatura realista, a violência costumava estar associada a um projeto de transformação social, aqui ela é gratuita e irredimível. O emblema disso é a discussão entre os assaltantes, sobre se os corpos grudam ou não grudam na parede quando assassinados com metralhadora escopeta. A significação da brutalidade e da violência parece se esgotar em si mesma. Não aponta para nada que a transcenda.
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Não sei a quantas anda a bolañomania no Brasil, mas ela vai se espalhando pelo mundo de língua inglesa com uma rapidez impressionante. "O Olho Silva" (do livro Putas Assassinas, de 2001) não é, em minha opinião, um de seus melhores contos, mas serve como introdução ao mundo de Bolaño: a melancolia dos jovens de esquerda que, nascidos na década de cinquenta, encararam nos anos setenta a derrota de seus projetos revolucionários. Bolaño é implacável com esse mundo. São temas recorrentes as idealizações retrospectivas do exílio, o egocentrismo e a mesquinharia, a vocação para a desgraça que parece acompanhar essa geração.
No entanto, Bolaño tampouco faz essa autópsia a partir de uma posição exterior. É nítida a empatia do narrador com o personagem que, em meio à homofobia da esquerda da época, demora um bom tempo para assumir sua homossexualidade. Os personagens de Bolaño perambulam pelo mundo (exatamente como seu autor, iconoclasta marginal que chegou a passar fome na Espanha) e vão tentando fazer sentido do que lhes ocorreu a partir de certas migalhas da experiência.
A castração de crianças na Índia aparece ao personagem como uma figura da fatalidade (O que aconteceu em seguida, de tão repisado, é vulgar: a violência da qual não podemos escapar. O destino dos latinoamericanos nascidos na década de cinquenta). O conto termina in media res, mas sugere que nada se alterará nesse ciclo de misérias ao qual os personagens parecem estar condenados. Parte da fascinação da literatura de Bolano advém, creio, do fato de que essa fatalidade não é representada em tintas naturalistas, ou seja, os personagens mantêm considerável iniciativa e individualidade. Mas ela não parece suficiente para reverter o movimento triturador da História.
Estes são meus dois centavos. O que acharam dos contos?
Por que a metáfora do tsunami não interessa à esquerda
Permitam-me, ao melhor estilo do Sapo Barbudo, uma alegoria futebolística.
Na primeira metade dos anos 80, o Atlético-MG era um dos três times mais fortes do Brasil, junto com o Flamengo e o São Paulo--ou o Grêmio, dependendo do momento que você tome. Hexacampeão mineiro, sistematicamente semifinalista ou finalista do Campeonato Nacional, convidado todos os anos aos torneios de verão da Europa (que, naquela época, tinham um prestígio que não têm hoje), o Galo acreditou no conto do vigário de que só havia um time grande em Minas. Nosso único rival, dizíamos, era o Flamengo, já que o Cruzeiro não existia, era um time pequeno.
Claro que o papo é legítimo como provocação de torcedor, mas quando a diretoria do seu clube começa a acreditar nele, pode ter certeza de que se avizinha um desastre. Embriagado por sucessos que nem eram tão grandes assim—afinal, o sonhado bicampeonato brasileiro e a Libertadores não vieram--, o Galo vendeu metade de uma Seleção Brasileira por milhões que jamais apareceram nos cofres do clube, elegeu péssimas diretorias, foi saqueado e não entendeu a transição para o futebol global. Em menos de dez anos, o Cruzeiro havia virado o jogo. Hoje não há atleticano fora dos sanatórios que acredite que competimos com o Cruzeiro em igualdade de condições. Já são quinze anos de supremacia azul no estado e onze clássicos sem vitória (dez derrotas e um empate). Nós nos vemos anualmente lutando contra o rebaixamento ou, no máximo, brigando no pelotão intermediário da tabela. Não há reversão desse quadro no horizonte, porque nosso presidente é um falastrão que personifica a Verneinung freudiana: aquele estágio de cegueira completa em que o sujeito acredita, com todas as forças, que negar a realidade é suficiente para que ela deixe de existir.
Pois bem. Petistas, comunistas, trabalhistas e socialistas: mirem-se no exemplo daqueles alvinegros de Minas. Ainda não ganhamos nada. A esquerda-esquerda (PT, PcdoB, PSB, PSOL e um naco do PDT) não possui sequer 40% do Congresso Nacional, todos os grandes jornais e a TV que domina o mercado nos são abertamente hostis, pelo menos dois Ministros do Supremo Tribunal Federal não perdem uma só oportunidade de nos atacar, e mesmo assim se dissemina, tanto no campo oposicionista, em tom melancólico, como no campo governista, em tom eufórico, o meme de que “está tudo dominado”.
Merval Pereira fala em tsunami, Eliane Cantanhêde, grunhindo contra os “cães da internet”, delira que a imprensa é “o último reduto do contraditório”, e mesmo em blogs de esquerda não é incomum ler coisas como “a oposição será varrida do mapa” ou “o PSDB vai virar um partido nanico”. Eu não sei em que realidade paralela vive essa gente. Na que eu observo, o aecismo está virando o jogo em Minas, Alckmin ainda lidera com folga em São Paulo, um dos melhores senadores petistas, Paulo Paim, está numa briga de foice para não ceder a vaga a uma sub-Miriam Leitão, Beto Richa lidera no Paraná e já sabemos com certeza que perderemos nossa única senadora catarinense. Claro que vários outros contra-exemplos poderiam ser citados, a começar pelo banho de votos que Dilma, pelo que parece, dará em Serra. Vamos crescer e eles vão encolher, isso é fato. Mas mirem-se, por favor, na serenidade de Dilma:
Lembremos que boa parte dos que hoje dizem que o PT já dominou tudo são aqueles que, até pouco tempo atrás, previam sua morte (como Montenegro, do Ibope, chegou a fazer há exatos doze meses) ou falavam de acabar “com essa raça” (como certo oligarca catarinense) ou negavam o fato de que o PT foi o partido que melhor se saiu nas eleições municipais de 2008. Quando este blog, baseado em números do TSE, fez essa observação, disseram que era “torcida organizada”. Agora dizem que dominamos tudo. Curiosamente, aqueles que escondem suas preferências e mentem acerca de uma pretensa neutralidade parecem acreditar que torcida organizada é só a dos outros.
Eles oscilam entre a retórica da aniquilação do adversário e a retórica de que o adversário quer aniquilá-los. Esse jogo não interessa à esquerda. São 500 anos de governo do PFL que nós mal começamos a reverter. Não nos esqueçamos da lição de Telê Santana: 3 x 0 no placar? É hora de partir pra cima e fazer o quarto.
Completaram-se exatos doze meses da imortal declaração de Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, à revista Veja, acerca da sucessão presidencial. Citemos, pois recordar é viver: O partido [PT] deu um passo a mais na direção do seu fim. . . A Dilma, em qualquer situação, teria 1% dos votos. Com o apoio de Lula, seu índice sobe para esse patamar já demonstrado pelas pesquisas, entre 15% e 20%. Esse talvez seja o teto dela. A transferência de votos ocorre apenas no eleitorado mais humilde. Mas isso não vai decidir a eleição. Foi-se o tempo em que um líder muito popular elegia um poste.
O gênio Montenegro, mais de um ano antes das eleições e diante do presidente mais popular da história do Brasil, decidira que o “poste” não seria eleito e que seu teto era 20%. Deixando de lado o desrespeito da referência ('poste') a uma mulher que já havia sido Secretária da Fazenda e das Minas e Energia do Rio Grande do Sul, Ministra das Minas e Energia e Ministra-Chefe da Casa Civil (assumindo este último cargo durante a maior crise institucional do país desde a queda de Collor), Montenegro colocou a credibilidade de seu instituto na berlinda, fazendo futurologia com nítidos de ares de torcida. Nada tenho contra quem torce pelos seus candidatos, mas em certas posições (presidência de institutos de pesquisa, ministério do Tribunal Eleitoral), convenhamos que é melhor esconder as preferências. Montenegro deixou que as suas interferissem na análise.
Além de tropeçar na futurologia, Montenegro também tropeçava nas referências ao passado. Na mesma entrevista, ele disse: Nas eleições municipais de 2008, entre as 100 maiores cidades, o PT perdeu em quase todas. Montenegro deveria ter consultado com mais atenção os números do Tribunal Superior Eleitoral, pois nos municípios brasileiros com mais de 200.000 eleitores, o PT foi o partido que mais venceu em 2008. Naquelas eleições municipais, no chamado G-78 o PSDB teve 13 vitórias, o PMDB teve 18 e o PT teve 20 [Contagem (MG), S.B.do Campo |(SP), Mauá (SP), Guarulhos (SP), Petrópolis (RJ), Anápolis (GO), Canoas (RS), Joinville (SC), Rio Branco (AC), Fortaleza (CE), Cariacica (ES), Vitória (ES), Betim (MG), Recife (PE), Belford Roxo (RJ), Nova Iguaçu (RJ), Porto Velho (RO), Carapicuíba (SP), Diadema (SP), Osasco (SP)]. Somadas às duas vitórias do PC do B (Olinda e Aracaju), às cinco do PDT (Macapá, Serra, Niterói, São Gonçalo e Campinas) e às quatro do PSB (Belo Horizonte, João Pessoa, São José do Rio Preto e São Vicente), as forças aliadas ao presidente Lula saíram das eleições municipais governando 59 entre as 78 maiores cidades do país. Mas, para Montenegro, o PT havia perdido “quase todas”.
Por tudo isso, o gesto de Montenegro é bastante louvável. Mas já que se desculpou de suas estapafúrdias certezas acerca do futuro, ele poderia ter aproveitado a oportunidade para se desculpar também por traficar informações falsas sobre o passado recente.
Enquanto isso, o DataFolha segue em seu autismo. Depois do estrepitoso fracasso da sua estratégia de inflar artificialmente os números de Serra, produzindo um monstrengo em forma de sanfona que nenhum analista político sério reconheceria como verossímil, o DataFolha repete a mesma prática com os números de São Paulo, recusando-se a registrar a subida de Mercadante que até mesmo o Ibope já reconheceu. No excelente gráfico feito por Alê Porto, é possível ver a discrepância entre os números da eleição presidencial do DataFolha e dos outros institutos:
Observando a evolução da corrida paulista e o impacto da "onda vermelha" nas eleições estaduais, cabe a pergunta: será que o DataFolha vai passar outra vergonha, agora em São Paulo?
Para dar o mui necessário respiro da campanha eleitoral, o blog vai reeditar o Clube de Leituras na próxima terça-feira. Para quem nunca participou, a coisa funciona assim: nós decidimos de antemão uma data e um texto, todo mundo lê, na madrugada anterior ao dia marcado eu publico um post com algumas anotações sobre o conto e conversamos todos na caixa de comentários. O Clube tem uma única regra. É proibido se desculpar por não ser especialista em literatura.
A reedição do Clube de Leituras me foi sugerida pela Flávia Cera e pelo Victor da Rosa. Eles pensaram no escritor argentino César Aira, mas o que há por aí do Aira na internet está em espanhol. Sabendo que muita gente tem preguiça de ler em castelhano, sugiro que encontremos algum conto de escritor brasileiro. O projeto Releituras tem muita coisa, assim como o site Domínio Público. Decidam-se por um texto e, no momento que tivermos a escolha feita, eu atualizo este post com o título da obra. Pode ser um conto ou dois contos que possam ser comparados. Se o clube voltar com fôlego, pensamos num romance.
Atualização: Depois de algumas horas de conversas, nos decidimos por dois contos: O Olho Silva, de Roberto Bolaño, e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Na madrugada de segunda para terça, então, eu coloco aqui um post para iniciar o papo. Obrigado a todos os que ofereceram outras sugestões. Elas estão anotadas para uma próxima edição do Clube.
Blog endossa Jô Moraes para Deputada Federal em Minas
Esta foi fácil. O endosso do blog para a Câmara dos Deputados em Minas Gerais--ou seja, o voto que eu vou efetivamente depositar na urna--é de Jô Moraes (PCdoB, 6565). Aí vão minhas razões:
Como sempre, caixa aberta para quem quiser endossar alguém, argumentar ou discutir minha escolha.