No décimo dia de sua agressão na Faixa de Gaza, as Forças de Ocupação Israelenses (FOI) aumentaram significantemente suas operações militares, atingindo principalmente alvos civis, particularmente casas. Ataques aéreos e bombas de artilharia atingiram dezenas de casas. As FOI também atingiram instalações médicas e ambulâncias. Uma equipe da Defesa Civil foi alvejada enquanto tentava apagar o incêndio que se seguiu ao bombardeio de uma clínica.
A invasão terrestre das FOI na Faixa de Gaza se expandiu, na medida em que tropas e tanques desembarcaram vindos do mar ao sul da Cidade de Gaza. Setenta e sete pessoas foram mortas nos ataques das FOI entre 1:00pm do dia 4 e 2:30pm do dia 5. Esse número inclui 21 crianças e nove mulheres. Além disso, uma equipe de resgate médico foi morta durante o mesmo período. Dezenas mais foram feridos, a maioria civis. Atacar bens e pessoas protegidas representa flagrante indiferença às regras do direito internacional que dizem respeito a conflitos armados; particularmente enquanto porta-vozes do exército e do governo israelenses continuam a afirmar que as FOI atingem apenas a infraestrutura militar e combatente.
Aviões israelenses dispararam 15 mísseis ao redor da escola do Colégio Omar Ibn al-Khattab, em Beit Lahia, não muito longe de onde estão as tropas terrestres israelenses. Não recebemos ainda nenhum informe quanto à existência de vítimas.
Às 5:50pm aproximadamente do dia 4 de janeiro, aviões israelenses dispararam mísseis na mesquita Mosab Ibn Omair, em Beit Lahia, norte da Faixa de Gaza, matando três homens. Eles foram identificados como:
- Mohammed Khader Hamouda, 19 anos; - Ala Zaqout, 28 anos; - Mohammed Hassan Baba, 30 anos.
O Amálgama iniciou uma série de traduções do Electronic Intifada, com notícias que você não encontrará no nosso pobre jornalismo, enlameado entre o silêncio cúmplice e a distribuição de boletins de imprensa do exército de ocupação.
"Estão destruindo tudo ... O que dizem as notícias?": O horror de um pai enjaulado em Gaza, no blog da filha
Meu pai falou calma, eloquentemente, na escuridão de Gaza sitiada, só com o fogo das bombas israelenses iluminando o seu mundo: “eles estão destruindo tudo o que é belo e vivo”, ele disse ao âncora. Suas mãos tremiam, ele confessava, enquanto se apoiavam no chão de sua casa, onde eles moviam os colchões para mais longe das janelas, com as explosões ensurdecedoras rasgando o céu negro ao redor, iluminando-o em enormes nuvens de fogo.
[...] “O que está acontecendo, o que está acontecendo?”, ele repete em tom exausto, hipnótico. “A sensação é que eles bombardearam nossa rua de dentro para fora. Não vejo nada. Não sei o que está acontecendo. O que dizem as notícias?”, ele pergunta freneticamente, desesperado por qualquer migalha de informação que possa fazer sentido do terror que tomou conta dele.
Laila é uma mãe palestina de Gaza, casada com um palestino refugiado e, no momento, "a salvo" na Carolina do Norte, enquanto seu próprio pai vive o inferno em Gaza. As conversas telefônicas entre Laila e seu pai, relatadas pelo post, ocorreram no sábado à noite. Hoje elas já seriam praticamente impossíveis. Imperdível, urgente, o blog: Diary of a Palestinian Mother.
Enquanto a carnificina causada pelo ataque israelense à Faixa de Gaza nos enche de horror, tristeza e indignação, um fato nos obriga a nos manifestar: a destruição da Universidade Islâmica de Gaza. Assim como as universidades católicas e pontifícias em todo o mundo, a Universidade de Gaza é uma instituição dedicada ao ensino e à pesquisa acadêmica. Devido à negação ao acesso e compartimentação da vida nos territórios palestinos, a Universidade Islâmica tornou-se ainda mais importante para a população jovem de Gaza, impedida de cursar faculdades na Cisjordânia, em Israel ou no exterior, inclusive quando são aceitos como bolsistas. A Universidade atende mais de 20.000 estudantes, 60% dos quais são mulheres. Formada por 10 faculdades, oferece cursos de graduação e pós-graduação em educação, religião, arte, comércio, charia, direito, engenharias, ciências, medicina e enfermagem.
O bombardeio e a destruição deliberados das instalações de uma universidade situada numa faixa de terra que é uma verdadeira prisão ao ar livre e que -- sabiam-no mui cinicamente os bem informados serviços de inteligência israelenses -- não abrigava arma nem rojão nenhum, configura uma daquelas ações para as quais o termo crime de guerra é um pobre, patético, miserável eufemismo.
Abaixo vai a foto do protesto realizado em Birzeit University há alguns dias. Birzeit é uma notável universidade situada perto de Ramalah, Cisjordânia, Palestina Ocupada:
(Post dedicado a M.S., estudante de comércio em Birzeit. Imaginam o que é estudar comércio na Palestina Ocupada, jornalistas e mídia? Não? Então imaginem).
"Vou lhe contar como ele morreu": Tradução de um blog de Gaza
Trabalhadores médicos de emergência, Arafa Hani Abd al Dayem, 35 anos, e Alaa Ossama Sarhan, 21 anos, tinham atendido o chamado para ir buscar Thaer Abed Hammad, 19, e seu amigo morto Ali, 19, que haviam estado fugindo do bombardeio, quando foram eles mesmos atingidos por disparo de um tanque israelense.
Era pouco depois das 8:30 da manhã de 04 de Janeiro, e eles estavam na região de Attattra, Beit Lahia, noroeste de Gaza, na área da escola americana bombardeada no dia anterior, em que mataram um guarda-noturno civil de 24 anos, destroçando-o, queimando o que restara.
Gemendo de dor, com o pé direito amputado e lacerações de bomba de fragmentação ao longo das costas, de todo o corpo, Thaer Hammad conta como seu amigo Ali foi morto. “Estávamos atravessando a rua, saindo de nossas casas, e aí o tanque disparou. Havia muita gente saindo, não éramos os únicos”. Hammad interrompe seu testemunho, de novo gemendo de dor. Ao longo dos dois últimos dias, desde que a invasão terrestre de Israel e a campanha intensificada de bombardeios começaram, os residentes de toda Gaza têm estado fugindo de suas casas. Muitos não tiveram a chance de escapar, tendo sido pegos dentro de casa, enterrados vivos, esmagados. O médico continua a narrativa: “Depois que foram bombardeados, Thaer não conseguia caminhar. Ele chamou Ali para que o carregasse”. O resto da história é que Ali havia carregado Thaer por alguma distância quando atiraram na cabeça de Ali, bala disparada por um soldado não visto, bem na direção na qual eles fugiam. Ali morto, Thaer ferido, e as pessoas fugindo, a ambulância foi chamada.
Tradução minha de mais um relato em primeira mão que confirma o que já sabemos: no massacre israelense em Gaza, a prática é matar mesmo os civis feridos que estão sendo carregados. O testemunho vem de mais um blog que você deve acompanhar nos próximos dias, enquanto ele dure: In Gaza.
Carta aberta de acadêmicos americanos ao Presidente Eleito Barack Obama
Em 1981, quando o Sr. era aluno de graduação no Occidental College, o Sr. esteve entre os primeiros num corajoso grupo de estudantes e professores que, na época em que a causa ainda era impopular ou desconhecida, clamou por desinvestimento do regime de apartheid na África do Sul. O Sr. sabia que era imperativo exercer pressão sobre um regime racista que, sem escrúpulos, oprimia populações negras e de cor que eram discriminadas, submetidas a leis sobre a passagem e ao controle de todos os seus movimentos, picotadas em bantustões e sujeitas a detenção, tortura e execução extra-judicial. Quando a população negra protestava, como as crianças escolares de Soweto, podia ser sumariamente fuzilada pela polícia ou pelo exército. O Congresso Nacional Africano, sob Nelson Mandela, foi proscrito como movimento terrorista, seus líderes foram encarcerados, torturados e assassinados, e suas guerrilhas encararam o poder esmagador do exército da África do Sul, equipado e treinado em parte pelos Estados Unidos e por seus aliados europeus. [...]
Figuras públicas tão distintas como o Bispo Desmond Tutu e o Presidente Jimmy Carter já reconheceram que Israel também é um regime de apartheid, prática se não nominalmente. A Africa do Sul, agora uma democracia multi-étnica em funcionamento, era um estado branco para o povo branco. Israel é um estado judeu para o povo judeu. Seus cidadãos não-judeus, a maioria deles árabes palestinos, são discriminados civil e economicamente de numerosas formas. Às populações palestinas despossuídas, vítimas de limpeza étnica, dispersas na diáspora e nos campos de refugiados de Gaza, da Cisjordânia e do Líbano, nega-se o internacionalmente reconhecido direito de retorno. Eles tiveram suas terras e casas tomadas por força “legal” e armada. São submetidas a punição coletiva, prolongados estados de enjaulamento e controle absoluto e deliberadamente destrutivo de seus movimentos diários. Enquanto a África do Sul instituiu leis de passagem, os postos de controle que proliferaram em toda a Cisjordânia e nas saídas de Gaza impedem que estudantes cheguem a suas escolas, que trabalhadores cheguem a seus lugares de trabalho, que lavradores cheguem a suas plantações, que os doentes cheguem aos poucos hospitais que sobrevivem para servi-los.
Os assentamentos colonizadores ilegais que, em desrespeito a todas as leis internacionais acerca de ocupações, proliferam em toda a Cisjordânia, são feitos para que se tornem “fatos do terreno” permanentes. Eles dividiram o território reconhecidamente palestino em ilhotas segmentadas, em bantustões sitiados, com o intento de impedir um estado palestino contíguo. O assim chamado muro de segurança, ilegalmente construído em território palestino, como reconheceu a própria Corte Suprema de Israel, separou lavradores de suas terras e transformou vilarejos antes prósperos em prisões isoladas. Os bombardeios aéreos e as rotineiras incursões militares israelenses em cidades e campos de refugiados palestinos já mataram incontáveis civis, muitos dos quais crianças. Desde a eleição do Hamas, em eleições abertas e livres, Israel tem sujeitado a população civil de Gaza a um prolongado estado de enjaulamento, com o objetivo de sufocá-la até a submissão, privando-a de água, eletricidade, comida, medicamentos e acesso ao mundo exterior. O ataque mais recente a Gaza, com uso sangrento e desproporcional de força excessiva, não é um ato de auto-defesa, e sim a continuação dramática de uma insidiosa política de extermínio sobre um povo que se recusa a desaparecer.
Cada um desses atos é um crime contra a humanidade.
Enquanto a situação em Gaza for de massacre do exército invasor israelense sobre a população civil, este blog deverá funcionar como central de tradução e disseminação de textos, vídeos e informações sobre a matança, com um ritmo bem mais acelerado de postagem e caixas de comentários fechadas. Esta última escolha tem sido, com exceções ocasionais, a mais comum neste blog para o tema da Palestina Ocupada. Ela não está em discussão.
Vittorio me disse ontem ... quando lhe perguntei como ele responde à morte ... ele me disse que já não tem lágrimas para chorar ... que suas lágrimas secaram ... olho para ele sentado diante de mim ... um homem bonito de um metro e oitenta ... trinta e três anos ... sua maior preocupação no mundo: salvá-lo e “permanecer humano”, que é como ele termina [Bomba!] cada artigo que escreve ...
É o relato ao vivo dos horrores perpetrados pelo exército israelense na maior prisão ao ar livre do mundo: Moments of Gaza.
Bombardearam o mercado central de frutas de Gaza ... ao mesmo tempo, bombardearam um prédio de apartamentos ... é tipo o inferno aqui agora ... já são mais de 500 mortos e 2500 feridos, dos quais 50% são crianças ... há feridas que você não gostaria de ver ... crianças chegando com o abdômen aberto ...
Entre as centenas que vimos entrando no hospital, um era militar do Hamas .. qualquer um que queira apresentar isso como uma guerra contra outro exército está mentindo ... é uma guerra total contra a população civil ... eles estão bombardeando 1 milhão e meio de pessoas que estão enjauladas.
Quem fala é Mads Gilbert, médico noruguês que está no meio do inferno em Gaza, dando notícias reais, ao invés de repetir os boletins de imprensa do exército de Israel que vemos na grande mídia.
O exército de Israel é suficientemente poderoso para destruir todo o Oriente Médio (e, de fato, também para destruir parte importante do ocidente). O único problema é que, até hoje, jamais conseguiu mandar, sequer, no território em que lhe caberia mandar. O mais poderoso exército do mundo está detido, ainda, pela resistência palestina. Como entender essa contradição?
Bem, para começar, Israel jamais trabalhou para construir qualquer paz com os palestinos; jamais usou outro meio que não fossem os meios do extermínio, da limpeza étnica, do holocausto, para matar as populações nativas e residentes históricas na Palestina, desde a fundação do Estado de Israel, em maio de 1948.
Israel expulsou 750 mil palestinos, converteu-os em refugiados e, em seguida, passou a impedir sistematicamente o retorno deles e de seus filhos (hoje, também, já, dos netos deles), apesar das Resoluções da ONU, ao mesmo tempo em que continuou a destruir cidades e vilas, ou - o que é o mesmo - passou a construir colônias de ocupação sobre as ruínas das cidades e vilas palestinas.
Desde 1967, Israel fez tudo que algum Estado poderia fazer para tornar impossível qualquer solução política: colonizou por vias ilegais territórios ocupados por via ilegal e recusou-se a acatar os limites de antes das invasões de 1967; construiu um muro de apartheid; e tornou a vida impossível para a maioria dos palestinos. Nada, aí, faz pensar em esforço de paz. Antes, é operação continuada e sistemática para a limpeza étnica dos territórios palestinos ocupados ilegalmente.
Assim sendo, se a paz implicar - como implica necessariamente - o fim do mini-império construído por Israel, Israel continuará a fazer o que estiver ao seu alcance para que não haja paz, mesmo que a paz lhe seja oferecida numa bandeja, como a Iniciativa de Paz dos sauditas, recentemente, por exemplo. Outra vez, não se entende: se os israelenses só tinham a esperar esse tipo de oferta, se desejassem alguma paz, porque a rejeitaram, praticamente sem nem a considerar?
Faz tanto tempo que Israel rejeita toda e qualquer possibilidade de paz, que a maioria dos israelenses já nem são capazes de ver que rejeitar a paz converteu-se, para Israel, numa espécie de segunda natureza.
Mas o motivo mais aterrorizante pelo qual nenhuma iniciativa de paz jamais teve qualquer chance de prosperar tem a ver, de fato, conosco, com o ocidente.
Israel continua a ser apoiada pelas democracias ocidentais como uma espécie de força delegada, como batalhão ocidental avançado, implantado na entrada do mundo árabe, mais indispensável, tanto quanto mais dependente do ocidente, que regimes-clientes, como os sauditas e como o Iraque de Saddam até 1990.
Como uma espécie de 'encarnação' da tese do "choque de civilizações" de Huntington, Israel é, como sempre foi, mais exposta ou mais veladamente, um bastião do mundo judeu-cristão, contra os árabes e o Islam.
Isso já era verdade há décadas, mas jamais foi mais verdade do que na última década, quando a Ordem do Novo Mundo entrou em crise terminal, e começou-se a ouvir falar da "Doutrina do Choque", de "Choque e Horror", de várias 'operações' tempestade contra os desertos da Ásia e sempre contra os islâmicos.
Israel, não o Iran, possui armas nucleares e é capaz de usá-las - e várias vezes já ameaçou usá-las. Mas fala-se como se o perigo viesse do Iran, não se Israel. Os que propõem a destruição do Iran são os mesmos mercadores de tragédias que impingiram aos EUA e à Inglaterra o custo altíssimo da guerra do Iraque.
As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:
1) No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.
2) As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.
3) Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.
Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.
4) Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.
5) Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.
6) A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.
7) Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.
8) Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.
9) A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.
10) É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.
11) Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).
12) Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.
13) Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:
a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo).
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.
14) A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.
15) O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.
16) Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.
(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).
300 mortos e 1000 feridos em Gaza: Israel continua assassinando e os líderes mundiais se calam
A chacina começou a ser preparada há seis meses. Isso, por si só, desmantela qualquer uma das desculpas usadas por Israel para justificar o pior massacre da história de Gaza, desde o começo da ocupação ilegal da Palestina, em 1967. Enquanto durou a “trégua” (entendam as aspas: trégua na Terra Santa significa que os palestinos continuem vivendo calados, sem reagir, numa realidade de ocupação militar brutal, demolições de casas, cerco naval, terrestre e aéreo de Gaza, checkpoints humilhantes, colonização constante de suas terras na Cisjordânia, espancamentos em mãos de colonos fortemente armados, monopolização dos recursos hídricos, proibição de observadores internacionais etc.), Israel teve várias oportunidades de suspender o verdadeiro crime de guerra que é o bloqueio à entrega internacional de alimentos e remédios aos habitantes de Gaza. Quatro de cada cinco habitantes de Gaza dependem dessas entregas para sobreviver. Somente durante essa “trégua”, dezenas de palestinos foram assassinados por Israel.
A estratégia é conhecida: forçar a população da maior prisão ao ar livre do mundo ao desespero e à destituição para, num segundo momento, usar suas reações como pretexto para mais um massacre. Afinal de contas, há eleições em Israel em fevereiro e, no estado sionista, assim como nos EUA, bombardeios às terras árabes rendem votos fáceis. Antes, os “terroristas” com os quais não se podia negociar era a OLP (atual Fatah), excluídos por Israel e pelos EUA da última rodada de conversações de paz que tiveram alguma chance real, as de Madri em 1991. Agora, o “terrorista” da vez já não é o humilhado Fatah, mas o Hamas. Para a ocupação colonial, interlocutor bom é interlocutor morto.
O crime israelense foi perpetrado na hora do rush, em que as crianças ainda não haviam voltado da escola. Bombardearam até a universidade. Tudo cuidadosamente planejado para matar o maior número de gente possível. O máximo que os jornalistazinhos conseguem dizer sobre a chacina -- com honrosas exceções -- é que se tratou de uma “reação” “desproporcional”. Eis aqui a "reação desproporcional" (vejam depressa, porque há uma verdadeira operação de censura sionista sobre o YouTube; vários vídeos já foram retirados):
Na Síria, na Turquia, no Líbano, na Indonésia, até em Londres, aumenta a cada dia a revolta contra os repetidos massacres que sofre o povo palestino. A cada dia, fica mais longe a solução biestatal com que a comunidade internacional e os palestinos já concordaram há tempos: uma partilha ao longo das fronteiras de 1967, que desse aos palestinos o direito de viver em 22% da sua terra original. O crime não é somente contra os palestinos. É também – não se iludam, jornalistazinhos que racionalizam cada chacina sionista – um crime contra as crianças israelenses, pois não há ocupação colonial que dure para sempre. Israel tem hoje todas as cartas na mão, dada a esmagadora diferença de forças.
Mas são 7 milhões de israelenses, dos quais 20%, árabes, jamais defenderiam o estado sionista. Em volta dele, 1 bilhão de muçulmanos. Essa irresponsabilidade do país que se recusa a ser adulto ainda custará muito caro a toda a humanidade.
Este blog considera que o jugo criminoso sob o qual vive o povo palestino é a questão humanitária definitiva do nosso tempo. Ela tem ramificações em todas as facetas da política internacional. É importante se informar sobre ela. Aqui vão alguns links, infelizmente quase todos em inglês.
Para uma documentação diária dos crimes perpetrados pela ocupação militar, acompanhe o International Middle East Media Center. Também é possível ter notícias diárias do horror no Palestine Information Center. Para uma coleção atroz de vídeos dos massacres em Gaza, consulte o Israel's Crimes e o Palestine Video. Se você quer dedicar 50 minutos a se informar sobre a catástrofe palestina, assista ao imperdível filme Palestine is still the issue. Para ler depoimentos terroríficos sobre o cotidiano em Gaza e na Cisjordânia ocupada, assine o feed do Electronic Intifada. No Facebook, você pode demonstrar solidariedade e ouvir um pouco das histórias dos palestinos que resistem à ocupação, trocando a foto do seu perfil, por alguns dias, por essa aqui, cuja inscrição em árabe diz "somos todos Gaza". Se você é membro de alguma associação profissional, confira se ela já faz parte do boicote a Israel. O boicote foi uma arma poderosa contra o Apartheid sul-africano e é um dos poucos instrumentos que temos para ajudar aos que lutam contra a infinitamente mais perversa ocupação sionista.
O blog se despede por 2008, promete para fevereiro, em data a se confirmar, um debate sobre o livro de Ilan Pappe, The Ethnic Cleansing of Palestine, confirma a reabertura da caixa de comentários no próximo post e deseja aos seus leitores um feliz, ou pelo menos tolerável, 2009.
Atualização II: Na chamada "blogosfera progressista" norte-americana, nem uma palavra. Silêncio sepulcral, com uma ou outra exceção.
Atualização III: Além, claro, do perene ponto luminoso que é o blog, não de um jornalista, não de um militante, não de um "blogueiro profissional", mas de um acadêmico: Professor Juan Cole, que há tempos esmiuça, estuda, traz informação nova, escreve com lucidez e sabe do que fala. Não é somente um leitor competente do "árabe" em geral, mas falante proficiente de três de suas variantes dialetais. Ler os arquivos do Informed Comment, nos dias de hoje, é instrutivo, revelador.