A revista Teoria e Debate me pediu um artigo de balanço da campanha de Barack Obama das primárias até a eleição. Segue aí o texto que será publicado no número deste mês da TD. Boa parte é inédita, ainda que não traga muitas novidades para quem acompanhou a cobertura por aqui. Alguns trechos já apareceram aqui no blog anteriormente.
Num artigo para a New Yorker, Ryan Lizza relata que em 2007, no início da campanha das primárias democratas dos Estados Unidos, a CNN e o YouTube promoveram um debate no qual se preguntou a Barack Obama: “você aceitaria se encontrar sem pré-condições, no seu primeiro ano de governo, em Washington ou qualquer outro lugar, com os líderes de Irã, Síria, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, para tentar superar a divisão entre os nossos países?” Obama respondeu: “Sim, aceitaria”. Massacrada por Hillary Clinton e outros presidenciáveis por essa resposta, a campanha discutia as formas de minimizar a afirmação. A equipe se preparava para a guerra do spinning. Obama entrou na conversa de forma peremptória: ninguém massagearia a declaração para desdizê-la. “A idéia de que não podemos nos reunir com Ahmadinejad é ridícula. Trata-se de um monte de sabedoria convencional de Washington que não faz o menor sentido. Não vamos fugir desse debate. Vamos estimulá-lo”, decretou Obama. Em vez de redigir um memorando à imprensa driblando a questão, a equipe escreveu uma nota afirmativa, que passava ao ataque. Foi a primeira troca de fogo aberta com Hillary Clinton. Foi também o momento em que seus assessores entenderam que se tratava de um candidato diferente.
Numa conversa em 2008, uma ativista da campanha de Obama me contava dos planos de derrotar os republicanos na Carolina do Norte, estado que não votava democrata desde 1976. Era mais ou menos como encontrar um comitê tucano convicto de se prepara para derrotar Lula numa eleição direta em Pernambuco. Mesmo Bill Clinton, um democrata sulista eleito duas vezes carregando vários estados do Sul, não vencera a Carolina do Norte. O nativo John Edwards, um democrata conhecido no país, posto que ex-candidato a vice-presidente, abandonou o Senado, já que sentiu que não conseguiria enfrentar o voto conservador na Carolina do Norte. Na era moderna, o único assento cativo do estado no Senado Federal havia pertencido a Jesse Helms, um ultra-reacionário da extrema-direita do já direitista espectro político americano. Ao ouvir os planos da campanha para a Carolina do Norte, eu dei uma gargalhada: “você está me dizendo que um negão democrata de nome Hussein formado em Harvard vai bater o São McCain no estado de Jesse Helms, no coração do Sul segregacionista?” Ela tirou um mapa da gaveta e passou à demonstração: “você conhece a Carolina do Norte. Veja como cresceu a área universitária desde que você morou lá. Agora veja a mudança na demografia do norte do estado de 2004 para cá. Agora veja os números da primárias. Agora observe quantos eleitores nós registramos.” Atônito, eu acompanhava a matemática e reconhecia que fazia sentido. Uma semana depois, saía uma pesquisa que já mostrava Obama virtualmente empatado com McCain na Carolina do Norte. No dia 04 de novembro, Obama colocou o estado na coluna democrata pela primeira vez desde Jimmy Carter.
As anedotas revelam duas belas novidades representadas pela campanha de Obam: o fim da política da triangulação e o fim do focalismo eleitoral, dois elementos do que poderíamos chamar a política do medo entre os progressistas americanos. Tratava-se, simplesmente, dos dois maiores dogmas do Partido Democrata nas últimas décadas, as crenças de que 1) mover-se para a centro-direita, “triangulando” e manipulando as próprias convicções pela conveniência era a única estratégia política capaz de derrotar os Republicanos; 2) a focalização em três ou quatro estados decisivos (e, dentro deles, em demografias específicas) era a única tática eleitoral viável, posto que os outros estados eram descartados como terrenos democrata ou republicano já sólidos. Como esses dois dogmas tinham a força de lei natural e a pré-candidata que os representava tinha o reconhecimento do nome e a máquina do partido, as primárias democratas pareciam uma cerimônia pró-forma para coroar Hillary Clinton.
Apesar da novidade histórica que poderia representar a eleição da primeira mulher para presidente da super-potência, a perspectiva de uma presidência Hillary não era animadora para o setor mais progressista do Partido Democrata: a combinação entre a disposição de triangular e a estratégia polarizadora de buscar sempre os 50% + 1 fazia da candidatura Hillary uma espécie de mal menor com o qual os progressistas devíamos nos conformar. Esse caráter conservador reforçou-se quando Al Gore decidiu não ser candidato. Hillary se apresentava agora como “candidata inevitável”, a única em condições de derrotar John McCain no voto popular. O argumento em favor da inevitabilidade de algo termina sendo sempre conservador, claro. Hillary abraçou-o num ano em que o eleitorado dos EUA queria, desesperadamente, uma mensagem de mudança, algo novo, uma realidade possível mas ainda não imaginada. Neste ano os EUA queriam, digamos, justamente o oposto do inevitável. Foi seu primeiro erro.
O focalismo do setor dominante do Partido – o chamado DLC, o Conselho de Liderança Democrata, ao qual se vinculam os Clinton –, havia sido defendido com êxito por marqueteiros como Mark Penn, cuja condição de “guru” se baseava numa única vitória eleitoral nos anos 90. Esse focalismo foi responsável pelo segundo erro da campanha de Hillary Clinton, de caráter bem mais básico que o primeiro. Não leram as regras das primárias, não imaginaram que a disputa pudesse passar da Super-Terça (a quarta data das primárias, depois de Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul, na qual 20 estados escolhem seus delegados), não se prepararam para os estados que escolhiam delegados através de assembléias. Enquanto isso, a equipe de Obama descobria que uma vitória num estado minúsculo como Idaho (com assembléias) poderia render mais delegados que uma vitória eleitoral num estado populoso como a Nova Jersey. Obama lançou-se a um trabalho de organização que foi também uma revisão no que se entendia por democracia. O voto universal e secreto, nas primárias democratas, coexistia com a democracia organizada e popular das assembléias. Nestas, a vantagem de Obama foi enorme. Na medida em que avançava, a liderança de Obama na contagem de delegados foi carregando também o voto popular, rumo a uma vitória incontestável nas primárias.
Tudo isso conspirou para que Obama conquistasse uma improvável indicação no Partido Democrata. Mas o fundamento mesmo do fenômeno, o ato que possibilitou a vitória e conferiu à “onda Obama” a sua âncora básica foi o posicionamento do jovem senador de Illinois em 2003, quando se colocou a questão política e moral definitiva do seu tempo: a invasão ilegal e criminosa do Iraque, baseada em mentiras fabricadas pela administração Bush. Num momento em que 75% do país se colocava do lado belicista e patrioteiro, Obama teve a coerência e a coragem de ser inequívoco na condenação à guerra. Num ambiente político como o norte-americano do começo da década, não era pouco. Essa foi a condição de possibilidade da candidatura. Logo depois, o discurso memorável na convenção democrata de 2004 o tornaria conhecido de todo o país.
É certo que, ao longo da sua viabilização como candidato, a negritude de Obama foi passando a ocupar um papel de destaque, mesmo que às vezes oblíquo, não mencionado. Ao princípio, entre o próprio eleitorado negro Obama não figurava com índices altos, posto que eles duvidavam da sua viabilidade. Na terceira data da primária democrata, na Carolina do Sul (Obama havia vencido em Iowa e Hillary em New Hampshire), Bill Clinton fez o famoso comentário com desdém sobre a candidatura de Obama: “Ah, Jesse Jackson também venceu a Carolina do Sul em 1984 e 1988...”. Não se tratava, nem de longe, de uma frase racista, que fique claro. Era uma suposição demográfica que Bill tentava usar como tática eleitoral divisionista, como parte da estratégia de inevitabilidade da campanha Hillary. Havia boas razões para se supor que um candidato como Barack Obama -- “inexperiente”, negro, liberal – não seria páreo para um suposto “herói de guerra” e Republicano moderado como John McCain. Mas 2008 não era um ano normal. Saía-se de oito anos da pior – da mais mentirosa, fiscalmente irresponsável e belicamente criminosa -- presidência da história dos Estados Unidos. Perceber essa singularidade epocal foi outro mérito de Obama.
Obama sabia que a questão racial apareceria e ela se instalou quando se desenterraram as declarações incendiárias do seu pastor, Jeremiah Wright, contra a injustiça “na América”. Sendo uma igreja negra, os sermões inevitavelmente continham trechos que testemunhavam a divisão racial profunda do país. Junto com a crítica à opressão, incluíam algumas teorias conspiratórias sobre a disseminação da AIDS ou pontos de vista pseudo-científicos sobre diferenças mentais entre euro- e afro-americanos. A reação de Obama à controvérsia, no discurso de 18 de março de 2008 que ficou conhecido como “Uma união mais perfeita”, foi um salto qualitativo gigantesco na maturidade das discussões sobre raça nos Estados Unidos. Grosso modo, poderia se dizer que foi a primeira vez que um candidato a presidente discursou aos compatriotas como adultos acerca do tema racial.
Falando na Filadélfia e evocando o documento fundador do país e sua grande chaga, a escravidão, Obama fez o contrário do que seria de se esperar numa situação embaraçosa de “culpa por associação”. Em vez de minimizar a polêmica ou descartá-la, discursou sobre as raízes do ressentimento que se via nos discursos de Wright, localizando-as na totalidade da experiência negra nos EUA. Em vez de “triangular” em volta da associação, encarou-a como parte integrante, no bom e no ruim, da sua experiência de vida. Condenou as declarações que julgava equivocadas, mas chegou a dizer que renegar seu pastor seria como renegar a sua avó branca. Ao falar do ressentimento, não deixou de mencionar os brancos pobres que, com freqüência, sentem que sua raça não lhes serviu de nada e que a culpa é dos negros beneficiados por ações afirmativas ou dos hispanos imigrantes que forçam para baixo os salários do mercado. Durante os quase 40 minutos de reflexão, o tom foi de compreensão das feridas raciais do país, mas também de convicção de que a unidade para transcendê-las era a forma de legar um futuro às novas gerações. Depois do discurso, já estava esvaziado de antemão qualquer intento de usar a questão racial como arma divisionista contra Obama.
O uso inteligente da internet e o mapa eleitoral montado pela jovem campanha de Obama fizeram o resto. Na Virgínia e Carolina do Norte, estados “vermelhos” (republicanos) sulistas com mudanças demográficas vinculadas à expansão universitária, Obama compreendeu que suas chances de vitória residiam nas matrículas de eleitores de 18-30 anos e no comparecimento afro-americano massivo. No Oeste, Obama abriu outra frente de vitória em estados vermelhos, ao entender a mudança demográfica do Colorado (o crescimento dos latinos) e manter a infra-estrutura herdada das assembléias das primárias em estados como Nevada. No cinturão industrial do meio-oeste, onde profetas do apocalipse decretavam que Obama não teria chances, pelo racismo dos eleitores operários brancos, seu discurso econômico transmitiu a mensagem que precisava. Ganhou o perene campo-de-batalha de Ohio e, a partir de sua força em Illinois, carregou um estado que não votava democrata desde 1964, Indiana. Com uma proposta de política externa sem histerias bélicas, conseguiu conquistar até o voto cubano da Flórida, velho reduto republicano.
Uma série de perguntas permanecem quanto ao grau de ruptura com o governo Bush de que será capaz Obama. Em todo caso, o que é mais animador na sua figura não é a posição que ele ocupa no espectro político, nem sua raça ou sua “mulatez”, mas a compreensão de que a política é uma prática que não se reduz a uma escolha entre a intransigência ressentida e a triangulação sem escrúpulos.
Ipatinga-MG, 31 pontos: Que me desculpe o amigo do Vale do Aço, mas eu não poderia rir mais dessa sequência de desgraças. O Ipatinga, o clube, precisava de uma dose de humildade. O ex-pretendente a "segunda força de Minas" foi rebaixado no Campeonato Mineiro e pego no vexame de uma tentativa de suborno a jogadores de um clube infinitamente maior que ele -- o Leão do Bonfim, glorioso tricampeão mineiro de 1932/33/34, instituição que o Ipatinga ainda tem que comer muito feijão para alcançar. Depois, no Nacional, o Ipatinga não deu para a saída. Está mais próximo da Série C que de voltar à A: um triste fim para a soberba e falta de sentido de proporções. Tchau, Itair Machado. Vá fazer piadinha com o Atlético de Três Corações, que é do seu tamanho. O Galo lhe mostrou por que o epíteto Vingador é conhecido no Brasil todo.
Na dança da degola (em ordem decrescente de desespero):
Figueirense. 35 pontos: O Avaí, do meu amigo Joca Wolff, já subiu, numa épica campanha. Depois de uma década sendo sinônimo de "sucesso" em Santa Catarina, o Figueira pode virar time de segunda, justo no ano em que o maior rival chegou à primeira. Ah, a fortuna.
Portuguesa, 36 pontos: Anda alto no ranking da simpatia por aqui. Se vai subir um Santo André da vida, que fique a Lusa também. Hoje tem um pega-pra-capar com o Fluminense, num jogo de "seis pontos". Depois, duas boas chances de pontuar, em casa, contra Goiás e Sport, ambos já sem ambições. A Lusa fica, oxalá.
Vasco, 37 pontos, um jogo a mais: Seria um castigo dos deuses o Vasco descer justo no ano em que Eurico foi posto pra fora. Em seu favor no ranking da simpatia por aqui está o fato de que, bem, no Rio eu sou Vasco. Contra ele, está o secreto desejozinho de que o Vasco passe pelo purgatório da Série B e volte numa campanha que deixe clara a extensão do desastre que foi a herança de Eurico Miranda. Pode descer à beça depois da rodada deste fim de semana; semana que vem, pega o São Paulo. Reforçando a secação, está, claro, a vontade de ver o Renato Gaúcho pagar pela língua também.
Náutico, 37 pontos: O Náutico chegou a fazer barulho no começo do campeonato, mas daí foi morro abaixo. Contra ele, no ranking da simpatia, há o fato de que os Aflitos são a casa mais problemática -- e possivelmente a de pior gramado -- da Série A. O Timbu tem dois jogos de vida ou morte, contra o Figueira, em Floripa, e contra o Atlético-PR, em casa. Sério candidato à degola.
Fluminense, 37 pontos: No ranking da simpatia, só tem a seu favor os bacaníssimos torcedores como Lucia Malla. De justiça poética, o rebaixamento teria o fato de que o Flu nunca subiu da B para a A jogando bola. Só ganhou a C mesmo, na época do mergulho no inferno. O Flu pega Inter e São Paulo fora de casa, além da desesperada Lusa no Rio. Se chegar à última rodada dependendo só de si, salvar-se-á: o jogo é com o Ipatinga no Maracanã. Mas pode chegar lá já quase rebaixado, ou dependendo de ganhar e secar os outros.
Atlético-PR, 38 pontos: Dos muito ameaçados, é o que está em situação melhorzinha. Tem jogo em casa contra o Vitória (time que não quer mais nada) e chance de confirmar a vaga na última rodada, também em casa, contra o Flamengo. Entre uma data e outra, tem Botafogo no Rio e um duelo do desespero com o Náutico em Recife. Se conseguir bater o Timbu nos Aflitos, praticamente se garante na Série A, já que o Furacão deve conseguir alguns pontinhos em casa.
Santos, 40 pontos: O Santos do meu querido Zé Miguel só cai mesmo numa tragédia daquelas.
Faça aí o seu bolão. A torcida -- não o palpite -- deste blog é Ipatinga, Vasco, Fluminense e, para a última, Figueira ou Náutico. Seria bonito ver a Segundona com dois grandes do Rio.
PS: Eu já quase não escrevo sobre futebol, desprovido que ando (por escolha) de satélite global. Mas continuo lendo e aprendendo com o Balípodo, Impedimento, Futepoca, Além do Jogo, Jucão , PVC e outros ótimos blogs de futebol que há por aí. Vejam este chutômetro do Balípodo, que primor.
Acordei com os gritos da minha mãe: “Levanta! Levanta! O exército está aqui!” Meu pai não estava em casa naquela noite [...] Dois soldados me pegaram e me levaram para fora. Aí eu vi que queriam me prender. Fiquei com medo, comecei a chorar e chamei meu tio para ir comigo.
Os soldados algemaram minhas mãos com algemas de plástico, o que doeu muito. Um soldado me agarrou pela camisa e começou a andar e me empurrar. A camisa apertava meu pescoço e eu não respirava direito. Tentei me liberar e ele me deu um soco nas costas e apertou mais a camisa, me sufocando ainda mais. Outro soldado me socou também e puxou meu cabelo quando andávamos. Chorei e gritei por meu tio e meu pai. Os soldados me batiam e diziam “quieto, quieto!” Me levaram para um beco entre as casas, onde há cactos. Estávamos andando perto de uns cactos quando um soldado me empurrou sobre eles. Os espinhos me cortaram nas mãos e nas pernas. O soldados continuaram me empurando e batendo ao longo do caminho.
Segue por um bom tempo o inferno vivido por Muhammad Salah Muhammad Khawajah, garoto de 12 anos espancado e detido pelas forças de ocupação israelense recentemente em Nilin, Distrito de Ramalá, Palestina Ocupada. 12 anos de idade: arrancado de dentro de sua própria casa.
Que não se perca de vista, em nenhum momento, um fato que está amplamente documentado. Se você não está ouvindo falar de Israel na imprensa, o mais certo é que continua a rotina de assassinatos, demolição de casas, violência contra crianças, anexação de terra palestina com o muro, bloqueio naval e terrestre, humilhações nos postos de controle que picotam e enjaulam a terra palestina, agressões e encarceramentos de deputados e observadores internacionais e agora, incrivelmente, a proibição da entrega de comida. Como uma espécie de gang adolescente birrenta e agressiva que se vê de posse de granadas e metralhadoras semi-automáticas, Israel vai desrespeitando, uma por uma, todas as leis internacionais que regulam a convivência com os vizinhos. Violam, inclusive, em níveis inimagináveis, as convenções humanitárias que regem o próprio conceito de ocupação colonial.
É um exemplo inaudito de um estado criminoso o suficiente para não caber nem mesmo no padrão humanitário internacionalmente recomendado às potências coloniais ocupantes. Em meio a tantos crimes, encontra tempo para censurar contatos diplomáticos feitos pela soberana República Federativa do Brasil.
Em Gaza, Israel vai pouco a pouco esmagando a população de 1,5 milhão de palestinos com o fechamento das fronteiras terrestre e marítima, disparos contra barcos de pescadores, proibição da entrada de víveres e séries intermitentes de atos de sabotagem econômica e assassinato político. Um cotidiano de terror vai criando desnutrição, desemprego e desespero. O especialista Juan Cole, professor da Universidade de Michigan, qualifica a situação atual de 3 milhões de palestinos como de escravidão e o bloqueio de comida como crime de guerra.
Se de ética se trata, que fique dito: a ocupação e a escravidão vividas pelo povo palestino representam a questão moral incontornável do nosso tempo. Sem uma solução que termine de vez com a ocupação israelense e garanta ao povo palestino um estado contínuo e viável nas fronteiras internacionalmente reconhecidas, as de 1967, não há vislumbre de paz duradoura para o planeta.
Vencedor dos prêmios Jabuti e Portugal-Telecom, entre outros, e aclamado pela crítica, O filho eterno (2007), de Cristovão Tezza, leva a representação da experiência pessoal na ficção a um nível de auto-reflexividade raramente visto na literatura contemporânea. O protagonista do romance recebe a notícia de que será pai em meio a uma profusão de golpes à sua auto-estima. Sustentado pela mulher, seu trabalho é a escrita, mas nela fracassa, acumulando cartas de recusa das editoras e notas de eliminações em concursos literários. Na profissão, por outro lado, ele também experiencia a derrota: relojoeiro, seu ofício é, por excelência, anacrônico. Como escritor, ele ainda não é, além de não dar indicação de que poderá vir a ser; como relojoeiro, já não tem razão de existir. Esse intervalo termina se desdobrando numa temporalidade suspensa entre o fantasma da paralisia que espreita, de perto, e o resquício de atividade e iniciativa que lhe resta. Assim se encontra ele quando recebe a notícia de que será pai.
A abordagem desse inominado personagem à vida é um exame hipercrítico e cínico da natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos (p. 49). Trata-se da história de como o protagonista lidará com a paternidade em meio um colapso de outras zonas de sua masculinidade – história que é narrada numa terceira pessoa singular, original, caracterizada pelo uso do discurso indireto livre em quase a totalidade do volume. O efeito é de proximidade ao pensamento do personagem, já que o narrador fala como se estivesse “dentro” da sua cabeça. Essa vizinhança, no entanto, se inverte na relação do protagonista com o mundo, que é marcada pela distância. Revise-se os grandes mestres do indireto livre, de Jane Austen em adiante, e se encontrará poucos exemplos de exploração tão hábil da tensão entre a hiper-proximidade entre voz narrativa e personagem e, ao mesmo tempo, o hiper-distanciamento entre personagem e mundo. Vemos de perto um homem que só sabe ver de longe. O efeito é o de uma empatia impossível, agônica, entre protagonista e leitor.
No corredor do hospital, esperando a mulher dar à luz, ele fuma, marcha descompassadamente, se angustia. Marcado pelo destempo, ele chega atrasado à cena que o constitui. Só no dia seguinte ao parto, junto aos indefectíveis parentes, ele inteira-se: a criança nascera com Síndrome de Down. O filho eterno é a meticulosa mas sucinta narração desse encontro da paternidade “fracassada” com uma masculinidade já em frangalhos, num mundo em que a Síndrome de Down vai progressivamente adquirindo o caráter de emblema, alegoria de uma outra relação com o tempo, que poderíamos chamar de presente perpétuo.
Estamos no Brasil de 1980, onde “Síndrome de Down” ainda é termo exclusivamente médico. No léxico possível de seu tempo, o seu filho era um mongolóide, vocábulo que carrega essa curiosa herança do colonialismo inglês, que batizou descapacitações com o nome de etnias. A natureza arbitrária, absurda, lotérica, errática dos fatos dera o veredito de trissomia daquele vigésimo-primeiro cromossomo, daquele em particular. A partir daí o protagonista, um pequeno burguês que solta a franga, como bem disse Ney Reis em sua resenha, está condenado ao contato com uma classe que despreza – a dos médicos – e ao mesmo tempo a viver a medicina como desdemonização do mundo por excelência, antídoto definitivo contra as explicações mágicas. A medicina entra no relato de Tezza como confirmação da natureza lotérica da existência.
Um dos primeiros devaneios que visita o personagem é o de que, por tudo o que lera, as crianças com Síndrome de Down morrem mais facilmente e, em geral, mais cedo. O pesadelo talvez não dure tanto, afinal. O leitor tem acesso a essas fantasias monstruosas através de uma voz narrativa que esvazia, de antemão, todo julgamento moral. Só uma gigantesca viseira poderia levar a uma leitura d' O filho eterno como parábola moralizante. O texto, claramente, se recusa a submeter o personagem à prova moral, e opta pela observação da sua labuta de ir compreendendo a amoralidade essencial de todas as coisas. Ele não é, claramente, um “além-homem” nietzscheano. Não vive no mundo afirmativo da alegria. Trata-se, ao contrário, do espécime ressentido e hiper-interpretativo que em língua nietzscheana chamaríamos de “último homem.”
As matérias-primas do romance de Tezza são, portanto, uma masculinidade em frangalhos, a paternidade “fracassada” e depois lentamente reaprendida, e um tempo repartido entre o presente-intervalo (do pai) e o presente-perpétuo (do filho). Nas 220 enxutas páginas, com freqüência se alternam parágrafos que descrevem o período anterior ao nascimento de Felipe -- os anos do pai em Portugal e na Alemanha, como trabalhador ilegal -- e o presente em que vai crescendo o garoto, entre 1980 e 2005. Em algumas ocasiões, o deslocamento temporal se produz, habilmente, no interior do mesmo parágrafo. Os saltos ao presente retratam o aprendizado descontínuo, quebrado, capenga de Felipe, que um dia, acidentalmente descobre o futebol como imagem da contigência, da natureza pendente e inacabada do mundo.
Felipe, 20 e poucos anos, não lê, não escreve, mas viaja na seqüência interminável de páginas da internet. Constrói pastas que nomeia como ATLTEICO ou ALTLETICO, sempre com uma letra trocada (p.217). Procura no Google o ônibus do Clube Atlético Paranaense. Começa a viver as partidas de futebol como experiências que, ao contrário do joguinho da FIFA que ele roda no computador, são imprevisíveis, nesse que é o mais fatalista e contingente dos esportes. A imprevisibilidade do futebol vai dando a Felipe uma idéia de “futuro” e através do conceito de campeonato ele entende o de calendário. O encadeamento de jogos funciona como metáfora inteligível do devir, da passagem do tempo, mesmo que continue uma tremenda confusão sobre o que é Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores ou Campeonato Paranaense. Na medida em que Felipe vai vislumbrando algo para além do presente-perpétuo, o próprio protagonista passa a tecer outra relação – ainda precária, mas parcialmente efetiva – com sua existência no tempo e sua condição de homem e de pai.
Esse sutil deslocamento, modesto, limitado, nada triunfante, é o irredutível gesto afirmativo d'O filho eterno, sem dúvida um dos poucos romances realmente extraordinários publicados no Brasil no século que se inicia.
PS 1:
PS 2: Este post é parte de um trabalho bem mais longo, sobre a masculinidade na narrativa brasileira, de Fernando Gabeira – O que é isso, companheiro? (1979) e Crepúsculo do macho (1980) – a Caio Fernando Abreu – Morangos mofados -- (1988) e Cristovão Tezza. Apresento-o (em inglês) nesta quarta-feira no meu ex-lar, a Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, a cujos professores -- especialmente o compatriota Luciano Tosta -- agradeço pelo convite. U of I é uma das melhores universidades públicas dos EUA e dona orgulhosa da terceira maior biblioteca universitária americana.
PS 3: Leonardo Bernardes e Germano dos Santos Leite escreveram bem sobre os últimos (lamentáveis) desenvolvimentos do processo de criminalização do trabalho de Protógenes Queiroz e Fausto de Sanctis. A Associação dos Juízes Federais do Brasil divulgou nota que a Consultor Jurídico insistiu em publicar com o título "Contra o STF", em contradição com o conteúdo do texto, que se limita a defender a independência dos juízes federais antes os recentes ataques ao seu trabalho.
O blog reuniu numa única página e sob uma única tag, A eleição de Obama, todos os seus posts sobre a eleição presidencial norte-americana, desde o dia 08 de janeiro, em que o Biscoito publicou um guia aos pré-candidatos republicanos e democratas. Está tudo lá: a cobertura em tempo real da Super Terça, a arrancada de Obama, a resposta a quem dizia que "ninguém sabia" o que Obama havia feito no Senado, além de toda a série sobre os swing states e a cobertura da vitória final. Está tudo numa só página: A eleição de Obama (obrigado ao César pela idéia).
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O bom sociólogo Fernando Henrique Cardoso fez algumas coisas razoáveis como presidente, fez muitas coisas bem ruins mas, com certeza, não fez ao regime legal de seu país um dano maior que o de indicar Gilmar Mendes para a Suprema Corte da nação. O blog empresta sua solidaridade ir-res-tri-ta ao Doutor Protógenes Queiroz que, como indicávamos já em julho, virou investigado, pelo simples fato de investigar, dentro da lei, falcatruas dos poderosos. Protógenes conhece o Biscoito. Nossa solidariedade está com você, delegado.
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Começou a discussão entre os leitores, portanto não há tempo para que eu elabore mais que isso: gostei demais da indicação que fez Barack Obama, de Rahm Emanuel para chefe de gabinete. É legal ter um sujeito mais tough, negociador durão e partidário como chefe de gabinete. Especialmente se você tem 57 senadores e 259 deputados. Ao mesmo tempo, ao reservar a figura clintoniana para a posição de chefe de gabinete, Obama deixa a área de formulação de política, provavelmente, com a outra corrente, mais inovadora e independente. Gol de placa de Obama. Os republicanos estão borrando nas calças com Emanuel pilotando o gabinete.
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Antes de elaborar mais sobre isso, quero manter vivas as esperanças de que Susan Rice e Kathleen Sebelius sejam parte do ministério. O extraordinário David Axelrod estará lá, com certeza.
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James Carville, uma das cabeças da administração de Bill Clinton, acaba de assinar contrato aqui conosco, em Tulane University, para dar um curso especial de ciência política sobre eleições. Já está lotadaço. Estou pensando em pedir autorização para fazer o curso como ouvinte, entre minhas aulas de alemão, e me comportar como um verdadeiro troll, questionando-o sobre o focalismo que impuseram ao Partido Democrata nos anos 90.
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Peralá, deixem-me entender: o Vanderlei Luxemburgo envia o auxiliar técnico para um jogo oficial do seu clube na Argentina e assiste ao dito cujo comentando para a Globo? Foi isso que aconteceu? Depois perguntam por que não escrevo mais sobre futebol, e culpam a crise do Galo.
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Aos leitores que estão começando a se preocupar com o excesso de entusiasmo com Obama: eu terei amplas oportunidades de criticar o gabinete de Obama por aqui, tenho certeza. Já de cara, sublinho os dois únicos momentos da campanha em que eu tive críticas fortes a Obama: a negociação sobre a FISA e a frase sobre Jerusalém na AIPAC. Ambas merecem posts mais longos. Mas, fora isso, eu afirmo, sim, que Obama é o político presidencial democrata mais confiável, do meu ponto de vista, desde Carter.
Desde que Dadá Maravilha era centroavante do Inter, digamos.
É chave não perder de vista as derrotas parciais que tivemos na noite histórica do 04 de novembro. Além da emocionante vitória de Obama, as coisas correram razoavelmente bem nas eleições para o Senado e a Câmara dos Representantes. Mas houve pelo menos uma derrota que me doeu muito. Na Califórnia, estado progressista, foi aprovada por 52,5% a 47,5% a odiosa Proposição 8, patrocinada por grupos religiosos, que estabelece que “somente o casamento entre um homem e uma mulher será reconhecido pelo estado”. Na mesma noite em que ajudou a eleger o primeiro presidente negro da história, a Califórnia deu uma banana para gays e lésbicas.
Eu não gostaria de estar dizendo isso, mas é a pura verdade: o comparecimento massivo do eleitorado negro foi decisivo para a aprovação da proposição. Entre os brancos, o “não” ganhou por 51 x 49, mas entre os negros o “sim” goleou por 70 x 30. Entre os latinos, muito numerosos na Califórnia, o “sim” também venceu, por 53 x 47. Entre as mulheres negras, 75% votaram a favor de se retirar o direito dos gays ao casamento. O eleitorado feminino costuma ser muito mais progressista que o masculino nos EUA, mas nesta questão o voto foi praticamente idêntico. Os jovens votaram massivamente contra a proposição discriminatória. A turma com mais de 35 votou massivamente a favor.
John McCain apoiava a proposição e Barack Obama, professor de direito constitucional, se opunha. A histeria contra o casamento gay foi decisiva para a derrota de John Kerry em 2004 e, neste ano, Obama elaborou uma posição com mais nuances sobre o assunto. Ele não defende o “casamento gay”, mas também não defende casamento nenhum como matéria constitucional. Argumenta que o casamento deve ser deixado para que cada igreja resolva como queira, e que a lei do país se limite a garantir a todos os casais direitos idênticos (de adoção, propriedade conjunta, herança etc.) como elementos de uma união civil.
O problema é o raio da palavra, “casamento”.
Se você colocar numa cédula a idéia de restringir o direito de gays e lésbicas à adoção, herança etc. (ou seja, os direitos que costumam acompanhar o “casamento”), ela não passará, mesmo em estados mais conservadores. Basta definir o “casamento” como “a união de um homem e uma mulher” que a proposição passa, mesmo nos lugares mais liberais. É a mesma idéia, mas dependendo de como ela for formulada, o resultado é distinto. Se, amanhã ou depois, algum grupo religioso maluco resolver emendar a constituição proibindo ateus de serem professores nas escolas primárias e secundárias, a proposição passa, mesmo nos lugares mais progressistas. Esta foi uma das chaves das vitórias conservadoras nas chamadas “guerras culturais” nos EUA: mobilizar os medos e preconceitos da maioria silenciosa.
Para que vocês tenham uma idéia do absurdo da coisa: na mesma cédula em que elegeram Obama e aprovaram a proposição 8, os californianos também aprovaram a proposição 2, que exige gaiolas mais confortáveis para as galinhas. Não, não estou brincando. Siga o link. Na mesma noite em que estabeleceu os direitos das galinhas, a Califórnia decidiu que gays e lésbicas são cidadãos de segunda classe. Este blog não tem nada contra galinhas e porcos e se opõe a quaisquer maus-tratos gratuitos de animais. Mas continua firmemente antropocêntrico.
Ainda há esperanças de que numa nova Suprema Corte – com mais um ou dois juízes nomeados pelo Presidente Obama --, proposições como a número 8 sejam definitivamente declaradas inconstitucionais. Afinal de contas, elas são um tapa na cara da décima-quarta emenda à constituição americana.
Mas essa batalha é morro acima, não há dúvidas. O blog manda seu abraço solidário a todos os seus leitores gays e lésbicas, decepcionado com essa importante derrota.
Barack Obama eleito presidente dos Estados Unidos. Nasce um estadista
Ontem à tarde, antes de começar a cobertura ao vivo das eleições, eu fui ao supermercado renovar o estoque de cerveja. Alguns amigos iam passar por aqui e eu queria ter Abitas em quantidade suficiente. Na fila do supermercado, uma daquelas senhoras bem New Orleans, negra, sorridente, com o rosto marcado pelo tempo, me pediu um documento que comprovasse a minha idade. Feliz da vida por ter sido confundido com um garoto de menos de 21 anos, eu entreguei minha carteira de motorista e ela brincou: ah, que legal ter um aniversário no Halloween!
Nos EUA, puxar papo político-eleitoral com um estranho é bem menos comum que no Brasil. Animado pela brincadeira dela, no entanto, eu me arrisquei: Ma'm, I'm feeling pretty good about tonight. Ela retrucou: I'm just hoping and praying. Subitamente tomado pela consciência de que aquela mulher, que quando menstruou pela primeira vez não podia sequer usar os mesmos bebedouros, banheiros públicos e piscinas dos brancos, estava prestes a ajudar a eleger Barack Obama presidente da república, eu comecei a sentir o nó na garganta. Perguntei a ela: did you ever think you'd live to see the day? Não era necessário completar a frase. Ao ouvir a pergunta sobre se já imaginara viver para ver esse dia, ela sabia muito bem a que eu me referia. Respondeu: No, son, I didn't. But God is good. E eu, ateu de carteirinha, desabei a chorar nos ombros daquela senhora negra e crente de New Orleans, que trabalhava por 6 dólares a hora num supermercado na noite de 04 de novembro de 2008, a noite em que nós e Barack fizemos história.
Ela encerrou o papo: fique calmo, meu filho. Vá beber sua cerveja tranquilo.
Como bom atleticano, eu tenho Ph.D. em desgraças e decepções. Uma avaliação mais ponderada dos alcances e dos limites do governo Obama terá que ser feita com calma, dentro de alguns dias – inclusive porque essa avaliação depende das quatro vagas ainda indefinidas no Senado (Minnesota, Geórgia, Alaska, Oregon). Caso os democratas conquistemos essas quatro vagas, o Presidente Obama terá a maioria mágica de três quintos (60 senadores), que garante a aprovação de qualquer projeto sem preocupação com obstruções. Até lá, é hora de comemorar.
É de se comemorar, por si só, o fim do regime mais desastrado, inepto e mentiroso da história da república. É de se celebrar o surgimento de um verdadeiro estadista, um homem que, no pódio da vitória, não esfrega seu sucesso na cara dos outros, não tripudia sobre os vencidos, não joga seus apoiadores contra os seguidores do candidato derrotado, mas opta pelo caminho oposto: a reconciliação, a união, a possibilidade do diálogo. É de se celebrar o fim da premissa de que os progressistas americanos só venceríamos à moda Clinton, fazendo concessão atrás de concessão para a direita. É de entusiasmar ter um líder que entende a internet, compreende o poder das novas tecnologias, tem um visão de futuro. O discurso de vitória de Obama foi o de um verdadeiro estadista.
Eu me orgulho de ter apostado. Desde o primeiro minuto. E me junto à festa da Dona Sarah Obama, no Quênia:
Em breve, faço uma análise mais detalhada dos números. Mas adianto que as vitórias de Obama em Indiana e na Virgínia são marcos inesquecíveis. São o coroamento de uma estratégia inteligente, que redesenhou o mapa político dos Estados Unidos. Dificilmente essa garotada de 18 a 25 anos voltará à letargia política em que havia se afundado.
Como alguém que acredita na política – que acredita na desejabilidade e na inevitabilidade da política – e é pai de duas crianças, eu só posso dizer:
Cobertura ao vivo da noite histórica do Presidente Obama
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11:48: Até agora, Obama já levou Vermont, New Hampshire (que McCain tinha esperança de vencer), Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware, o Distrito de Colúmbia (da capital Washington), Maine e Illinois.
McCain já levou Kentucky, Carolina do Sul, Tennessee, Oklahoma.
Até agora, as grandes notícias são as vitórias de Obama na Pensilvânia e em New Hampshire. O resto era tudo esperado. Trata-se agora, basicamente, de confirmar Ohio ou Flórida e sair para o abraço.
12:00. Fecharam-se as urnas em toda a região central do país e em Nova York. Dentro de uma hora, acho que dá para anunciar o resultado com certeza.
12:03: Para quem está com a televisão ligada: a MSNBC está dando um banho na CNN. Pulem pra lá.
12:04: Faltam oito estados decisivos. McCain precisa vencer todos os oito.
12:08. Começaram a chegar os votos de Fairfax County e de Charlotesville, em Virgínia. A diferença, que andava em 10% a favor de McCain, já caiu para 3%. Tentei fazer uma regra de três aqui, para determinar se dava para anunciar vitória. Ainda não dá, mas está com cara boa.
12:17. Os números da Flórida são bons para Obama. A disputa está muito apertada, mas a julgar pela votação de Jacksonville -- que é área militar, de McCain --, dentro de uns 30 minutos dá para ter notícias de lá.
12:31. Alguns leitores me avisam que a MSNBC já declarou Ohio para Obama. Sem ter visto o anúncio deles, o Biscoito está pronto para prever: Obama vencerá Ohio. Por que? Obama lidera sem único voto de Cuyahoga County. Ou eu fiquei doido, ou fiz a regra de três errado, ou o mapinha do NYT está errado. Tirando isso, Ohio é Obama!
12:34. Chegou a hora. Você leu aqui primeiro: BARACK OBAMA É O NOVO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Daqui pra frente, é só matemática. Comemorem, porque não tem volta.
12: 47: A coisa na Flórida também está bonita, meus caros. Miami-Dade é território democrata, eu sei. Mas em geral é 55 x 45. Obama está vencendo por lá com 60 x 40. Nas áreas militares, em que McCain esperava ter grande vantagem, a diferença é pequena.
12:55. Uma multidão gigantesca se reúne em Chicago, no meu querido Grant Park, onde até joguei futebol. Meus queridos leitores, eu estou muito, muito emocionado. Este blog já errou muito, mas nesta, modéstia às favas, nós acertamos do começo ao fim. No dia 28 de janeiro, o blog declarou seu apoio a Obama e iniciou a jornada.
01: 06. Pedro Doria me enche o saco porque McCain venceu na Louisiana. Olhe os votos de New Orleans, Pedro!
01:44. Obama lidera na Flórida com 80% dos votos apurados. Mas, como em Palm Beach, reduto obamista, somente 27% votos já foram contabilizados, o Biscoito está pronto para anunciar: Obama vencerá a Flórida!
01: 52. Uma revolução no voto popular acaba de ser confirmada: Barack Obama, um senador negro formado em Harvard, vencerá as eleições em Virgínia, estado do sul segregacionista. O Biscoito explicou o porquê há algumas semanas.
02: 00. Oito minutos depois do Biscoito, a CNN canta Virgínia para Obama. A última vez que Virgínia votou democrata, Castelo Branco era o presidente do Brasil.
03:00. A festa começou por aqui. Chega de blogar. Amanhã, mais detalhes desta noite inesquecível.
Pela primeira vez desde 1952, um governo sem Bush ou Dole
É oficial: na eleição do Senado mais importante da noite -- para o blogueiro, pessoalmente --, a queridíssima Kay Hagan derrotou a outrora poderosa Elizabeth Dole. É o primeiro assento roubado dos republicanos na noite. Rumo à maioria absoluta no Senado.
Pela primeira vez desde 1952, os EUA terão um governo sem nenhum Bush nem Dole.
I'm so proud of you, Kay!
Alguns leitores estão ficando confusos com o mapa do New York Times. O fato de que um estado esteja vermelho ou azul não significa que ele já esteja decidido. Você tem que olhar a porcentagem de votos que já foram contabilizados e, evidentemente, de onde vêm eses votos.
Este site traz o mapa completo das eleições anteriores, condado por condado, para efeitos comparativos.